Pegamos uma chuva intensa no caminho. Pessoas andavam pelas ruas com guarda-chuvas e os carros se aglomeravam em fileiras por conta da pouca visibilidade. Notei que a Júlia não parava de mexer no celular. Seguimos o caminho todo em silêncio. Não demoramos muito e chegamos à um condomínio maravilhoso. Ele possuía cinco torres com o mesmo número de andares e os prédios eram brancos e azuis. Todos possuíam sacadas que acredito que levavam a uma vista maravilhosa da cidade de São Paulo. O taxista parou o carro e a Júlia pagou a corrida. Fomos até a recepção do prédio para pegar algumas correspondências e logo em seguida seguimos para o elevador.
— Vamos, Victor!
— Vamos.
— Tímido?
— Não vou mentir, um pouco.
Ela riu.
— E Ainda não me acostumei com a ideia de morar em uma cidade que não conheço. Para piorar a minha situação, a única roupa que eu tenho está toda molhada por causa dessa chuva. — Falei apontando para minhas roupas ensopadas.
— Vamos dar um jeito nisso agora.
Pegamos o elevador e seguimos até o 19°andar. Notei que se tratava da cobertura. Imaginei o quanto os pais dela deveriam ser ricos, afinal eles moravam em um condomínio de luxo e como se não bastasse, moravam na cobertura. A porta do elevador se abriu e dei de cara com um apartamento surreal. O elevador era privativo. Dava direto ao apartamento. Tudo estava nitidamente planejado. Cortinas se espalhavam pelas paredes brancas, o piso possuía um tipo de cerâmica reluzente, a sala bem harmoniosa, com uma tv que não tinha mais tamanho, obras de arte estavam expostas por todos os lados e pelo estilo das peças, nem se eu trabalhasse minha vida toda pagaria por elas. De repente fui interrompido dos meus pensamentos pela Júlia.
— Victor, vai ficar aí na porta do elevador? — Falou rindo.
— Que apartamento da hora. Mora com seus pais aqui? — Falei entrando no apartamento.
— Obrigada! E não. Moramos eu e meu irmão, o Arthur.
— Nossa que f**a! — Falei deslumbrado.
— Vou ajeitar o quarto de hóspedes para você, Vitinho.
— Vitinho? — A questionei estranhando o apelido.
— Sim. Vitinho. É como irei te chamar. Victor é muito formal.
— Tudo bem então, Juju.
Ela riu do apelido que a dei.
A seguiu para um corredor extenso, que pelo que imaginei, daria aos quartos. Fiquei ali sozinho admirando aquele apartamento por uns alguns minutos, até que ela voltou e me puxou pelo braço, levando-me até o quarto de hóspedes. Quando entramos, o quarto era absurdamente perfeito. Uma cama de casal, um guarda-roupas de solteiro, uma TV que ficava sobre um painel acinzentado e uma escrivaninha. Havia um banheiro enorme dentro do quarto.
Era perfeito.
— Vitinho, vou deixar você descansando. Se quiser tomar um banho, fique à vontade. Temos toalhas limpas no guarda-roupa.
— Tudo bem, Juju. Vou tomar um banho e depois vamos conversar mais um pouco.
— Okay. Vou indo. Qualquer coisa é só me chamar.
— Certo.
A Júlia saiu. Me sentei na cama e fiquei pensando em como meu dia tinha sido louco. Não demorei muito e fui tomar banho. Não tem nada mais relaxante do que um banho após um dia cansativo. Deixei a água cair pelo meu corpo. Peguei a toalha e enrolei a cintura. Vasculhei minha mala de mão para ver se achava alguma peça de roupa, mas não encontrei nada. Tudo havia ficado nas malas extraviadas. Fiquei desesperado. Ouvi a voz da Júlia do outro lado da porta.
— Victor, já terminou aí?
— Já. Só tem um probleminha.
Ouvi Passos vindo do corredor e logo após os passos, algumas batidas na porta.
— Estou indo.
Abri a porta.
— Uau! Que corpo você tem, Vitinho.
Soltei um riso envergonhado.
— Para, né. Assim eu vou ficar sem graça
— Qual o “probleminha” que você estava falando?
— Estou sem roupa para vestir. — Falei sem graça.
— Vou pegar algumas roupas do meu irmão e amanhã nós vamos ao shopping comprar algumas para você.
— Tudo bem.
A Júlia saiu do quarto e ficou alguns minutos no quarto do irmão e voltou com algumas peças de roupa. Me deu para vestir e disse que me esperaria na sala. Vesti uma regata branca, que por sinal ficou enorme em mim e uma bermuda jeans. A Júlia estava na sala.
— O que você tanto faz aí, Juju?
Antes de responder, ela fez questão de admirar as roupas do seu irmão em mim.
— Nossa! Você está todo o Arthur.
— Ai meu Deus! — Respondendo a sua pergunta: Estou conversando com um boy aqui. Pense num homem lindo, charmoso, gostoso e rico. Pensou?
— Sim. Christian Grey. — Respondi aos risos.
— Seria meu sonho, mas não é esse não. É esse aqui. — Falou mostrando a foto do Boy. E realmente o homem era um espetáculo.
— Realmente o homem é “pinta”.
— Pinta? Pelo amor de Deus, Victor. Quem utiliza essa expressão hoje em dia? Ele é um boy magia. Mas enfim, vamos pedir pizza? Não tem nada para comer aqui em casa. Arthur parece que não vive aqui.
— Onde estão seus pais?
Nesse momento a Júlia abaixou a cabeça e percebi que seus olhos se encheram de lágrimas.
— Eu falei algo de errado?
— Não. É que...que... A Julia não conseguia falar muito bem. Sua voz estava trêmula.
— Olha, Ju. — Disse segurando as suas mãos, − Eu não sei o que houve, mas se não quiser falar eu entenderei.
— Não se preocupe. É que meus pais faleceram em um acidente de carro há dois anos. Tudo ainda é muito recente e ainda não nos acostumamos com isso. Estamos cuidando dos negócios da família. O Arthur me ajuda muito. Não era bem o que ele queria, pois sempre foi mimado e agora que está acordando para a realidade. Eu fico responsável pelas finanças. Eles nos deixaram uma herança e estamos tentando manter isso. Por isso eu estava no aeroporto. Era uma viagem de negócio.
Aquilo havia me deixado surpreso. Respirei fundo para não transparecer fraqueza e a abracei.
— Olha, Deus sabe de todas as coisas. Tenha fé, e sei que vocês irão conseguir passar por isso.
— Vamos deixar esse assunto um pouco de lado. Vamos comer? Esse papo me deixou com fome. – Disse a Júlia sorrindo.
— Vamos! Onde vocês costumam pedir a pizza?
— Tem uma pizzaria Delivery muito boa, e as pizzas são ótimas. Vamos ligar para lá e pedir uma família. Ligamos para a pizzaria e fizemos o pedido de duas pizzas família: Uma de calabresa, portuguesa, quatro queijos e Atum, e a outra pizza metade frango com catupiry e camarão.
Passaram-se trinta minutos e o interfone tocou. Era o porteiro avisando sobre a pizza
.
— Vitinho, vou lá pegar as pizzas. Faz um favor pra mim? Vai até a cozinha e pega os pratos e talheres que estão no armário superior e traz pra sala, por favor.
— Pode deixar.
Meu Deus a cozinha era impecável. Digna de novelas. Era tanto armário que eu nem sabia por onde começar a procurar. Tive que ir abrindo um por um. Após encontrá-los, ouvi um barulho na sala. Devia ser a Júlia.
— Ju...Julia. — Me surpreendi com um homem parado me encarando.
— Quem é você? — Perguntou-me o homem.
— E...eu...
— Fala p***a! — Vociferou.
Nessa hora meu coração acelerou. Eu não soube o que fazer.