Prólogo

745 Palavras
Estância dos Amaral, Rio Grande do Sul – Setembro de 1835 O cheiro de terra molhada anunciava mais uma noite de silêncio na estância. Não havia canto de pássaros, não havia riso vindo da cozinha ou passos pesados dos peões voltando dos campos. Restavam apenas mulheres e sombras, espalhadas por cada canto da casa como lembranças vivas do que um dia fora lar e hoje era quase trincheira. Clarice estava à janela, o lenço branco em mãos, dobrado e desdobrado com delicadeza. Aquele pedaço de pano, bordado por sua avó em tempos de paz, agora era símbolo de tudo o que ela mais temia: o fim. Seu pai havia partido com os irmãos para se juntar aos rebeldes. A revolução estava nas estradas, nas fronteiras, e nos corações. Mas ela, Clarice, ficara para trás. Não para esperar ela não era mulher de esperar, mas para lutar do jeito que sabia. Com coragem, com decisões. E com o amor proibido que, naquela noite fria, começava a nascer com o ranger de uma porta sendo aberta. A guerra estava ali. Mas o que viria depois seria ainda mais perigoso. CAPÍTULO 1 Estância dos Amaral, Rio Grande do Sul — Setembro de 1835 Antes da guerra, o canto do g**o anunciava vida. Era o som que abria os portões do dia, despertando os peões, as cozinheiras, os cavalos e até os galpões. A Estância dos Amaral, localizada nos campos amplos do pampa gaúcha, fervilhava de sons, cheiros e tradições que vinham sendo passadas de pai para filho desde que o primeiro Amaral fincou a cruz de madeira diante da porteira, abençoando a terra com fé católica e suor. O amanhecer era sagrado. Homens se enfiavam nas bombachas de pano grosso, calçavam as botas de garrão de potro e ajeitavam o lenço no pescoço. As mulheres, desde as primeiras luzes do dia, cuidavam dos pães de milho no forno, do café fervendo no bule de ferro e do fogo sempre aceso no fogão de chão, onde os tachos borbulhavam. Na varanda da casa grande, o cheiro de chimarrão recém-cebado se misturava à brisa fria do Sul. Era o pai de Clarice, Coronel Benedito Amaral, mas conhecido por Bento Amaral. Um homem de honra, de fala firme, bigode espesso e postura de quem não precisava levantar a voz para ser obedecido. Ele acreditava que a alma de uma estância vivia nos detalhes: nos arreios bem cuidados, na lavoura limpa, no respeito às tradições e à palavra empenhada. Clarice Amaral cresceu nesse mundo. A caçula entre dois irmãos, filha mulher única do Coronel e de Dona Emília, mulher sensível e forte que, mesmo vestida em saias longas e rendas bordadas, era respeitada entre as estancieiras da região. Clarice fora criada com mais livros do que bonecas, mais histórias de guerra do que cantigas de roda. Observava tudo com olhos atentos: os bailes de galpão, as danças de rancho, os carreteiros no fogo de chão e a doma dos potros na primavera. Lembrava-se nitidamente das manhãs em que a música da gaita ecoava dos galpões, misturada às risadas dos peões preparando o churrasco. Lembrava-se do cheiro da carne no espeto de p*u, do som do casco no chão batido, da roda de homens em torno do fogo, bebendo mate e trocando causos e sempre com a bênção da mãe-de-santo ou a reza da benzedeira antes de cada tropeada longa. Mas tudo mudara com a chegada da guerra. Agora, o canto do g**o era apenas silêncio disfarçado. A casa estava mais fria, a estância mais vazia. Os homens haviam partido. Clarice acordou antes do sol. Seu corpo jovem já se acostumara à ausência dos risos, da música e da presença masculina que preenchia os cômodos da casa grande. Prendeu os cabelos numa trança firme e vestiu o vestido de algodão grosso, com o cós puído de tanto uso. Os pés calçados em alpargatas simples, o lenço bordado pela avó preso ao peito como sinal de proteção. A cozinha já fumegava com o calor do fogo. Ceci, a criada mais velha, n***a de mãos calejadas e olhar maternal, preparava o café e organizava os tachos com precisão quase cerimonial. Viera para a estância ainda menina, como filha de escrava alforriada, e se tornara o coração silencioso daquela casa. — Dormiu pouco de novo, sinhazinha — disse Ceci, sem levantar os olhos do fogão. — Só o bastante para não cair — respondeu Clarice, com um sorriso curto, daqueles que escondem mais do que mostram.
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