FERNANDA NARRANDO
Já faz um mês.
Um mês inteiro, desde que a Rafaela saiu por aquela porta, com as malas na mão, sem olhar pra trás.
E desde então…
Silêncio...
Um silêncio que não passa.
Eu tentei.
Liguei.
Mandei mensagem.
Insisti.
No começo, todo dia.
Depois, dia sim, dia não.
Agora… de vez em quando.
Mas nunca tive resposta.
Nem uma.
Nem um “tô bem”.
Nem um “me deixa em paz”.
Nada!
E isso, de todas as coisas…
É o que mais me incomoda.
Porque eu não sei.
Não sei se ela tá bem.
Não sei se tá comendo.
Não sei se tá segura.
Não sei de nada.
E isso vai corroendo por dentro.
Mas também tem outra parte…
A parte que já entendi...
Se ela não quer ajuda.
Eu não posso ajudar!
Por mais que doa admitir isso.
Eu não posso obrigar ninguém a ser cuidado.
Nem mesmo minha própria irmã.
Suspirei, fechando a porta da loja atrás de mim.
Mais um dia longo.
Mas, pelo menos…
Produtivo.
Eu consegui um emprego.
E, pra ser sincera…
Aquilo salvou minha vida!
A loja é movimentada, o chefe é tranquilo e, pelo que ele já me disse mais de uma vez, ele tá gostando do meu trabalho.
Eu me esforço.
Dou o meu melhor.
Porque eu preciso disso.
Preciso da estabilidade.
Preciso do dinheiro.
Preciso da ocupação.
Principalmente da ocupação.
Porque, quando eu paro…
Eu penso.
E quando eu penso…
Eu lembro.
E quando eu lembro…
Dói.
Durante o dia, eu trabalho praticamente o tempo todo.
Atendo cliente, organizo peça, ajudo no caixa… faço de tudo um pouco.
E isso, me mantém ocupada.
Me mantém longe dos pensamentos.
Mas à noite…
É outra história.
Porque eu volto pra casa.
E a casa…
Tá vazia.
Sempre vazia.
Não tem mais barulho.
Não tem mais discussão.
Não tem mais ninguém.
Só eu.
E o silêncio.
No começo, eu até achei que ia ser bom.
Menos estresse.
Menos briga.
Mas não é!
Porque, no fundo…
Eu sinto falta.
Sinto falta de ter alguém pra conversar.
De chegar e contar como foi o dia.
De ouvir qualquer coisa que não seja o som da televisão ligada só pra preencher o vazio.
Foi por isso que eu conversei com meu chefe.
Expliquei que eu queria trabalhar mais.
Que não gostava de ficar em casa.
Ele estranhou no começo.
Mas depois entendeu.
E acabou deixando.
Agora eu faço dois turnos.
E ganho melhor.
Muito melhor.
O suficiente pra segurar as contas com mais tranquilidade.
E, de certa forma…
Também me ajuda a não pensar tanto.
Ultimamente, eu só tenho ido pra casa pra dormir.
E olhe lá.
Hoje não foi diferente.
Saí da loja já de noite, cansada, com os pés doendo, mas com a sensação de dever cumprido.
Caminhei até em casa devagar, olhando o movimento da rua.
Tudo normal.
Tudo igual.
Ou quase.
Quando virei na minha rua, percebi um carro parado em frente à minha casa.
Franzi a testa.
Não era comum.
Não tinha ninguém que viesse me visitar.
Muito menos de carro.
Diminui o passo, observando melhor.
Vidro escuro.
Motor desligado.
Sem ninguém aparente.
— Deve ser de algum vizinho… — murmurei.
Não dei muita importância.
Talvez não fosse nada.
Talvez eu estivesse só cansada demais pra pensar direito.
Abri o portão, entrei e fechei atrás de mim.
A sensação estranha ficou…
Mas eu ignorei.
Entrei em casa, joguei a bolsa no sofá e fui direto pro banheiro.
Eu só queria um banho.
Um momento de paz.
Tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro.
A água quente caiu sobre meu corpo, relaxando um pouco a tensão do dia.
Fechei os olhos.
Por alguns minutos…
Só aquilo existia.
Sem preocupação.
Sem pensamento.
Só o som da água.
Mas durou pouco.
Porque, no meio do silêncio da casa…
Eu ouvi.
Batidas na porta.
Franzi a testa, ainda debaixo do chuveiro.
— Já vai! — gritei.
Desliguei a água rápido e comecei a me secar.
As batidas continuaram.
Mais fortes dessa vez.
Insistentes.
Meu coração começou a acelerar.
— Já falei que já vai! — falei mais alto.
Enrolei a toalha no corpo e caminhei até o quarto, pegando uma roupa rápida.
Vesti o mais rápido que consegui.
As batidas não paravam.
Aquilo já tava me incomodando.
— Calma! — falei, já indo em direção à porta.
Respirei fundo antes de abrir.
Uma sensação estranha passou pelo meu corpo.
Mas, mesmo assim…
Eu abri.
E foi aí que tudo mudou.
Quatro homens.
Armados.
Invadiram minha casa antes mesmo que eu pudesse reagir.
Um deles, empurrou a porta com força.
Outro, já entrou olhando tudo ao redor.
O terceiro, fechou a porta atrás de si.
E o quarto…
Ficou parado, me encarando.
Meu corpo travou.
Meu coração disparou.
Eu não conseguia falar.
Não conseguia me mexer.
Só conseguia olhar.
Assustada.
Sem entender.
Sem reação.
E, naquele momento…
Eu soube.
Aquilo não era coisa boa.