Rafaela narrando
Eu fiquei parada no meio da sala por alguns segundos depois que ele saiu. Sem conseguir me mexer. Sem conseguir pensar direito. Meu corpo inteiro tremia. Minhas mãos, minhas pernas… até minha respiração tava descontrolada.
Parecia que, eu tinha acabado de sair de um pesadelo, mas não. Aquilo era real. Muito real.
Respirei fundo, passando a mão no rosto, tentando me acalmar.
— Não é possível… — murmurei, ainda sem acreditar.
Como que uma coisa dessas acontece assim? Do nada? Sem aviso? Sem sentido? Andei de um lado pro outro, nervosa, tentando organizar a cabeça, mas não dava. Era muita coisa ao mesmo tempo. Raiva. Medo. Ódio. E, principalmente… revolta.
— Aquele Zóio é um filho da p**a… — falei entre os dentes, sentindo o sangue ferver.
Porque na minha cabeça, tava claro. Muito claro. Aquilo ali tinha dedo dele.
— Ele acha que porque ele é "certinho"… que pode fazer essas paradas? — Soltei uma risada irônica. — Ele vai ver!
Balancei a cabeça, já sentindo a raiva tomar conta de mim.
— Eu vou provar que ele é um mentiroso.
Apontei o dedo pro nada, como se ele estivesse na minha frente.
— E quando eu provar… — Meu olhar endureceu. — Eu vou mostrar pro Talibã.
Porque era isso que importava. Limpar a minha imagem. Mostrar que eu não tava errada. Que eu não era a culpada. Que aquilo tudo foi armado. Porque ele não aceitou ser rejeitado. Simples assim.
Peguei meu chinelo, ainda bufando de raiva, e saí de casa. Bati a porta com força. Nem olhei pra trás.
Desci a rua perguntando pra todo mundo que eu via.
— Ei, viu o Talibã? Sabe onde ele tá? Ele tá no morro?
Mas as respostas eram sempre as mesmas.
— Tá na boca. Tá lá em cima. Nem tenta hoje não.
Mas eu não tava nem aí. Se ele tava lá… era pra lá que eu ia.
Subi o morro quase correndo. Sem pensar. Sem medo. Só na força do ódio mesmo.
Quando cheguei na boca, os vapores já me barraram na hora.
— Aí, aí… hoje não pode subir não.
Revirei os olhos.
— Eu preciso falar com o Zóio.
— Espera aí então.
Um deles pegou o rádio.
— Ô, Zóio… a patricinha tá aqui querendo subir.
Fiquei ali, impaciente. Batendo o pé no chão. Bufando.
— E aí? — perguntei, sem paciência.
— Calma aí!
Segundos depois, ele respondeu no rádio. E, pra minha surpresa…
— Pode subir.
Na hora, abriram espaço pra mim. Nem agradeci. Saí andando rápido, quase correndo. Nem sabia exatamente onde era a sala dele mas fui abrindo porta. Olhando. Procurando.
Até que achei.
Abri a porta com tudo e lá estava ele. Sentado. Como se nada tivesse acontecendo. Aquilo me deu mais raiva ainda.
— Quem você pensa que é?! — Já entrei gritando. Sem filtro. Sem medo. — Pra jogar uma dívida no meu peito que eu nem sabia que existia?!
Apontei o dedo pra ele.
— Tá achando que eu sou o quê?!
Ele levantou na hora. Devagar, mas dava pra ver. Ele tava bravo.
— Abaixa a p***a da tua voz. — Veio na minha direção. — E fala direito comigo. — Parou bem na minha frente. — Senão eu te mato.
Engoli seco, mas não abaixei a cabeça. Não mesmo.
— Você é um invejoso! — Soltei, sem pensar. — Só tá fazendo isso porque eu não quis ficar com você!
Dei um passo pra frente.
— Porque eu tô atrás do Talibã!
Foi aí que tudo piorou. Muito rápido.
Ele me segurou pelo pescoço. Forte. Me empurrando contra a parede.
— Presta atenção no que tu tá falando. — A voz dele saiu baixa. Perigosa.
Eu tentei puxar o ar.
— Isso aqui não é brincadeira. — Apertou mais forte. — Tu usou a p***a da droga. — Olhou fundo nos meus olhos. — E vai pagar.
Minha respiração falhou.
— Eu não sou obrigado a te dar nada.
Minhas mãos foram direto pro braço dele, tentando afastar, mas não consegui.
— Você é um monstro… — falei, com dificuldade. A voz falhando.
Ele deu um meio sorriso. Frio.
— E tu acha que é muito diferente de mim?
Meu corpo travou.
— Tu acabou de dar tua irmã como pagamento.
Aquilo me acertou. Forte. Muito forte.
— Então, não vem pagar de santa pra cima de mim. — Ele aproximou mais o rosto. — Porque tu não é.
Senti o coração disparar, mas não era só medo. Era… um choque.
— Já pensou? — Ele continuou. Com um tom debochado. — Como vai ser quando tua irmã trombar contigo aqui no morro?
Minha respiração travou.
— O quê? — Meu corpo gelou.
— O Talibã… — Engoli seco. — Ele foi mesmo buscar ela?
Ele soltou uma risada curta.
— Foi. — Simples. Direto. Sem emoção. — Já devem estar trazendo ela.
Foi como se o chão abrisse. Eu fiquei sem reação. Sem ar. Sem nada.
Porque… uma coisa era falar, outra completamente, diferente… era acontecer.
— Mas… — minha voz saiu fraca. — Ela é uma pessoa…
Minha cabeça girava.
— Eu não pensei que ele…
Não consegui terminar.
Ele soltou meu pescoço. Eu levei a mão na garganta na hora, puxando o ar com dificuldade.
— Então começa a pensar melhor. — Ele deu um passo pra trás. — Porque aqui não é brincadeira.
Fiquei em silêncio. Ainda tentando processar tudo.
— E presta atenção. — Ele voltou a falar. O tom sério. Pesado. — Fica na tua. — Apontou o dedo pra mim. — Porque tu não me conhece.
Dei um passo pra trás.
— E não sabe do que eu sou capaz.
Engoli seco. Sem responder.
— E outra coisa. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Se tu não quiser que o Talibã te jogue pra fora do morro… — Minha respiração travou. — Porque eu tenho poder pra isso. — O olhar dele escureceu. — Tu vai começar a me tratar diferente.
Meu corpo ficou tenso.
— Como assim?
Ele deu um sorriso de lado.
— Toda vez que eu brotar na tua casa… — Deu um passo pra frente. — Tu vai sentar pra mim.
Senti um nojo subir. Na hora.
— E bem gostosinho. — Minha mão fechou em punho. — Se fizer direitinho… — Ele deu de ombros. — Quem sabe tu não ganha umas paradas. — O olhar dele desceu pelo meu corpo. — Daquelas que tu gosta.
Meu estômago revirou. Aquilo me deu raiva. Nojo. Ódio, mas eu não falei nada. Não consegui.
Porque, pela primeira vez… eu entendi. De verdade. Onde eu estava e com quem eu estava lidando. Pior ainda… até onde aquilo tudo podia chegar.
E, no meio daquele silêncio pesado… só uma coisa passava na minha cabeça: eu fui longe demais.