Capitulo 17

992 Palavras
FERNANDA NARRANDO Eu nunca vou esquecer aquele momento. Nunca! Porque foi ali… naquela fração de segundos… que a minha vida virou de cabeça pra baixo de um jeito que eu nunca imaginei. Quatro homens. Armados. Dentro da minha casa. E eu parada, sem reação, tentando entender o que estava acontecendo. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Minhas mãos começaram a suar. Meu corpo inteiro travou. Eu olhava de um para o outro, tentando achar alguma explicação lógica… alguma coisa que fizesse sentido. Mas não tinha. Não tinha nada que explicasse aquilo. Respirei fundo, tentando não surtar. — Eu… eu não tenho dinheiro — falei, com a voz falhando. — Podem pegar o que vocês quiserem… televisão, celular… qualquer coisa… Um deles, que claramente era o líder, soltou uma risada baixa, sem humor. — Relaxa… — ele disse. — Nós não tá aqui pra roubar. Aquilo não me tranquilizou. Pelo contrário. Só piorou! Porque então… o que eles queriam? Engoli seco. — Então o que vocês querem? Ele me encarou. Frio. Sem expressão. E respondeu: — Tua irmã tá devendo uma grana. Meu coração afundou. Na hora. — O quê? — E deu você como moeda de troca. Por um segundo… Eu achei que tinha ouvido errado. Minha cabeça simplesmente se recusou a processar aquilo. — Não… — falei, quase sem voz. — Não, isso não existe… Balancei a cabeça, incrédula. — Ninguém… ninguém pode fazer isso… Olhei pra ele, sentindo a revolta subir. — Eu não vou com vocês. Minha voz saiu mais firme dessa vez. — Isso é absurdo! Dei um passo pra trás. — Se vocês não saírem daqui agora, eu vou chamar a polícia. Foi aí que tudo mudou. Ele se mexeu rápido. Muito rápido! Quando percebi, ele já estava na minha frente. Perto demais. O cheiro dele, a presença, tudo aquilo me fez recuar automaticamente. Mas não tinha pra onde ir. Ele se inclinou um pouco, ficando cara a cara comigo. E falou, baixo… mas com um tom que gelou minha espinha: — Ou tu vai com a gente… Pausa... — Ou eu mato você! Meu coração parou. — E tua irmã também! Eu senti o chão sumir. Literalmente. Respirei fundo, tentando não entrar em pânico. Minha cabeça começou a girar. Eu precisava pensar. Precisava fazer alguma coisa. Não podia deixar isso acontecer. Não podia. — Qual… — minha voz falhou. — Qual o valor da dívida? Ele me olhou, analisando. — Por quê? — Eu… eu tenho um dinheiro guardado — falei rápido. — Dependendo do valor… eu posso pagar. Ele ficou em silêncio por um segundo. E então respondeu: — Vinte mil. Foi como um soco. — O quê?! — falei, sem conseguir esconder o choque. — Vinte mil. Balancei a cabeça, incrédula. — Isso é muito dinheiro! — Foi o que ela usou de droga. Minha respiração ficou descompassada. Vinte mil! Eu não tinha isso. Nem perto disso. Nem somando tudo que eu tinha guardado. Meu corpo começou a tremer. Eu não sabia o que fazer. Não sabia mesmo. E antes que eu pudesse tentar pensar em outra coisa… Ele me segurou pelo braço. Forte. — Vambora. — Me solta! — tentei puxar, mas não adiantou. Ele me arrastou. Literalmente. Até fora de casa. Os outros vieram atrás. Eu m*l consegui acompanhar. Minhas pernas estavam fracas. Minha cabeça girando. Quando vi, já estava sendo levada até um carro. — Entra. — Eu não vou entrar! Ele apertou meu braço com mais força. — Vai trabalhar pra mim. Meu coração disparou. — Eu não quero saber. Ele abriu a porta. — De um jeito ou de outro… essa dívida vai ser paga. Me empurrou pra dentro. — Tu gostando ou não! A porta bateu. O som ecoou na minha cabeça. Segundos depois, ele entrou no banco da frente. Os outros também entraram. E o carro começou a andar. Eu fiquei ali. Parada. Sem saber o que fazer. Sem saber o que pensar. Sem saber nem como reagir. Minhas mãos tremiam. Minhas pernas também. Eu olhava pela janela, vendo tudo passar… mas sem realmente enxergar. Era como se eu estivesse fora do meu próprio corpo. Foi então que eu senti. O olhar. Levantei os olhos. E vi. Ele. Olhando pra mim pelo retrovisor. Fixo. Intenso. Como se, estivesse me lendo. Como se estivesse vendo tudo. Minha alma. Meus pensamentos. Tudo! Desviei o olhar na hora. Não consegui sustentar. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Três. Mas não adiantava. O medo não passava. Pelo contrário. Só aumentava. Meu corpo inteiro tremia. E, no meio daquele desespero… Eu só conseguia pensar em uma coisa. — Deus… — sussurrei, quase sem voz. — Por favor… Fechei os olhos por um segundo. — Não deixa nada acontecer comigo… Mas, no fundo… Eu sabia. Nada daquilo era normal. Nada daquilo ia terminar bem. E o pior de tudo… Era saber o motivo. Rafaela. Minha própria irmã. Eu senti a raiva subir. Misturada com dor. Com decepção. Com incredulidade. — Eu não acredito… — murmurei, sentindo os olhos arderem. Como ela teve coragem? Como? Eu fiz tudo por ela. Tudo! Nunca deixei faltar nada. Nunca! E ela… Me entregou. Como se eu fosse nada! Como se eu fosse um objeto. Uma coisa. Meu peito apertou. Forte. — Eu achava que ela era uma pessoa boa… Minha voz saiu falha. — Mas ela… Balancei a cabeça. — Ela é deplorável. Não tem outra palavra. Não tem. Que tipo de pessoa faz isso? Que tipo de irmã faz isso? Eu apertei as mãos no colo, tentando conter a raiva. — Como ela teve coragem? A pergunta ficou no ar. Sem resposta. E naquele momento… Uma coisa ficou clara pra mim. Se eu sair dessa… Se eu tiver a chance… É melhor, ela nunca mais aparecer na minha frente. Porque se aparecer… Eu não respondo por mim. Porque, dessa vez… Não vai ser só palavra. Eu juro por Deus! Não vai.
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