Capítulo 5

847 Palavras
Gustavo Pierone Aqui estou eu, sentado na cadeira da sala do meu consultório, pensando na minha vida. Um doutor ginecologista, aos 32 anos de idade, carreira sólida, nome respeitado. Aos olhos de qualquer pessoa, um homem bem-sucedido. A vida nem sempre sorriu pra mim. E por mais que eu tentasse ao máximo me fechar para o mundo e focar apenas no meu trabalho, eu não conseguia. Aqueles olhos verdes, que mais pareciam duas esmeraldas brilhantes, estavam me fazendo perder o rumo. E aquele sorriso? Ah… aquele sorriso estava me enlouquecendo. Parecia que o destino estava me pregando uma peça. Logo eu. Justamente eu. Mas essa melancolia toda não combinava comigo. Não mesmo. Que feitiço você me lançou, Melissa? Desde que vi essa garota no shopping, não consigo tirá-la dos meus pensamentos. Sou arrancado dos meus devaneios quando a porta da minha sala é aberta sem cerimônia. — Educação passou longe, hein, irmão? Sabe bater na porta não? — Qual foi, donzela? Interrompi algo? — Gabriel entra com aquele sorriso debochado de sempre. — Não fode, Gabriel. Fala logo o que tu quer. Tenho mais o que fazer do que ficar olhando pra tua cara. — Uiii… que m*l humor é esse, princesa? Sabe o que é isso? Falta de uma boa f**a. — ele ri — Que tu acha de irmos amanhã naquela boate de sempre? Franzo a testa. — Amanhã? — É. — Se o convite é pra amanhã, por que você tá me convidando hoje, c*****o? Gabriel dá de ombros, se jogando na cadeira à minha frente. — Porque hoje eu tô de folga, ué. Acabei de sair de um plantão. E… — ele passa a mão na nuca, com a maior cara de sem vergonha do mundo — tenho um compromisso particular hoje. — Compromisso particular? — ergo a sobrancelha. — Particularíssimo — ele responde, piscando. Reviro os olhos. — Existe telefone pra isso, sabia? Não precisava invadir minha sala pra me chamar pra uma balada amanhã. Ele começa a rir. — Nossa, o doutor tá azedo hoje, hein? Eu só passei pra te ver. Que m*l tinha? Aproveitei que já tava por aqui. — Sei. — Tu anda estranho, Gustavo. — ele me analisa por alguns segundos — Mas beleza. Amanhã, 21h. Não inventa desculpa. Ele se levanta, ainda rindo. — Vai trabalhar, rabugento. — Some daqui. Gabriel sai gargalhando, fechando a porta atrás de si. Eu me afundo novamente na cadeira. Mal humor? Talvez. Ou talvez eu só esteja tentando lutar contra algo que não quero sentir. Um flash invade minha mente sem pedir permissão. ~ LEMBRANÇAS ON ~ 7 ANOS ATRÁS… Eu era um homem apaixonado. Noivo de Jade. Jurava que aquela mulher era o amor da minha vida. Nosso casamento estava próximo e eu não media esforços para agradá-la. Viajei a trabalho e ficaria alguns dias fora. Ela ficou no meu apartamento. — Amor, vou morrer de saudades de você — Jade faz uma carinha de tristeza que faz meu coração acelerar. — Vai ser rápido, princesa. Prometo que estarei aqui antes do que você imagina. Logo mais estaremos juntinhos, na nossa casa, vivendo nossa vida. Beijei sua testa. Ela me abraçou forte. Fui para o aeroporto com um amigo, mas o voo atrasou. Decidimos esperar na casa dele, que era mais próxima. Quando percebi que meu passaporte não estava na mala, meu estômago gelou. Voltei correndo para o apartamento. Eu só não imaginava o que me aguardava atrás daquela porta. Quando entrei… meu mundo parou. Jade. Nua. Deitada no meu sofá. Com um colega de trabalho. Meu peito ardeu como se alguém tivesse enfiado uma faca ali. Eu não gritei. Não avancei. Não chorei. Não tive reação. Frio. Automático. Terminei tudo naquela noite. Mandei ela sumir da minha vida, esquecer da minha existência. Mas ela não fez isso. Me infernizou por meses. E eu me afundei. Na bebida. Na culpa. Na dor. Me afastei do trabalho. Dos amigos. Do mundo. Foram meus pais, minha irmã, meu cunhado e o Gabriel que me sustentaram quando eu não conseguia ficar de pé sozinho. E então veio Luna. Minha sobrinha. Meu anjo. Foi ela que me trouxe de volta. Vendi o apartamento. Recomecei. Demorou anos. Mas eu consegui. Hoje, sou outro homem. Mulher nenhuma entra no meu coração. Me tornei frio. Não dou brechas. Não acredito mais nesse tal de amor. ~ LEMBRANÇAS OFF ~ Passo a mão no rosto, tentando afastar o passado. Mas o presente insiste. Melissa. São anos de amizade com Gabriel. Ele foi um dos poucos que viu meu fundo do poço. Como eu nunca tinha visto a Melissa antes? Já fui em almoços e jantares na casa dos pais deles. Como isso é possível? Ela simplesmente… surgiu. E agora ocupa cada espaço da minha cabeça. Mas isso não faz diferença. Não posso viajar demais nessa menina. Além do mais… ela tem namorado. Quem será o babaca de sorte? Foco, Gustavo. Isso não é da sua conta. Tira essa garota da cabeça antes que ela entre no seu coração. Porque isso… Isso não vai acontecer. Não vai mesmo.
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