Capítulo 2

1279 Palavras
Melissa Ferraz Acordo bem cedinho, antes mesmo do despertador tocar. Abro os olhos devagar, encarando o teto por alguns segundos enquanto tento reunir forças para levantar. Ainda bem que hoje já é quinta-feira. A semana pareceu se arrastar, mas ao mesmo tempo eu nem senti os dias passarem. Levanto, tomo um bom banho, deixo a água cair sobre meus ombros como se pudesse lavar também minhas preocupações. Faço minha higiene com calma, tentando organizar meus pensamentos, e desço para preparar um café. A casa está silenciosa demais. Nem sinal do Hugo por aqui. Fazem quase três anos que estamos juntos, e eu não sei exatamente em que momento foi, mas quando me dei conta ele já estava praticamente morando aqui. No começo eram algumas roupas esquecidas, depois uma escova de dentes no banheiro, até que as coisas dele começaram a ocupar espaço no meu guarda-roupa. Ele só vai para a casa dos pais quando tem algum assunto de extrema importância para resolver. Se bem que, parando pra pensar… ultimamente ele não tem posado aqui todos os dias. Deve estar cheio de trabalho. Ou talvez eu esteja tentando encontrar justificativas. Termino de me arrumar, pego minhas coisas, organizo tudo no carro e vou rumo à escola. O trânsito da grande São Paulo já começa a dar sinais de que o dia será longo, mas, curiosamente, quando me aproximo da escola sinto meu coração ficar mais leve. Vou direto pra minha sala esperar minhas crianças. Minha melhor amiga e professora Eliza já estava lá, organizando alguns materiais na mesa. — Bom dia, linda! Como você está? — ela diz com aquele sorriso acolhedor de sempre, que parece abraçar antes mesmo do toque. — Bom dia, Liz! Não muito bem… mas as coisas vão se ajeitar. Eu precisava desabafar com ela. Precisava colocar pra fora tudo o que estava engasgado no meu peito. Mas ali não era lugar, e nem hora. — O que houve, amiga? — O semblante dela muda no mesmo instante. A preocupação aparece em seus olhos de forma quase automática. — Muitas coisas… não tô sabendo lidar. Mas depois te conto tudo com detalhes. As crianças já estão chegando. Nesse tempo que estou aqui, Eliza se tornou uma super amiga, companheira e parceira para todas as horas. Costumo dizer a ela que é mais que uma amiga, se tornou uma irmã pra mim. Ela tem 26 anos, apenas quatro anos mais velha do que eu, mas parece ter uma maturidade que me acalma. Ela me compreende como ninguém. — Pro Melllll! Ouço uma voz fina e doce me chamando, o que me faz despertar dos meus pensamentos. — Lunaaa, minha princesa! Ela corre até mim e me envolve num abraço tão gostoso e apertado que, por alguns segundos, tudo desaparece. As dúvidas. As inseguranças. O peso. — Pro, sabia que hoje tô muito feliz? — Sério, meu amor? Posso saber qual o motivo dessa felicidade toda? Ela coloca as mãozinhas atrás das costas, balançando o corpinho de um lado para o outro. — Hoje meu tio Guga vem me buscar na escola!! — Não acredito!!! Preciso conhecer esse famoso tio Guga que tanto você fala. — Verdade, ele é lindo igual a você. Ela me olha com uma carinha tão fofa e sincera que me faz rir alto. Essa menininha é muito sapeca. Dou um beijinho em sua testa e ajeito seu lacinho. Logo todas as crianças chegaram. A sala se encheu de vozes, mochilas coloridas, risadas e perguntas ao mesmo tempo. Tivemos uma manhã muito divertida e produtiva que nem vimos o tempo passar. Trabalhamos sílabas, fizemos desenhos, cantamos músicas. Em cada pequena conquista deles, sinto como se fosse uma vitória minha também. Precisei sair um pouquinho mais cedo para resolver algumas pendências da faculdade. Luna ficou um pouco tristinha porque cismou que eu tinha que conhecer o tio Guga hoje mesmo. — Prometo que em outra oportunidade eu conheço ele, tá bom? — falei, acariciando seus cabelos. Ela cruzou os bracinhos, mas acabou sorrindo. Depois de tudo resolvido na faculdade, fui para casa. Abro a porta já esperando encontrar a sala bagunçada ou vazia… mas me deparo com algo completamente diferente. Hugo estava preparando a mesa para o almoço. Pratos organizados. Talheres alinhados. Uma travessa fumegante no centro. — Que bom que chegou, amor. O almoço está pronto! Fiquei sem reação. Ele me olhava com a cara mais natural do mundo, como se aquilo fosse comum pra ele. Coisa que eu nunca tinha visto. — Que milagre é esse, Hugo? Você preparando almoço? Não imaginava sequer que ele sabia cozinhar. Ele ri de leve. — Só quis te fazer uma surpresa, amor. Como pedido de desculpas. Sei que estou agindo m*l com você ultimamente. Espero que tenha gostado. Meu coração vacila. — Eu amei. A mesa está linda… e o cheiro está delicioso. — Vem então, vamos almoçar. Me sentei, e ele me serviu. Mas enquanto eu sorria, por dentro algo me incomodava. A quem estou tentando enganar? É sempre assim. Ele faz as burradas dele, depois vem me agradar… e a tonta aqui aceita suas desculpas como se não fosse nada. Como se fosse a primeira vez. O primeiro erro. E não é. Isso está ficando cada vez pior. Hoje ele me ganhou com um almoço. Semana passada foi com um buquê de flores. Da outra vez, um jantar no meu restaurante preferido. Sinceramente, não sei porque aceito tudo isso. Na minha cabeça, sem ele na minha vida, tudo ficaria vazio. Mas hoje, em especial… ele realmente me surpreendeu. — Então, amor… você aceita ou não? Ele me olhava com uma expressão divertida e confusa. — Que? Desculpa, estava um pouco distraída. E estava mesmo. Ainda estou tentando compreender a razão de tudo isso… Bom, lá no fundo sei bem a razão. Só não quero admitir. — Perguntei se você quer jantar fora hoje. Fiz reservas naquele seu restaurante preferido. — Claro. É uma ótima ideia. Quem sabe não seja mesmo? Também preciso colaborar para esse relacionamento dar certo. Não posso jogar tudo nas costas dele. Terminamos de almoçar. Hugo foi para a empresa. Segundo ele, hoje o dia seria extremamente corrido. Fico pensando… talvez dessa vez ele realmente queira mudar. Nunca vi ele preparando um almoço só para me agradar. Talvez precisemos de mais uma chance. Talvez eu precise tentar mais também. Eu vou nos dar essa chance. Levanto do sofá, subo até meu quarto e decido ir ao shopping. Preciso comprar um look para hoje. Se é para tentar, que seja por completo. Resolvo ligar para Eliza. A companhia dela seria maravilhosa. ~ Ligação on ~ — Alô? Liz? — Oii, Mel! Tudo bem? — Tudo sim. E você? Como está? — Tudo bem! Aconteceu alguma coisa? — o tom dela carrega uma leve preocupação. — Não, amiga. Liguei pra saber se você topa ir ao shopping comigo? — Claro, Mel. Preciso mesmo sair um pouco. Percebo um ar de tristeza em sua voz. Pessoalmente vou observar melhor. Ela nunca consegue esconder totalmente o que sente. — Combinado então. Daqui a pouco passo aí. Até mais! — Até, amiga. ~ Ligação off ~ Tomo um banho bem rápido, visto um conjunto super confortável e fresquinho. Penteio meus cabelos com cuidado, passo um rímel para realçar os olhos, um gloss discreto, um blush para dar cor ao rosto. Perfume, desodorante. Me observo no espelho por alguns segundos. Será que ainda sou a mesma Melissa que veio do interior cheia de sonhos? Calço meus sapatos, pego minha bolsa, a chave do carro, tranco a casa e vou rumo à casa da Liz para buscá-la… tentando acreditar que, talvez, hoje seja o começo de uma mudança.
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