MT narrando...
L2: — Eu tenho fé, é diferente, tá? — apontou pra mim. — Tu vai ver, meu Flusão vai ganhar tudo, até o Brasileirão. Anota aí!
Dei risada e neguei com a cabeça, vendo a Narah falar com umas pessoas enquanto a gente andava.
Ela nasceu aqui, tá ligado? Todo mundo conhece ela, e ela conhece todo mundo.
Eu não achava que ela ia voltar pra cá não, muito menos com essa ideia de inaugurar uma escola de dança aqui.
Mas ela sempre foi dessas, uma caixinha de surpresa essa menina.
E eu até que gostei, pô, achei maneirinha essa ideia. Lembro que quando éramos crianças eu era da escolinha de fut daqui, e ela não fazia porque não gostava.
O negócio dela sempre foi a dança. Mas aqui no morro não tinha isso, só lá no asfalto, e era caro pra p***a. Os pais dela não tinham condições de pagar.
Ela ficava m*l, mas não demonstrava pra eles, até porque ela entendia a situação.
E agora tá aqui pensando em colocar uma escola de dança pra garotada que tem o mesmo sonho que ela tinha.
L2: — Ai, gente, olhem pra esquerda!
Olhei pra onde ele tava olhando e vi a Clara. Era uma garota que deve ter uns 16 anos, os pais são da igreja.
Yandra: — Olhei, e aí? O que tem? — disse sussurrando como se a menina fosse ouvir do outro lado da rua.
L2: — Descobri que ela deu pro Vini, menina. Mó babado! E ela é da igreja, sabia?
Yandra: — Mentira, sério?
L2 concordou com a cabeça, mó entretido na fofoca.
Yandra: — Mas logo o Vini? Ele é mó galinha!
MT: — Vocês são dois fofoqueiros! Deixa a menina dar o que quiser, ué. E tu, L2, como que tu sabe disso, hein?
Yandra: — Ixi, não foi você agorinha que disse que a gente — apontou pra ela mesma e depois pro L2 — é fofoqueiro? Quer saber por quê, hum?
MT: — Fica quieta, Narah! — Dei um tapinha na testa dela. — Fala, L2.
L2: — Primeiro, eu não sou fofoqueiro, tá?
Olhei com cara de deboche pra ele.
L2: — Eu só vou coletando informações.
Narah soltou uma gargalhada e eu só dei uma risada fraca.
L2: — Cala a boca, Yandra, deixa eu contar!
Narah concordou com a cabeça, segurando o riso, e eu olhei pra ele esperando.
L2: — Foi assim… Eu tava andando no Beco 17 quando ouvi umas velhinhas falando que viram ela entrando na casa dele e saindo horas depois. E ainda ouviram os gemidos!
Yandra: — Gente, que babado! Eu tô passada, chorada! Mas olha, tudo certo: as velhinhas fofocando sobre a menina, você ouviu elas fofocando, e agora tá fofocando com a gente. Adorei! — deu uns pulinhos batendo palmas e parou em frente ao bar da Dona Maria.
MT: — Tu não tem que trabalhar, não, ô p*u no c*? — falei, sentando na mesa.
L2: — Ter eu até tenho, mas a fome tá me matando, e comida vem em primeiro lugar. — Sentou na mesa junto com a Narah. — BOA TARDE, DONA MARIA! — gritou, assustando praticamente todo mundo. — Traz o de sempre, fazendo favor!
A gente ficou trocando umas ideias ali enquanto a comida não chegava. Na verdade, só o L2 e a Narah que estavam falando da vida dos outros, e eu só observava.
Yandra: — Mas ela é linda. Não tinha que se diminuir por causa de macho.
L2: — Ela é trouxa, minha filha, entenda. Porque, tipo, pensa comigo… Tem eu: lindo, gostoso, perfeito, sonho de qualquer garota. E tem aquele peixe fedido que ela chama de namorado.
Yandra: — Super! Ela foi trouxa mesmo. Quem não te escolheria? Mas não fica triste, não. Ela não sabe das coisas.
L2: — Quem disse que eu tô triste, filhona? Eu tenho vários esquemas por aí, tá? — Ela concorda com a cabeça, rindo. — Sou muito concorrido! — Ele passa a mão no cabelo, se achando o galã de novela.
Yandra: — Mais que o MT?
Ela fala me encarando, e eu franzi as sobrancelhas, encarando ela também.
L2: — Que o quê? MT é concorrido, mas ele não pega ninguém. Então eu tô em primeiro lugar. Ô DONA MARIA, VAI DEMORAR?
Yandra: — Ah, não pega ninguém?
Ela continua me encarando e eu sustento o olhar.
L2: — Pior que não, menina. Graças a Deus! — fala quando um menino vem trazer a comida. — Se ele pega, é no sigilo, porque ninguém sabe. — fala comendo a batata frita.
Yandra: — Entendi. — diz pegando seu prato e desviando o olhar do meu...