Laura parou de frente para uma porta enorme de madeira e do lugar eu podia sentir o cheiro floral maravilhoso e magnifico da mamãe. Eu não acredito que ia vê-la depois de tanto tempo.
Eu queria gritar, mas tinha que me controlar. Ordens da tia Laura, mas confesso que quase estava pulando no lugar.
Então Laura abriu a porta e entrou. O lugar parecia um salão de tão grande que era, mas ali não tinha nenhum móvel a não ser por duas cadeiras e uma mesa com três pilhas enormes de livros. Pelo visto seu gosto para leitura não tinha mudado.
As paredes tinha uma estrutura clássica e belíssima.
A tocha ao lado da porta só iluminava um pequeno espaço enquanto o resto estava coberto pela escuridão. Dei alguns passos entrando no cômodo e mesmo com o breu que era no canto mais afastado longe de qualquer luz, consegui ver perfeitamente a mulher que estava de costas para mim.
Seus cabelos mognos compridos estavam um pouco mais compridos que a última vez que a vi, não muito. Seus cabelos estavam no quadril. Combinou mais com ela, seus cabelos são lindos. A única coisa que estragava no visual dela é que mamãe estava usando uma daquelas túnicas dos Estrabão, iguais aos dos meus primos. A roupa cobria seu corpo inteiro, se bem que Naia tem umas mais curtas. Mamãe bem que podia usar uma dessas.
Fiquei maravilhada por vê-la. Eu não acreditava que depois de todos esses anos achando que ela estava morta, na verdade ela estava vive e bem. E agora ela estava aqui na minha frente.
Eu fiquei aqui parada a encarando por longos segundo sem dizer nada. Estava hipnotizada por ver minha linda mamãe. Tão perto de mim.
Então esquecendo completamente de tudo até mesmo as palavras de Laura. Corri em direção da minha mãe. A única coisa que importava agora era poder abraçá-la depois de tantos anos. Ouvi Laura gritando algo, mas nem prestei atenção no que era.
Não tinha palavras para descrever como estava sentindo agora, mas podia dizer com certeza que este é o melhor momento da minha vida.
- Mamãe! - Gritei e quando eu estava a milímetros de tocar em seu ombro.
Tudo acontece muito rápido, nem sei ao certo o que aconteceu, mas só senti o chão se quebrando contra as minhas costas e mamãe em cima de mim prendendo meu pescoço com sua mão.
Arregalei os olhos surpresa, mamãe nunca me machucou antes. Nunca nem sequer bateu na minha b***a por mau comportamento. E agora ela estava aqui me fitando com os olhos furiosos e vazios ao mesmo tempo.
Porém por um milésimo de segundo vi um brilho diferente dentro dos seus olhos quando a encarei profundamente. Não sei dizer se foi por que ela me reconheceu naquele instante ou por que estava confusa, mas eu juro que vi.
Antes que eu raciocinasse qualquer coisa. Ouvi um rosnado furioso rasgando sua garganta e os olhos se transformarem em puro ódio. E com um movimento rápido ela arreganhou a boca pronta para morder meu pescoço.
- CAMILA. NÃO! - Laura gritou e seu grito ecoou pelo salão vazio.
E no último segundo que mamãe avançou, parou, mas não se afastou. Eu podia sentir o ar gélido sair pela sua boca a milímetros do meu pescoço. Eu tinha os olhos arregalados e senti medo da mamãe pela segunda vez em toda a minha existência.
Eu não podia acreditar, mamãe quase arrancou minha cabeça com uma mordida. Ela quase me matou! Senti como se uma adaga atravessasse meu coração morto, ela nem se lembrou de mim.
- Mila, se afaste! Você não quer fazer isso! - Ela abaixou o tom de voz.
Laura tentava conversar com mamãe, mas ela não mexeu nenhum músculo sequer. Ficou completamente imóvel sobre mim.
- Mila, você não quer machucar sua própria filha, quer? - E nesse momento senti que o hálito gélido dela que batia contra a pele do meu pescoço parou, tanto quanto sua respiração.
Ela afastou seu rosto do meu pescoço vagarosamente e assim que viu meu rosto ela torceu o nariz.
Quando finalmente eu pude olhá-la de perto e podia sentir seu toque, todo meu medo se foi. Ela ainda era minha mãe, só que infelizmente ela não se lembrou de mim.
Seus olhos olhavam cada pedaço do meu rosto e então ela fechou os olhos com força. Senti meu peito se apertar ela parecia de certa forma estar sofrendo e antes que eu pensasse em fazer qualquer coisa para chamar sua atenção. Ela some se afastando o mais rápido que consegue de mim.
Ainda fiquei deitada paralisada com tudo que aconteceu nos últimos segundos. Definitivamente ela não é mais a mesma de cinco anos atrás. Fiz careta ao ter a falsa ilusão de que por um passe de mágica sua memória voltaria quando me visse.
Doce engano.
Antônio ficou em pé a minha frente e estendeu a mão para me ajudar a levantar e finalmente suspirando aceitei sua mão e levantei.
Ao encarar meus tios vi que todos tinham a expressão séria no rosto.
- Acho que fiz besteira. - Murmurei abaixando a cabeça.
- Eu avisei para se comportar! - Laura falou me repreendendo.
- Eu sei... Mas foi tão impossível não desejar abraça-la no instante que meus olhos pousaram nela. - Senti meus olhos arderem à vontade de chorar atingiu em cheio.
Ergui meu rosto contorcido pela dor da ilusão ao encarar meus tios. A vergonha também assumia. Se eu não agisse imprudente ela não teria saído daqui e provavelmente eu poderia ter uma conversa com ela.
- Pelo menos, teve algo positivo nisso tudo. - Simon disse com um leve sorriso no rosto.
- Concordo com você, irmão. - Laura também abriu um sorriso.
Franzi o cenho. O que tinha de bom em mamãe tentar me atacar? Eles ficaram doidos ou queriam mesmo que ela arrancasse minha cabeça.
- Talvez você não tenha percebido Sofi, mas eu que estou com sua mãe nesses cinco anos aprendi a conhecer a maneira que age e suas reações. E posso dizer com certeza que você fez diferença.
- O que? - Perguntei completamente confusa. Eu não tinha visto nada de especial na minha mãe a não ser o brilho nos seus olhos naquele momento, mas não tinha como ninguém além de eu ter visto aquilo.
- Sofi, sua mãe parou de te atacar quando pedi, antes mesmo de dizer quem você era.
- E o que isso quer dizer?
- Eu acho que de alguma forma ela sentiu que você era especial.
- Mas como? Se ela me atacou! - Eu queria acreditar na minha tia, mas ainda sim não vi algo tão de especial nisso.
- Sofia, ela só age por impulso e quando você tentou tocar nela sem aviso nenhum. Ela fez o que sempre faz, mas parou quando pedi... Sabia que Felix não teve a mesma sorte que você? - Laura riu se lembrando. - Ele insistiu em uma conversa com ela e quando todos vimos ela já estava em cima dele, só que diferente de você quando gritamos para ela parar nem assim, ela não parou. Cinco vampiros teve que tirá-la decima de Felix e ainda sim ela arrancou a cabeça de dois.
Arregalei os olhos surpresa com o que minha tia tinha contado.
- E mesmo depois de tudo ela não fugiu como fez agora. Ela encarou Felix desafiando-o com olhar. - Completou rindo.
- Não tem graça, Laura. Ela quase matou meu único filho! - Antônio disse irritado. - Queria ver se fosse sua filha!
- Minha filha não é teimosa como seu filho, irmão.
Antônio bufou cruzando os braços.
Então quer dizer que mamãe agiu diferente comigo? Ah eu não acredito.
Suspirei radiante.
- Vamos falar com ela. Prometo dessa vez ficar quietinha. - Disse ansiosa para vê-la novamente, mas dessa vez eu iria me comportar.
- Sofi, agora temos que esperar. - Marcus falou.
- Por quê? - Não. Eu quero ver minha mãe, poxa.
- Nós não fazemos ideia de onde ela esteja e quando ela some não gosta que ninguém se aproxime dela.
Fiz cara de choro.
- Ela não foi embora, né? - Marcus negou para meu alivio, mas... - E quando ela voltar podemos falar com ela?
- Sim. Mila não vai vir atrás de nós, então quando voltar nós viemos falar com ela. - Explicou Laura.
- Tudo bem. - Suspirei rendida. - E que horas ela costuma voltar?
- Um ou dois dias, três no máximo. - Antônio falou pensativo.
Arregalei os olhos. Como é que é?
Tudo isso? Ah, não!
- Mas isso é muito tempo! - Disse batendo o pé.
- É isso ou mais dias afastada dela.
Tá, eles venceram. Então se não tinha mais o que fazer aqui só tinha mais um lugar que eu poderia ir agora.
- Até mais tarde, gente. - Dei as costas para eles e acenei caminhando para fora dali.
- Aonde você pensa que vai? - Antônio perguntou.
- Fazer compra, é claro. - Revirei os olhos. Só compras que é bem vinda em qualquer momento e ainda tenho uma lista enorme para comprar.
[...]
Dois dias se passaram e nenhum sinal da mamãe. Numa tentativa frustrante para o tempo passar mais rápido e ocupar minha cabeça. Passei esses dias só fazendo compras. Comprei tantas coisas que tenho certeza que Allyson vai ficar satisfeita, porque pelo menos, eu estava.
Olhei para o enorme closet do meu quarto e ele estava cheio. Sorri ao ver tudo. Vou pagar uma boa quantia em dinheiro pela taxa de importação, mas pra mim não fazia diferença mesmo.
Lembrei quando levei Naia comigo no primeiro dia. Pra quê! Depois de arrastá-la para varias lojas e sempre dizendo para ela que era a última que eu ia passar. A loira surtou jogou as compras no meio da rua e saiu batendo os pés. Quero só ver se algum guarda viu ela agindo daquele jeito.
Tenho certeza que vai acabar perdendo sua pose de vampira c***l.
Se isso acontecer, vou rir e muito.
- Vai ficar presa ai dentro o dia todo mesmo? - Naia disse socando a porta do meu quarto.
Quanta delicadeza da loirinha, viu.
- Não sei, mas se for para quebrar minha porta. Entre de uma vez!
Então só ouvi o barulho da porta sendo aberta. Quando olhei sobre o ombro vi ela entrando no quarto e assim que viu meu closet tremeu levemente antes de se jogar na minha cama.
- Não tem nada melhor do que fazer compras, não? - Ela virou de lado se apoiando em um dos seus cotovelos.
Olhei pasma para ela e coloquei uma mão sobre o coração.
- É claro que não. Como pode fazer pouco caso assim?
Eu sinceramente não entendia o que passava na mente dos vampiros, além de mim a única que amava tanto quanto eu para fazer compras era Ally. Um hobby tão gostoso de se fazer e a maioria desprezava. Só há uma explicação para isso: Sem senso de moda. Quem sabe eu não ajudo meus tios a mudar um pouco o visual dessa guarda. Tenho certeza que ficaria muito mais bonitos e charmosos que essas roupas que mais pareciam a roupa de um ceifador.
- Nem vou discutir. - Naia revirou os olhos. - E o seu companheiro? - Ela fez careta só de pensar nele. - Já falou com ele?
- Ainda não. - Dei de ombros e joguei-me na cama ao lado dela.
- Sério, Sofi? Um lobo?
- Sim, meu lobinho. - Disse sonhadora. - Nunca encontrei alguém como ele.
- E o Corin? - Minha faceta maravilhada foi desfazendo com uma careta. - Ele ainda é apaixonado por você.
- Foi bom enquanto durou, mas não obrigada!
- Você gostava dele , não gostava?
- Gostava, mas com o passar dos anos acabei perdendo o interesse. Sabe como é! - Virei o rosto para encará-la e abri um sorriso malicioso. - E o Demitri, hein? - Movi as sobrancelhas sugestivamente. - Já se declarou para ele?
Ela na hora fechou a cara fazendo carranca.
- Está louca de falar alguma coisa dessas aqui? Alguém pode ouvir. - Naia guinchou.
- Para de paranoia, Nana. Ninguém está ouvindo nossa conversa. - Revirei os olhos diante do absurdo que ela disse.
- Não é paranoia. Pode ter algum vampiro aqui perto.
Bufei, mas logo abri um sorriso.
- Mas, então?
Ela suspirou.
- Não, papai que nem sonha com isso, caso contrario não faço ideia do que ele pode fazer.
- Acho que está se preocupando atoa. Tio Simon é compreensivo e além do mais Demitri é da guarda principal, seu pai confia plenamente nele. Vamos mulher tome uma atitude, já faz séculos.
- Sofia, ainda me comporto na maneira da época que nasci. Declarar-me a um homem é a última coisa que eu faria.
- Então segue o mundo, loira. Estamos no século XXI. Nós mulheres ocupamos nosso lugar no mundo, agora agarramos os homens.
Tenho certeza que se Naia pudesse corar, estaria corando agora mesmo.
- Mas ele me vê só com uma criança. - Ela sussurrou.
- Você sempre com essa história, não tem nada de criança. Você tem dezesseis anos, loira e por causa da transformação tem a aparência de dezoito. Linda, sexy e sensual. - Pisquei com um olho.
E não era mentira nenhuma Naia realmente era linda e muito menos tinha cara de criança.
- Ah, sem falar que os olhares que Demitri tem sobre você, não são nenhum pouco inocentes.
- Chega dessa conversa! - Naia pediu.
- Foi você quem começou. - Dei de ombros.
- Falei sobre você e não sobre mim.
- E um assunto leva a outro. - Disse o obvio. - Ah, e é melhor que você haja rápido. Se não vou deixar você em situações comprometedoras.
- Você não vai fazer isso! - Perguntou incrédula.
- Deixei muitos séculos passar e se eu não ameaçar mais séculos viram.
Nós duas ficamos nos encarando e não aguentando caímos na risada.
Poucos minutos depois, nós escutamos passos se aproximando do quarto e uma leve batida soou na porta.
- Pode entrar, tio Simon.
Ele entrou com um sorrisinho no rosto.
- Tudo bem com vocês? - Ele perguntou olhando nós duas.
- Claro. - Sorrimos.
- Noah está lá no salão bufando que não fazem companhia para ele.
- Vamos lá agora mesmo. - Disse me levantando da cama.
- Sofi? - Simon me chamou. - Naia fará companhia para seu irmão. Já você virá comigo.
- Onde vamos?
- Camila chegou.
- Oh! - Arregalei os olhos.
Mamãe finalmente tinha voltado depois desses dois dias sumida. A finalmente vou poder vê-la novamente, mas dessa vez eu vou me comportar direitinho, não quero que ela desapareça novamente. Meu coração não ia aguentar mais uma vez.
- Vamos, querida? - Ele perguntou com um sorriso singelo.
Assenti prontamente e corri até seu lado.
- Naia, nos vemos depois? - Virei para olhar minha prima que me encarava sorrindo.
É sério se algum vampiro da guarda visse ela sorrindo verdadeira e não debochada, não faço ideia do que pensariam. Provavelmente que o demônio resolveu aparecer na forma de um anjo.
- Claro, depois me conte como foi. - Piscou com um olho. - Até depois, pai.
- Daqui pouco estarei na sala dos tronos.
- Então tio, vamos? - Eu estava quase correndo dali para encontrar mamãe.
Ele assentiu e saímos do quarto os três juntos, porém Simon e eu indo para um lado e Naia para outro.
- Faz tempo que ela chegou?
- Algumas horas, mas achamos melhor dar um tempo para ela para não se sentir muito pressionada quando você for falar com ela.
- Entendo. - Falei. Na verdade não entendia, eles deviam ter me avisado assim que ela chegou, mas se eles acham que é melhor não ter agido imediatamente eu que não vou contrariar. - E onde estão os outros? - Nenhuns dos meus tios estavam aqui com Simon, achei estranho. Eles não viriam com nós?
- Concordamos em dar um tempo só para vocês duas. Claro que nos primeiros minutos ficaram de olho para ver se tudo vai ocorrer bem e se perceber que está tudo em ordem, irei deixá-las sozinhas.
Senti-me um pouco insegura e se eu fizesse algo errado ou pior ela não quisesse minha presença perto de si? Eu não aguentaria uma rejeição dela, seria demais para mim. E se ela tentasse me atacar de novo? Oh merda, estou fodida.
- Está tudo bem, querida? - Simon perguntou especulativo.
Só agora percebi que tinha parado de andar. Olhei para ele um pouco receosa e parece que ele leu meus pensamentos, pois sorriu e tocou nas pontas do meu cabelo.
- Vai dar tudo certo, Sofi. Não vai acontecer nada de errado dessa vez, você vai ver.
- Promete?
Ele riu.
- Prometo. - Ele disse erguendo sua mão direita e colocando a outra sobre o coração.
Eu sorri com seu gesto. Muitas pessoas não acreditam, mas Simon é um amor de pessoa. Ele pode ter um jeito lunático e quando ele é muito gentil com algum vampiro realmente parece assustador e tem outras intenções por trás dessa bondade, pois vampiros são selvagens e em nosso mundo não existe as palavras: Gentileza e lar. Com exceção é claro da família Estrabão, Jauregui e nós, Cabello.
Mas sei que Simon não se importa que as pessoas achem-no assustador.
Pelo contrario ele gosta assim os vampiros o temem, e para governar as pessoas tem que temer os reis para sempre obedecer suas ordens e suas leis. Pelo menos era assim que funcionava séculos atrás e ainda funciona até hoje.
- Não há o que temer. - Simon se virou ficando de frente para mim. - Sua mãe sempre cuidou de você querida. Está na hora de você cuidar dela, você é a única que pode fazer isso por ela num momento tão delicado quanto esse.
Simon tinha razão, mamãe sempre fez de tudo para mim durante toda a minha existência. Está na hora de eu ajudá-la, não existe ninguém na minha existência que amo mais que a mamãe. Eu faria de tudo que estiver ao meu alcance.
Decidida mais do que nunca ergui o queixo.
- Eu farei o que for preciso.
Ele abriu um largo sorriso, então voltamos a seguir em direção as masmorras. Logo aquela enorme porta de madeira estava na minha frente. Simon me olhou mais uma vez e acenei com a cabeça.
Então ele abriu a porta que rangeu levemente por ser tão antiga e sozinha eu entrei mais uma vez naquele enorme salão.
Meus olhos caíram diretamente nela.
Mamãe estava sentada na cadeira de lado para mim mesmo ela sentindo minha presença não ergueu a cabeça em momento algum. Ela estava lendo um livro, mas ela fechou-o no mesmo instante que parei ao seu lado.
Eu não sabia como agir. Será que eu podia chamá-la de mamãe ou ela preferia Mila? Será que ela ainda gosta desse apelido ou prefere ser chamada de Karla?
Eu sinceramente não sabia o que dizer, então comecei com a primeira coisa que veio na minha cabeça.
- Oi. - Sussurrei.
Que inteligência, Sofia. Tantas coisas para dizer e você diz "oi" ??
- Posso sentar?
Tinha outra cadeira do outro lado da mesa mediana quadrada de frente para ela. Para piorar minha situação, ela nem deu bola para o que eu disse, não moveu nenhum milímetro sequer.
Olhei para as pilhas de livro e vi que ela estava lendo todo o tipo de livro.
Desde literatura, livros científicos até revistas de tecnologia e atualidades e foi ai que eu percebi que mamãe estava lendo para saber tudo sobre o mundo por conta da perda de memória.
Dei de ombros e eu mesma arrastei a cadeira sentando nela. Ficamos em silêncio por um longo tempo, nenhuma de nós dizia uma palavra e ela nem ao menos me olhou, estava começando a ficar desconfortável esse silêncio e eu sabia que se não dissesse nada, ela tão pouco levantaria o rosto.
- Como tem passado? - Me arrisquei perguntar. - Sabe, faz muitos anos que não te vejo. Eu não fazia ideia que você estava... Bem.
Vi sua mão que estava por cima da mesa fechar em punho. Droga, acho que falei alguma besteira. Porém para minha surpresa ela ergueu o rosto e seus olhos imediatamente se encontraram com os meus.
Senti como se finalmente eu pudesse voltar a viver como antigamente, afinal minha mãe estava bem, viva e aqui na minha frente. Só estaria melhor se ela não tivesse perdido a memória, mas não importa eu daria um jeito para ajudar nisso depois.
Minha prioridade era se aproximar dela.
Os seus olhos não tinham mais brilhos, mas também não tinham raiva. Só que eu acho que era pior assim, pois dava para ver através deles que além de perdida, estavam vazios. Senti uma vontade enorme de poder abraçá-la, mas eu não podia.
Posso estragar tudo.
- Desculpe. - Sua voz melodiosa que há tanto tempo não ouvia fluiu pelo lugar.
Encarei-a espantada eu esperava muitas coisas para ouvir da sua boca ou até mesmo não ouvir nada, mas nenhuma delas era um pedido de desculpa. Fiquei observando-a descaradamente e percebi que ela se sentiu descontável com minha atitude, desviando simplesmente seu olhar do meu.
- Você não tem que se desculpar. - Falei e sem pensar levei minha mão para tocar a sua que estava em cima da mesa, mas hesitei antes de tocá-la.
Por pouco eu quase coloco tudo a perder. Eu vi ela discretamente afastar sua mão colocando-a em cima do seu colo debaixo da mesa e deixando o livro que lia quietinho na sua frente.
Eu só não entendia sua atitude, por que ela agia assim? Ela não foi desse jeito. Então por quê? Eu precisava descobrir, e ninguém sabia me responde. Só há um jeito de saber.
Seria conquistando sua confiança.
Suspirei profundamente.
- Então, que tal me contar o que fez nesses últimos anos? - Perguntei e vi sua cara se contorcer levemente em uma careta. - Nada? - Insisti, mas nenhuma palavra saiu da sua boca. - Então vou contar como foi o meu.
Só espero que ela não fuja daqui de tédio, mas duvido que fuja. Minha vida imortal é sempre cheia de emoções, interessa à todos.