Capítulo 2

1799 Palavras
Vanessa narrando Cheguei na entrada da Rocinha e respirei fundo. O coração tava acelerado, mas a vontade de recomeçar era maior. Segui pelas vielas com o endereço em mãos até chegar ao número anotado no papel. Parei em frente ao local e fiquei surpresa. O salão era muito mais bonito do que eu imaginava. Para uma comunidade, era chique mesmo. Fachada pintada de branco com detalhes dourados, letreiro brilhante escrito Elegância Studio, e pelas janelas de vidro dava pra ver tudo impecável por dentro: espelhos grandes, poltronas de veludo rosa, piso brilhando. Tinha cara de salão de bairro nobre. Respirei fundo, ajeitei a postura e entrei. Lá dentro o ambiente era animado, cheiroso, e todo decorado com bom gosto. Tinha música ambiente baixinha, uma cliente fazendo escova, outra já sendo maquiada. Tudo muito bem organizado. Logo, uma mulher de pele clara, cabelos lisos e loiros na altura dos ombros veio até mim com um sorriso simpático. Josi:
— Oi, você é a Vanessa, né? Vanessa:
— Isso! Vim pela vaga de estágio, a gente conversou ontem por telefone. Josi:
— Ah, que bom que veio! Eu sou a Josi, dona do Elegância. Seja muito bem-vinda, viu? Ela me deu dois beijinhos no rosto e chamou um homem que apareceu logo em seguida, saindo de uma salinha ao fundo. Era moreno, alto, cheio de tatuagens no braço e com uma vibe bem estilosa. Josi:
— Esse é o Fernando, meu marido. A gente toca o salão juntos. Fernando:
— Prazer, Vanessa. Bem-vinda! Aqui é agito o tempo todo, viu? Vanessa:
— Prazer é meu! Pode deixar, tô pronta. Josi:
— Vem cá comigo rapidinho, vamos conversar lá atrás. Me levou até uma salinha reservada no fundo do salão, onde tinha uma mesinha, uma cadeira estofada e um espelho bem grande que refletia toda a minha tensão. Sentei e respirei fundo mais uma vez. Josi:
— Então me conta, o que você faz exatamente? Já tá no final da facul, né? Vanessa:
— Tô sim, último semestre de Estética. Minha especialização é corporal, mas também faço limpeza de pele, drenagem linfática, massagem modeladora... Já treinei muito em mim, viu? Sou apaixonada por essa área. Fernando:
— Ihhh... essa daí vai bombar aqui, amor! Olha o nível! Josi:
— Vai mesmo! Já tô imaginando as clientes loucas pedindo pacotes. E deixa eu te falar... eu amei teu perfil. Fala bem, é educada, tem postura… só tem um detalhe. Ela me olhou séria, com um sorriso no canto da boca. Josi:
— Você é muito bonita, Vanessa. Vai dar trabalho aqui na comunidade. Os homens aqui são fogo, menina. Sedentos! Ainda mais com alguém de fora, com essa carinha de “sou recatada mas sou um perigo” kkk. Fernando:
— Ela nem chegou e os caras lá da barbearia já ficaram todos querendo saber quem era a novata. Vai ter que andar com olho aberto, hein. Vanessa:
— Pode deixar… Eu vim pra trabalhar, terminar minha faculdade. Confusão não é comigo. Josi:
— Isso aí! Gostei da tua postura. Aqui a gente é família, se ajuda, se protege. Mas te aviso mesmo, pra não ser pega de surpresa. Esses caras são ligeiros, alguns já vão vir com papinho. Fernando:
— Mas qualquer coisa, a gente tá aqui. Eles respeitam a Josi e sabem que aqui dentro a gente não aceita gracinha. Josi:
— Então, posso te colocar pra começar amanhã? De manhã já é cheio, e já tenho umas clientes que estavam procurando exatamente o que você faz. Vanessa:
— Pode sim! Tô animada. Josi:
— Maravilha. Então amanhã às 8h, tá bom? Traz tua maleta, tuas coisas, e vamos que vamos. Fernando:
— E já se prepara... porque no primeiro dia o povo da comunidade vai tudo querer te ver. Vai ser assunto, viu? Vanessa narrando… Depois de tudo acertado, fiquei mais um tempinho no salão conversando com a Josi e o Fernando. O ambiente era tão leve que nem parecia que eu estava no meio da maior comunidade da América Latina. Até esqueci um pouco do peso que estava carregando nos últimos tempos. Vanessa:
— Fernando, deixa eu te perguntar uma coisa... Fernando:
— Manda! Vanessa:
— Eu tô querendo alugar uma kitnet aqui por perto. Como o salão é bem localizado, rodeado de barzinho, restaurante... tudo perto, sabe? Seria perfeito morar por aqui. E o pouco que tenho, preciso fazer render. Você conhece algum lugar bom, seguro? Fernando:
— Olha aí, que coincidência! Tem uma sim… da mãe do Léo, nosso amigo. Ele é daqui da comunidade e a mãe dele aluga uma kit net ao lado da casa dela. Dona Cleusa é gente boa demais. Vanessa:
— Jura? Você acha que ela toparia me alugar? Fernando:
— Rapaz, certeza que sim. Ela sempre prefere alugar pra mulher, principalmente estudante ou gente que quer sossego. E como tu vai trabalhar com a gente aqui, é melhor ainda. Quer que eu te leve lá? Vanessa:
— Quero sim, por favor! Se der certo, já fecho hoje mesmo. Fernando:
— Bora então. É pertinho, uns dez minutos andando. Saímos do salão juntos, e fui seguindo o Fernando pelas vielas da Rocinha. Era curioso como tudo ali era vivo, cheio de movimento, música saindo das janelas, cheiro de comida vindo das casas, crianças correndo pelas ruas. E mesmo com tudo isso, ainda dava um certo medo – era um mundo novo pra mim. Chegamos a uma casa simples, mas muito bem cuidada. Portão pintado de verde claro, flores nas janelas, e uma senhora com um turbante colorido e bata florida varrendo a frente. Fernando (gritando de longe):
— Ôôô, dona Cleusa! Tô trazendo uma moça boa pra senhora conhecer! Dona Cleusa:
— Vixe, lá vem! — disse ela rindo, batendo o chinelo no chão pra tirar o pó da vassoura. Nos aproximamos e ela me olhou de cima a baixo, com aquele olhar de mãe experiente, que já entende tudo só com um “bom dia”. Fernando:
— Essa aqui é a Vanessa, vai trabalhar com a gente no salão. Estudante, gente fina. Tá procurando uma kitnet aqui por perto, e eu pensei logo na senhora. Dona Cleusa:
— Ahhh, que beleza! É sempre bom ter mulher direita por aqui. Cansada de menino que faz bagunça. Vem cá, filha, vou te mostrar. Ela entrou na casa para pegar as chaves e em seguida veio até nós para mostrar. Era ao lado da sua casa, um portão branco de elevação e um portão pequeno. Entramos na kit net, uma sala com cozinha e um quarto com banheiro, e um pequeno espaço no fundo para lavanderia. Vanessa:
— Nossa, é perfeita! Tudo que eu precisava. Dona Cleusa:
— Fico feliz que tenha gostado. E o preço é camarada, viu? Só quero gente de paz por aqui. Vanessa (sorrindo):
— Pode ficar tranquila, dona Cleusa. Eu sou muito quieta, só estudo e trabalho. Vai ser uma bênção morar aqui. Dona Cleuso:
— Então tá feito. Pode trazer tuas coisas quando quiser. Vanessa narrando… Saí dali com um sorriso no rosto. Em menos de um dia, já tinha conseguido estágio e lugar pra morar. A sensação era de recomeço mesmo. E por mais que tudo fosse novo e meio assustador, tinha alguma coisa dentro de mim que dizia: você tá no lugar certo. Mal sabia eu o que ainda me esperava naquele morro. Gabriel narrando Acordei com o barulho do rádio comunicador chiando no canto da cômoda. Ainda tava meio escuro, umas 06:00 da manhã. O sol nem tinha dado as caras direito, mas aqui no morro o dia começa cedo… e quem dorme demais, perde dinheiro ou leva bala. Levantei devagar, estiquei os braços. Fui direto pro banheiro fazer as higienes. Escovei os dentes, tomei uma ducha gelada — gosto assim, pra despertar. A água batendo no corpo e a mente já trabalhando nas pendências do dia. Hoje tem entrega de carga, tem cobrança, e ainda preciso dar um enquadro num vacilão que andou metendo o louco na quebrada. Terminei o banho, botei um short preto de tactel, regata branca colada, corrente no pescoço e o boné virado pra trás. Fui pra cozinha e a Jéssica, minha secretária do lar, já tava lá. Faz tudo na minha casa: cozinha, lava, organiza. Confio nela. Jéssica:
— Café tá pronto, chefe. Gabriel:
— Valeu, Jessy. Me sentei na mesa de madeira maciça que mandei fazer sob medida. A casa onde moro é no alto do morro — a mais bonita da Rocinha, todo mundo sabe. Gradeada, cercada de câmeras, portão eletrônico, segurança 24h. Quem sobe ali sem ser chamado, não desce mais. É tipo fortaleza. Comi um pão com ovo e tomei um café preto forte, do jeito que gosto. Fiquei olhando pela varanda, vendo o movimento começar lá embaixo. O morro já fervilhando, criança correndo, mulher indo trabalhar, moto-táxi passando voado. Terminei de comer, peguei a chave da Hilux preta, blindada, e desci. O som grave do motor já chama atenção. Desço devagar, cumprimentando os conhecidos com o queixo, só no olhar. O povo respeita. E teme. Cheguei na boca. A central. Onde o dinheiro gira. Entrei pelo portão dos fundos, passei pela primeira contenção — os meninos já sabiam da minha chegada. Um deles abriu caminho, já anunciando no rádio. Soldado:
— GF tá na base. Repito: GF tá na base. Vinícius e Leonardo já estavam lá, em pé, encostados na parede. Gabriel:
— Fala, meus cria. Vinícius:
— Tudo no esquema, chefe. Carga de ontem chegou inteira. Só produto fino. Já tá começando a girar. Gabriel:
— E o dinheiro? Leonardo (entregando um caderno e uma mochila):
— Contado e separado. Faturamento da semana aí. Vini já passou as cobranças pros menor distribuir. Abri a mochila, vi o maço de dinheiro empacotado, tudo dividido com elástico e etiquetado. O cheiro de nota nova subiu. Olhei o caderno, bati os números de cabeça — tudo conferindo. Gabriel:
— É isso que eu gosto. Ordem. Sem falha. Vinícius:
— Teve um zé que vacilou com a gente ali no setor 4. Tá atrasado com a cobrança. Quer que resolva? Gabriel (encarando firme):
— Já sabe como agir. Vai na educação. Mas se peitar, tu já sabe… sem segunda chance. Leonardo:
— Ah, e outra… o Fernando passou mais cedo. Disse que chegou uma estagiária nova no salão da Josi. Menina bonita, fina. Tá até alugando a kitnet da minha mãe. Gabriel (erguendo a sobrancelha):
— É? Já chegou causando? Leonardo:
— Ainda não. Mas chamou atenção. O morro é rápido pra falar. Gabriel:
— Quero só ver até onde vai esse conto de fadas. Aqui não é zona sul. Aqui é selva. Fiquei em silêncio por uns segundos. Tinha algo estranho no ar. E quando o morro muda o ritmo, eu sinto. Sempre sinto.
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