Recebi uma mensagem da Laís enquanto estava assistindo as apresentações da seletiva individual no teatro, a propósito, eu amo esse teatro, ele combina história e modernidade, cada detalhe da sua arquitetura remete à história, e ele é o maior teatro da cidade. A capacidade do auditório onde está sendo feita a seleção é de mil e quinhentas pessoas, claro cheguei cedo só pra sentar-se na frente, assim também posso ficar ouvindo os comentários dos juízes que estão na primeira fila. Eu estava distraído com a mensagem de Laís então não vi quando Anne começou a sua apresentação, mas notei que a atmosfera mudou e as pessoas pareciam prender a respiração, então deixei o celular de lado e parei para ver o que estava acontecendo.
Anne dançava com tamanha intensidade que parecia carregar todos junto com ela para dentro da história contada pela dança, logicamente, cada um tinha liberdade de entender como quisesse, mas eu via a história de uma jovem procurando proteção. Eu não sabia a motivo, mas lágrimas simplesmente escorriam pelo meu rosto, e não era apenas eu...pelo menos metade das pessoas do teatro chorava em silêncio quando a apresentação dela terminou, aquilo era incrível. Me levantei e fui saindo de fininho para tentar encontrar Anne os corredores, eu precisava falar com ela, era minha chance de me desculpar e quem sabe até me aproximar dessa garota que nunca havia saído da minha cabeça. (Eu sei, vocês devem achar que é só por causa que ela foi a única que ousou me dar um fora, pode até ser, mas não tenho certeza, tem algo nela que me atrai de um jeito muito diferente, parece que eu a conheço da vida toda)
Quando finalmente cheguei no corredor onde Anne estava, ela estava conversando com Patrícia Magli. Ouvi a conversa delas enquanto me aproximava.
-Você foi incrível, Anne, parabéns. Foi muito emocionante - ela colocou a mão na barriga sei lá por que - gostaria que você considerasse o teste para protagonista.
-Eu ficaria honrada. – Anne disse emocionada- mas você está se sentindo bem? - ela fez menção de ajudar a segurar Patrícia.
-Eu, só estou com muitas coisas para resolver. - Patrícia disfarçou, realmente parecia estar precisando de um médico. - mas agradeço a preocupação. Nos vemos amanhã na primeira parte da seletiva de duplas. Mais uma vez, parabéns pela apresentação.
Anne estava com um sorriso lindo quando me aproximei, mas assim que me viu, seu rosto se fechou, o olhar dela parecia conter um ódio intenso e, pode ter sido impressão minha, mas ela estava tremendo quando a vi fechar os punhos.
- Leo Garcia, vou te avisar apenas uma vez... fique longe de mim! - A voz dela foi tão séria e firme que não consegui dar nem mais um passo.
- Anne, eu sei que fui um i****a há anos atrás, mas, eu sou uma pessoa diferente agora, vim me desculpar pela forma que agi com você. – Falei sem me mover ou fazer algum movimento brusco pois não sabia se ela ia me bater ou jogar algo em mim, eu não conseguia entender o desprezo que via nos olhos dela, ou era medo?
- Tudo bem.- Ela se acalmou um pouco- Vamos deixar isso para trás, mas ainda assim, fique longe de mim.- Ela estava mesmo tremendo muito e a cor começou a fugir de seus lábios, Anne cambaleou para frente e ia simplesmente cair de cara no chão se eu não fizesse nada, então corri e me joguei no chão, conseguindo amparar ela no meu colo, eu a virei, ela ficou com a cabeça deitada sobe minhas pernas, estava com a respiração fraca, eu comecei a gritar desesperado por ajuda, logo um homem se aproximou saindo de uma sala onde estava com Patrícia.
- Oi, eu sou Júlio, sou médico, traga a moça até aqui, por gentileza.- Ele apontou para a sala entrando, na verdade havia uma maca e um consultório completo ali, um tipo de enfermaria. O homem fez alguns testes, Anne já estava acordando quando ele explicou.- Desidratação combinada com stress, a senhorita vai ficar um tempinho aqui, tudo bem?
- Que horas são?- Anne perguntou preocupada.
- Ainda são três da tarde.- O Médico respondeu enquanto preparava o soro.
- Tudo bem então, posso ficar até as cinco.- Anne respondeu fraca e apagou de novo, o médico olhou para mim.
- Você está com ela?- Ele me perguntou como quem quer dar as orientações.
- Não, mas a conheço, posso ficar aqui se precisar.- Respondi disposto a ajudar.
- Certo, aqui está a receita para ela, se possível, peça que ela faça um dia de repouso. Sei que vocês estão no meio de um processo mas é importante para que ela se recomponha. Agora preciso ir.- O médico se despediu – Uma enfermeira passará daqui uma hora para remover o acesso do soro.
Fiquei sentado em uma cadeira olhando para Anne, o que havia deixado ela tão assustada a ponto de ter uma crise? Eu era tão babaca assim? Havia ferido ela com meu jeito arrogante de forma tão intensa? Precisava me redimir.
- Sinto muito Anne- eu falei baixinho- minha vida está uma droga, quando a vi no palco, achei que era uma coisa boa, mas está na cara que fui um i****a com você também... estou tentando mudar sabe? Meu avô morreu... eu descobri que fiquei estéril, não tenho onde cair morto e recentemente ainda descobri algo horrível que meu avô fez...- De repente me toquei que estava tentando conversar com uma garota desmaiada- sou um i****a mesmo... você aí m*l e eu choramingando...
- Oi...- Anne disse como como quem estava acordando naquele momento- ah, é você. – Ela tentou se sentar.
- Eu te ajudo, aqui...- ajudei a arrumar a maca para a posição "sentada" - está se sentindo melhor?
- sim, obrigada...que lugar é esse? - ela olhou em volta confusa.
- É uma enfermaria, você desmaiou, o médico disse que foi desidratação combinada com stress.
Notei que ela ficou muito sem graça quando falei do stress, parecia querer esconder alguma coisa, mas deixei quieto.
- Deve ter sido por causa da intensidade da sua apresentação- comentei com o máximo de gentileza que consegui, mantendo uma distância segura- Todos se emocionaram, então imagino que tenha sido intenso para você também.
- Ah sim- ela olhou para o outro lado na tentativa de disfarçar que estava chorando, por algum motivo ela evitava me olhar nos olhos. - deve ser isso mesmo. Será que já posso ir?
- O soro deve acabar daqui a pouco, o médico disse eu uma enfermeira virá tirar o acesso e você está liberada, aqui está sua receita, ele deixou comigo. - entreguei o papel para ela que me olhou desconfiada.- Obrigada, você...deve ter suas coisas para fazer, agradeço a ajuda mas pode ir agora.
- Tudo bem- Eu disse com mágoa e forçando um sorriso. - Melhoras então.- Fui saindo e ouvi que ela caiu no choro assim que a porta se fechou atrás de mim, alguma coisa estava muito errada, mas como eu poderia ajudar se ela não me queria por perto? Meu coração se partiu.
Peguei o celular e vi a mensagem de Lívia, ela dizia que a colega estava viajando, mas na próxima semana voltaria e falaria comigo, quem sabe pelo menos isso eu conseguisse resolver, conhecer a moça que pelo menos por um tempo, havia sido a mãe do meu filho.