Insone, levantei naquela terça-feira disposta a fazer tudo da maneira mais segura
possível. Nada de descer algumas estações anteriores à minha para ir andando e apreciando a
vista. Nada de atravessar grandes avenidas, mesmo que isto implicasse ter que fazer alguns
percursos mais distantes. Cheguei sã e salva ao colégio.
Para me manter acordada e conseguir me distrair do eternamente chato tom de voz da Sra.
Applegate, resolvi passar antes na cantina e comprar um pacote de balas de café. Assim, pelo
menos eu faria parte da metade da turma que permaneceria divagando em seus pensamentos e
não dormindo a ponto de babar. A cantina estava mais agitada do que eu poderia imaginar.
Uma multidão de alunos bem mais jovens do que eu travava uma guerra entre si para ver quem
conseguia a hercúlea façanha de ser atendido pela lerda e estrábica balconista do lugar.
Resumindo: um tumulto. Decidi encarar e parti para o combate quando vi que restava apenas
um único pacote da bala que queria comprar. A confusão melhorou um pouco quando o
primeiro sinal tocou. O grupo de alunos mais ajuizado resolveu abandonar o local e se
encaminhar para as salas de aula. Não queriam correr o risco de aguardar pelo segundo e
definitivo sinal.
Eu não estava neste grupo.
— As balas de café! — gritei com esperança de que a tonta balconista me desse atenção.
Meia dúzia de alunos era o suficiente para deixá-la desorientada. — Ei! Aquelas ali! — fazia
de tudo para ser ouvida, mas nada. A mulher era devagar quase parando. — Só quero a bala
de café! — implorava olhando o relógio.
— A bala de café! — uma voz rouca ressoou por detrás de minha nuca.
— Obrigada… — Eu já ia lhe agradecendo quando fui surpreendida com a mais egoísta e
improvável situação.
— Aquelas! Tenho pressa! — ordenou o rapaz vestido de n***o e com fisionomia
emburrada. Seus cabelos estavam escondidos por detrás de uma ridícula bandana, seus olhos
camuflados por óculos escuros esportivos. A balconista o atendeu no mesmo instante. Era
assim que tinha que lidar com ela? Ordenando?!
— O quê?! — guinchei.
A mulher parecia hipnotizada por aquele garoto. Passou o pacote de balas com a maior
rapidez.
— Tome. — Ele entregou o dinheiro para a vesga que agora sorria sem parar. — Pode
ficar com o troco. — E saiu caminhando a passos largos. Meu sangue ferveu instantaneamente.
Eu estava “passada” com o que acabara de acontecer.
— Estas balas me pertencem! — berrei, interceptando-o.
O garoto parou e, com um semblante de indiferença, me olhou de cima a baixo. Abriu o
pacote, pegou uma bala lá de dentro e começou a mastigá-la com gosto.
— Quer uma? — perguntou-me com jeito implicante, oferecendo-me uma bala. Por um
momento, travei. Na verdade, congelei. E sei que em nada teve a ver com aquela atitude
mesquinha dele, mas sim com o que meus olhos encaravam estupefatos: cicatrizes. Inúmeras.
Sua mão era uma confusão delas. Algumas discretas, outras horrorosas.
— Este pacote me pertence! — repeti trêmula.
— Não vejo seu nome escrito nele — corrigiu-me com ar de deboche.
— Mas viu que eu já tinha pedido estas balas antes de você! — retruquei, sentindo-me
estranhamente fraca e nervosa.
— Tente ser mais persuasiva na próxima vez, Tesouro.
O quê?! “Tesouro”?
O segundo sinal tocou. Teria menos de um minuto para caminhar até a sala de aula. A Sra.
Applegate era intolerante com atrasos.
— Você está me atrasando — disse ele com tom arrogante. E, sem a menor educação,
afastou meu ombro de seu caminho e desvencilhou-se de mim.
— Ora, seu… — mas meu raciocínio estava incompreensivelmente lerdo.
Quando dei por mim, o i****a já havia desaparecido do meu campo de visão. E fiquei ali,
boquiaberta, incapaz de acreditar que existiriam pessoas tão insuportáveis e mesquinhas no
mundo. A indignação virou repulsa quando me vi barrada na aula de matemática. A Sra.
Applegate trancara a porta, deixando-me do lado de fora. Era a primeira vez na vida que
ficava fora de uma aula que não fosse por doença.
— Cretino de uma figa! — bradei a quem quisesse ouvir. Após cinquenta minutos
espumando fel, o sinal da aula seguinte tocou. Melly já estava na classe de História, acenando
para mim quando cheguei. Empoleirei-me ao seu lado.
— O que houve? — perguntou preocupada.
— Nada. Eu tropecei.
— Ah, não! Teve outra vertigem?
— Não. Tropecei num cavalo.
— Ãh?
— Deixa pra lá! — arfei e resolvi mudar o rumo da conversa antes que fosse consumida
pelo ódio. — Quais as novidades?
— Como você sabia?
— Sabia do quê?
— Das novidades!
— Maneira de falar, Melly.
— Hum. — E, mudando seu semblante para um bem mais diabólico, continuou: — Kate
me contou que o outro aluno novo estava lá na secretaria. Acho que ele vai começar hoje.
— E o que há de mais? — Eu já não achava a menor graça em tanto aluno novo entrando
dia após dia.
— Kate disse que ele é lindo, mas assustador.
— Como assim? — A pergunta saiu áspera. Estava difícil amansar meu mau humor.
— É como se ele tivesse um rastreador dentro dos olhos, como se nos despisse por
completo só em nos encarar.
Antes mesmo que Melly começasse com suas teatrais e detalhadas explicações, o prof.
Clooney roçou a garganta e pediu que nos acomodássemos em silêncio no seu autoritário
timbre de voz. A aula iniciaria em dois minutos. Enquanto os alunos se acomodavam, meu anjo
louro entrou pela porta e piscou ao passar por mim.
— Ele piscou para você, Nina! — soltou Melly num misto de surpresa e empolgação.
— É — respondi, sem ter um único segundo sequer para ficar em êxtase com aquela
situação.
— É ele! — Melly vibrou, tamborilando os dedos na carteira.
— Quem?
Então ele apareceu: o cretino do ladrão de balas alheias! O último aluno novo que faltava
chegar era justamente aquele i****a egoísta. Desta vez pude observá-lo com atenção. Era alto,
de pele clara, e tinha uma aparência marrenta. Estava vestido de preto, como se viesse de um
velório ou fizesse parte de algum grupo de Darks. Tinha os olhos escondidos por detrás das
lentes escuras de seus óculos de sol, usava um lenço preto amarrado na cabeça, no estilo bad
boy, e mantinha as mãos dentro dos bolsos. O corpo parecia musculoso sem exageros, mas também estava escondido, encoberto por uma jaqueta puída. Provavelmente tinha cerca de
vinte anos. No caminho até seu lugar, passou muito próximo a mim, raspando de leve em meu
braço esquerdo. Imediatamente uma onda de calafrio subiu pela minha espinha dorsal e deixou
todos os meus pelos eriçados.
— Ah, não! — resmunguei baixinho, na expectativa de um desmaio iminente.
— Tudo bem, Nina? — Era Melly já percebendo minha mudança de cor.
— Tudo. — E me virei ao escutar batidinhas aceleradas na porta da sala de aula. Era a
Sra. Nancy, carregando desajeitadamente uma pilha de papéis.
— Com licença, professor? — disse ela com seu habitual sorrisinho afetado.
— O que a senhora deseja? — indagou o prof. Clooney meio sem paciência.
A Sra. Nancy despejou os papéis e seu celular sobre a carteira de Melly. Devia ser uma
missão impossível para ela falar em público sem poder gesticular os braços.
— Eu vim avisá-los de que vocês têm até sexta-feira para trazer suas fotos para o anuário
da escola. Não teremos prorrogações. Portanto, não se esqueçam, hein?
Um burburinho se formou com aquela notícia.
— Mas esta aqui é para a minha coleção particular — disse ela depois de apanhar nossa
agitada turma num clique inesperado.
— Ei, este celular é meu — reclamou Melly.
— Ops! Que distração a minha! — desculpou-se, trocou o aparelho e tornou a virar para
a classe: — Olhem o passarinho!
— A senhora já acabou? — rosnou o Sr. Clooney num revirar de olhos.
— Sim, sim. Obrigada, professor.
E saiu. Demorou algum tempo para a turma se acalmar. O prof. Clooney estava
visivelmente desanimado com a interrupção que sofrera. Sua aula, que costumava ser
superagitada e interessante, ia devagar, quase parando. O Mercantilismo era um tédio!
— Ai! O que foi? — Melly cutucou o meu braço direito com uma caneta.
— O Kevin não para de te olhar! — cochichou com uma risadinha infame.
— Pare com isto, Melly!
— É sério.
Fiquei imóvel, fingindo prestar atenção à aula. Mas, já era! Meus pensamentos estavam
longe, bem longe. E se eu me virasse agora? O que ele iria achar? Resolvi me conter e não
olhar para trás, quando então recebi outro cutucão.
— O que foi agora? — resmunguei baixinho.
— Você não vai acreditar, mas eu acho que o garoto marrento também está olhando
fixamente para você — cochichou Melly intrigada.
— O outro garoto? — indaguei com violência. Um misto de raiva e curiosidade me
alfinetou com vontade e, contrariando o comando emitido por minha massa cinzenta, virei-me
à procura daquele garoto de expressão furiosa.
Estranho magnetismo. Não demorei mais que um centésimo de segundo para identificá-lo.
Algo nele me dava medo, mas também me intrigava de modo irracional. Suas feições eram
rudes, porém incrivelmente interessantes. Seu semblante num instante estava aéreo, noutro
estava alerta e parecia perceber que eu o observava, inclinando-se em minha direção. Se seus
olhos não estivessem escondidos atrás daqueles óculos escuros, eu poderia jurar que eles me
fuzilavam com ferocidade. O ladrãozinho de balas me encarava. Provavelmente queria me
enfrentar. Senti minha visão tornar a ficar turva e o calafrio se espalhar pelo meu corpo.
Não! Não vou desmaiar agora! Realmente, preciso procurar um médico o mais rápido
possível! Forcei a recuperação imediata de minha concentração, e, graças a uma grande
respirada, fiquei bem. Quando dei por mim, Kevin me analisava de um jeito esquisito. O que
estava acontecendo? Por que todos estariam me observando com tamanha intensidade? O que
haveria de errado? Minhas perguntas permaneciam perdidas. Nada fazia sentido.
— Qual o principal objetivo do Mercantilismo europeu, Srta. Scott? — arguiu-me de
repente o Sr. Clooney. Com certeza ele observara que eu estava completamente aérea e
aproveitou a oportunidade para me repreender. De volta à Terra.
— Como?
— A Srta. não estava prestando atenção na aula?
— Estava sim, é, que… Bem… eu acho que … — em vez de apenas me desculpar e ficar
calada, caí na asneira de dizer algumas coisas que lembrava sobre o assunto. — O
Mercantilismo visava o maior comércio entre as nações — respondi.
— E o que o rapaz acha disto? — rebateu voltando-se para o bad boy, que em nada se
intimidou. Permaneceu reclinado na carteira e mastigando com vontade as malditas balas.
— Não concordo — sua resposta veio como um torpedo em minha direção: direta e letal.
Risadinhas emergiram de todos os cantos. Apontando para mim, a aluna nova de cabelo
louro e espetado gargalhava sem parar.