O dia da feira chegou e era a oportunidade de camponeses e artesãos exporem seus trabalhos em Milano.
Gente de toda a região de Mantova, Bérgamo e proximidades se reuniam no centro de Milão para vender seus produtos.
Filippo e sua família estava lá. Vendiam produtos do campo. Era um encontro mensal, já que a maioria dos produtores ali vendia semanalmente ao redor de suas terras.
Anita estava ali pela primeira vez. Há pouco tempo aprendeu a fazer artesanatos com seus pais e estava em sua primeira feira.
Seria um dia de muito trabalho. Os comerciantes montaram suas barracas e tendas às cinco da manhã.
Eram baracas de todas as cores, das mais variadas, embelezando o centro milanês. Tal espetáculo de cores daria espaço a outro, o das vozes dos camponeses e artesãos vendendo seus produtos.
Anita estava com seus pais numa barraca azul. Havia deixado seu lindo cabelo solto cair por seus ombros, tão grande que alcançava a sua cintura.
Sua barraca distava seis até a de Filippo, uma barraca vermelha. Ele estava bastante concentrado em seu trabalho.
— Pippo. Agora quero que organize essas couves.
— Ok, mãe.
— Depois tem quatro caixas de tomate para organizar. Se precisar de ajuda, peça a seu irmão.
O trabalho estava todo organizado e clientes começaram a tomar conta da feira.
— Buongiorno! Que desejas?
— Quero dois quilos de tomate.
Quem cuidava da parte da venda era a mãe de Filippo. Ele ajudava apenas a abastecer, repondo as bandejas de verduras, principalmente as de tomate.
Vendiam dois tipos de tomate. O italiano (tomate Roma), que é um pouco menor, e o tradicional, que estamos acostumados a ver.
Embora o Roma seja uma variedade de polinização aberta ao invés de um híbrido, tem sido constantemente melhorado ao ponto que a maioria das vinhas de tomate Roma são resistentes à murcha de verticillium e fusarium.
A maioria dos tomates comerciais vendidos nos mercados do Hemisfério Ocidental hoje são Romas ou tipos relacionados. Naquela época era muito apreciado por toda a Itália, vindo a se popularizar em todo o país e outras nações que eram rota de comércio italiano. Tomates ameixa menores, aproximadamente do tamanho de tomates cereja, às vezes são vendidos como "baby Romas". Um parente menor conhecido como "Windowbox Roma" é vendido como tomate adequado para jardins com janelas e recipientes suspensos.
Apesar de o tomate ser uma fruta original da América Sul e Central, se popularizou por todo o mundo com as primeiras explorações dos europeus.
A Itália conseguiu se fortalecer bastante com o plantio e comércio de tomate. O fruto ficou muito conhecido e foi aprovado pelo paladar italiano.
Foi uma grande inovação na culinária italiana, pois passou a fazer parte de diversos pratos. Dentre eles, a famosa pizza.
Esse conhecido prato que se tornou o símbolo da Itália não tem origem italiana. Acredita-se que gregos, egípcios, hebreus e babilônios já faziam uma diferente forma de pizza.
No início de sua existência, somente as ervas regionais e o azeite de oliva, comuns no cotidiano da região, eram os ingredientes típicos da pizza. Os italianos foram os que acrescentaram o tomate, descoberto na América e levado à Europa pelos conquistadores espanhóis. Porém, nessa época, a pizza ainda não tinha a sua forma característica redonda, mas dobrada ao meio, feito um sanduíche ou um calzone.
A piza era um alimento de pessoas humildes do sul da Itália, quando, próximo do início do primeiro milênio, surgiu o termo picea, na cidade de Nápoles, considerada o berço da pizza. "Picea" indicava um disco de massa assada com ingredientes por cima. Servida com ingredientes baratos, por ambulantes, a receita objetivava "m***r a fome", principalmente a da parte mais pobre da população. Normalmente, a massa de pão recebia, como sua cobertura, toucinho, peixes fritos e queijo.
Filippo está com o bom ingrediente para receitas italianas nas mãos. É bastante simpático com os clientes nas vendas. Seu lindo sorriso passa uma tranquilidade e confiança ao cliente. Logo, viu seu estoque acabando e vendo seu dia de trabalho também estar chegando ao fim.
Saiu para respirar um pouco. Andou por algumas barracas, até chegar à de Anita. Ali estava ela, de cabelos soltos, olhar atencioso. Um belo trabalho exposto na barraca. A arte chamou a atenção de Filippo.
— Ciao! Quanto custa esta arte?
Anita abriu um belo sorriso antes de responder a ele.
— Ciao, ragazzo! Custa cinco.
Filippo pôs a mão sobre o bolso de sua bermuda de algodão na cor de pele. Ele usava uma camisa de manga longa na cor branca, também de algodão. Apanhou uma moeda de cinco liras italianas com o emblema de Napoleão.
— Aqui está.
— Grazie mille.
— De nada, bella ragazza.
Anita sorriu novamente. Ficaram se olhando platonicamente até serem interrompidos pela mãe dela.
— Anita, vem arrumar as caixas com as outras peças para repor.
— Ok, mãe. Já vou.
Olhou para Filippo novamente e acenou dando tchau. Ele sorriu para ela e voltou para a barraca.
"Que sorriso lindo! Que menina bela. Espero vê-la mais vezes por aqui".
Foi caminhando sorridente com uma pequena peça artesanal na mão. Era um pequeno barco. Filippo nunca navegou, mas, às vezes, passava por sua cabeça a ideia de desbravar mares. "Quem sabe um dia", assim pensava.
Ao chegar à barraca, sua mãe o viu com o objeto na mão direita.
— Que isso que tens na mão?
— É um pequeno barquinho de madeira. O comprei numa barraca ali na frente.
— Onde?
O pai dele apareceu no meio da conversa:
— Espero que não tenha sido com aquele povo antipático de Mantova. Sinceramente, não suporto aquela gente.
— Eu não os conheço e a garota é a primeira vez que a vejo aqui.
— Garoto esperto. Bambino, bambino. Já estás procurando uma ragazza? — Perguntou sua mãe, encarando-o. Falava séria, mas estava num tom descontraído.
Filippo ergue a mão esquerda levando-a à nuca, sorriu dizendo:
— No, não estou querendo isso por agora, mãe.
— Acho bom. Ainda tem que trabalhar bastante. Seu irmão ainda casa antes de ti por ser mais velho. Não te esqueças disso.
— Ok, mãe. Io capisco.