CAPÍTULO 16: UMA HERANÇA INESPERADA

795 Palavras
O mês de Junho chegou e o clima era de transição, com temperaturas amenas, dias quentes e noites frias e na lavoura de café o clima estava suave, prometendo mais um dia de trabalho árduo e recompensador. Pedro, com sua calma habitual, preparava-se para a "Panha de café". A economia apertava, mas ele estava tranquilo. Em vez de contratar ajuda, decidiu que faria o serviço sozinho. Era um homem de poucas palavras, mas de muita fibra, e o cheiro da terra e do café o preenchia de uma paz singular. Ele suava, mas o suor era de propósito, de suor de um homem que sabia que cada grão colhido era fruto de seu próprio esforço. Longe dali, nos arranha-céus cinzentos da cidade grande, Helena, aos 37 anos, enfrentava uma rotina de aço e metas ambiciosas. Gerente de loja, ela era a personificação da eficiência, com uma exigência que beirava a perfeição. Cada tarefa, um desafio. Cada problema, uma oportunidade de mostrar sua competência. Naquele exato momento, ela desdobrava-se para resolver um problema complexo com um cliente insatisfeito. Helena: "Senhor Rodrigues, eu compreendo perfeitamente sua frustração," Helena dizia, sua voz branda e firme, "mas, como lhe expliquei, a política de troca..." De repente, a porta de seu escritório se abriu, e uma figura formal, de terno escuro e pasta de couro, adentrou o ambiente. Helena franziu a testa, confusa. Visitas inesperadas não faziam parte de seu roteiro. Dr. Almeida : "Com licença, senhorita Helena? Meu nome é Dr. Almeida. Sou advogado." Helena piscou, um leve arrepio percorrendo sua espinha. Advogados raramente traziam boas notícias. Ela dispensou o cliente com um aceno, sentindo uma pontada de curiosidade e apreensão. Helena: "Sim, Dr. Almeida. Em que posso ajudá-lo?" Sr.Almeida: "Gostaria de falar com a senhorita sobre Dona Geralda." O nome ecoou na sala climatizada, atingindo Helena como um raio. Dona Geralda? Um nó se formou em sua garganta. Ela não tinha notícias de Dona Geralda havia anos, desde que seus pais, Sebastião e Rute, a levaram para a cidade grande. A memória da velha senhora, com o cheiro de café torrado e terra molhada, ainda era viva em seu coração. "Dona Geralda?", Helena murmurou, quase num sussurro. "Aconteceu alguma coisa?" O advogado tirou alguns papéis da pasta e se sentou, gesticulando para que Helena fizesse o mesmo. Dr.Almeida: "Sinto muito informar, senhorita Helena, mas Dona Geralda faleceu. E, com sua permissão, tenho uma notícia que pode ser um tanto... surpreendente." Helena sentiu um aperto no peito. O choque a paralisou por um instante. Dona Geralda... a mulher que a acolheu como filha quando ela era apenas uma menina. Aquela que a ensinou a amar a terra e a cuidar da lavoura, a adubar as plantas, a colher o milho e o feijão com Seu Antônio. Dona Geralda, que não podia ter filhos, e em Helena encontrou o afeto que preenchia o vazio. Lembrava-se das manhãs no cafezal, das tardes na cozinha, dos segredos contados ao pé do ouvido. Helena passava tanto tempo na fazenda que seus pais chegavam a sentir ciúmes. "O que... o que o senhor quer dizer?", a voz de Helena falhou. Dr.Almeida : "Dona Geralda, como a senhorita deve saber, não tinha herdeiros. Seu esposo, Seu Antônio, já era falecido. Não possuía filhos, nem outros parentes próximos. Ela deixou um testamento. E nesse testamento, ela a nomeou como a única beneficiária de todos os seus bens. Incluindo, se não me engano, uma fazenda de café no interior de Minas Gerais." Helena sentiu o mundo girar. Uma fazenda? Para ela, as palavras do advogado pareciam ecoar de um passado distante, de uma vida que ela havia deixado para trás. A fazenda de Dona Geralda, o lugar onde parte de sua alma de criança ainda vivia. Helena: "Uma fazenda... em Minas Gerais?", repetiu, tentando processar a informação. Dr.Almeida: "Isso mesmo. Ela fez questão de deixar tudo para a senhorita. Pelo que entendi, a relação de vocês era muito especial. Ela considerava a senhorita como uma filha." A lembrança vívida do dia da partida veio à tona. A tempestade. A lavoura de seus pais, Sebastião e Rute, destruída. A decisão de ir para a cidade grande, buscando uma nova vida e Dona Geralda acenando na varanda da fazenda, com os olhos derramando lágrimas, enquanto Helena olhava para trás, sentindo um buraco no peito. A saudade apertava desde então, e agora, a notícia do falecimento de Dona Geralda. "Eu... eu não sei o que dizer", Helena conseguiu balbuciar, as palavras presas na garganta. O choque era grande demais para ser absorvido de uma vez. A notícia era agridoce: A dor da perda de alguém tão importante em sua vida, e o peso inesperado de um legado que a puxava de volta às raízes que pensou ter abandonado para sempre.
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