Episódio 4

842 Palavras
Isso me irritou como um enxame de vespas selvagens, só que em sua fúria cega, elas atacaram não o agressor, mas a primeira pessoa que se virou para mim — eu. E sinto como se a raiva estivesse correndo pelas minhas veias, um concentrado tão brilhante e poderoso que poderia facilmente substituir o sangue. E então eu me tornarei um maldito herói de quadrinhos do m*al, sua id*iota. Kira dá um passo para trás, enxugando os olhos com a manga como uma garota com o nariz escorrendo. Ela não está chorando. Que bom. — Eu vim para o casamento. Eu sorrio m*aliciosamente. Ela se anima, piscando os cílios como uma Barbie desavisada, embora uma boneca de borracha seja mais se*xy do que essa coisa inútil, que só evoca dois desejos: alimentá-la e depois chutá-la para bem longe das nossas vidas. — O quê? Meu tio não te contou? Dima é um completo idi*ota. Ou não. Ele é um idi*ota, um cretino e um i*****l, porque eu o avisei com quem ele estava se envolvendo, e em vez de palavras de gratidão, ouvi ele dizer para eu não me intrometer na vida dele. E uma palestra moralista no seu estilo tedioso: está na hora de você amadurecer e aprender a perdoar. Espero, meu querido tio, que você aprecie como mandei sua sabedoria para o inf*erno. Porque o perdão é para aqueles que merecem uma segunda chance, não para garotas que vendem seu amor por dinheiro. — Você é sobrinho dele. Kira tenta manter a expressão séria, mas seu lábio inferior trêmulo a entrega. — Seria estranho se Dima convidasse sua mãe e não convidasse você. — Não é estranho, é estúp*ido e desprezível, e cheira a podridão e zombaria, porque casar com você debaixo de um cadáver é ridíc*ulo, mas convidar o irmão do homem que você matou para o seu casamento é cínico. Tenho quase certeza de que agora aquela boca feia vai se abrir e Kira vai despejar mais um monte de besteiras em cima de mim, tipo "A culpa não é minha!". Mas alguma coisa deve ter mudado nos últimos dois anos, já que ela nem está tentando se justificar. Ou será que minha raiva a afetou e seus instintos de autopreservação entraram em ação? — Você precisa mesmo estragar tudo, é? Essa mariposa pálida de repente ganha vida, seus olhos verdes brilhando como kryptonita. — Desenterrando o passado de novo? — Você achou que podia simplesmente relaxar e viver como uma rainha? — Pelo menos eu não me alimento do medo dos outros. Ela responde com um sorriso amargo. — Bem, você viu como foi fácil descobrirmos que eu não vou morrer de fome, porque terei um gerador perpétuo à minha disposição. Ela finalmente desaba: a comida visivelmente faz seus ombros caírem, embora ela esteja claramente tentando manter a cabeça erguida e a expressão impassível. Mas nós duas sabemos que nunca funcionou comigo, porque — como o destino quis — pareço ser a única imune à sua "magia de cordeiro inocente". Porque, depois da morte do meu irmão, sou a única testemunha viva do passado alegre dessa freira. Kira se vira e, lentamente, ainda tentando manter a dignidade, caminha em direção aos portões do cemitério. E, por algum motivo, eu observo, observo e observo, enquanto as suas omoplatas salientes quase rasgam o tecido fino da blusa. E em algum lugar lá fora, no zumbido da minha colmeia de vespas selvagens, um silêncio completo e sóbrio se instala. E eu caio de cabeça nas rochas afiadas do autodesprezo. Porque é ela quem me faz assim. Porque é aquela pu*ta da Kira... É nojento, mas é viável, e tenho certeza de que, assim que eu tocar o último acorde dessa marcha fúnebre, tudo se encaixará, sem precisar de terapia para controle da raiva ou outras baboseiras pseudocientíficas. Eu queria t*****r com a Kira. A Kira decidiu não se entregar completamente e se recusou a ser fo*dida, agarrando-se como uma sanguessuga a uma presa mais fácil. Então, uma vez que eu complete essa gestalt, não me incomodarei com suas tentativas de fingir inocência, nem com seus olhos de kriptonita, nem — que se dane tudo — com suas omoplatas magras projetando-se como barbatanas de peixe. Deus, ninguém nunca pensou em engordá-la pelo menos um pouco, ou isso faz parte da imagem dela de pobre garota que lutou a vida toda? Duvido que eu consiga uma ereção por essa paródia magra e seca de uma mulher madura, mas terei que tentar. Tentar. E mostrar ao meu querido tio o que sua futura esposa faz com seu único sobrinho. Logo no cartório, logo após o pomposo "Você concorda, Dmitry..." Então todos nós conversaremos sobre perdão e dar a outra face. No entanto, algo me diz que não haverá muitas pessoas dispostas a discutir essa situação embaraçosa. E Kira... Kira simplesmente recomeçará sua vida e procurará um novo emprego. Garotas de programa não se perdem na rotina árdua de lavar pratos. Mas essa será a história de outra pessoa, e o problema de outra pessoa.
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