####VISITA

670 Palavras
Depois do jantar silencioso com o meu avô, levantei-me da mesa com aquela mesma inquietação que havia me acompanhado o dia inteiro. — Era uma combinação estranha de preocupação, culpa e algo que eu ainda não conseguia decifrar. —Fui até a garagem, peguei o carro sem avisar ninguém e parti em direção ao hospital. — As luzes da cidade se refletiam no vidro do carro enquanto eu dirigia, e, por mais que tentasse, não consegui ignorar o peso que pressionava meu peito desde a manhã. Ao chegar ao hospital, estacionei no subsolo e segui para a recepção. O ambiente tinha aquele cheiro característico de desinfetante e tranquilidade forçada, típico de lugares onde vidas são salvas e perdidas diariamente. — A recepcionista levantou o rosto quando me aproximei do balcão. — Boa noite, senhor. Em que posso ajudar? Apoiei as mãos na madeira fria e perguntei, num tom mais baixo do que o habitual: — A paciente Faith Campbell. Gostaria de saber qual é o quarto em que ela está internada. A mulher consultou o sistema, digitando calmamente. — Quarto 614, senhor. — Depois fez uma pausa e acrescentou: — Hoje ela não está sozinha. A acompanhante dela, a irmã, vai dormir com ela esta noite. — A partir de amanhã a paciente ficará isolada para o preparo do transplante, e a acompanhante ficará em outro quarto, por recomendação médica. Agradeci com um aceno, mas aquelas palavras ficaram ecoando na minha cabeça enquanto eu caminhava até o elevador. — Vai ficar isolada, passar por isso sem ninguém ao lado. — Mesmo sabendo que era o protocolo, aquilo me incomodou mais do que eu esperava. Quando a porta do elevador abriu no sexto andar, o corredor estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes noturnas, criando sombras suaves nas paredes claras. —Caminhei devagar até a porta 614, o número metálico refletia o brilho amarelado da luminária. Empurrei a porta devagar, apenas o suficiente para enxergar o interior do quarto. E a cena me atingiu como um soco silencioso. As duas estavam deitadas na mesma cama — Hope abraçada à irmã como se fosse a única âncora que Faith tinha no mundo. — Os dedos delas estavam entrelaçados, como se medo e força passassem de uma para a outra por aquele simples toque. — Faith, tão frágil, respirava com dificuldade suave; Hope, exausta, tinha o rosto relaxado, mas úmido, como se tivesse chorado antes de dormir. — O cabelo dela caía em ondas sobre o travesseiro da irmã. Aquele gesto simples, quase infantil, tinha uma pureza que eu não lembrava de já ter visto na minha própria vida. Fiquei parado ali, observando-as em silêncio, sem coragem de interromper, sem coragem de entrar, sentindo uma pressão estranha subir pelo meu peito. — Era como se alguém tivesse colocado minha alma entre as mãos e apertado, lembrando-me de tudo que eu passei e de tudo que eu perdi. "O que vai acontecer com essas duas?" A pergunta se formou dentro de mim antes que eu pudesse impedir. Hope estava colocando a própria vida, o próprio corpo, em risco por aquela menina que nem sangue compartilhava com ela. — E ninguém cuidava de Hope. Ninguém velava o sono dela. Ninguém perguntava se ela estava com medo. E, naquele instante, uma certeza surgiu tão nítida quanto a respiração frágil das duas naquela cama. O que eu puder fazer, eu vou fazer. O que estiver ao meu alcance, eu vou mover. Eu vou salvar as duas. Eu vou protegê-las do jeito que eu não consegui proteger ninguém antes. A porta ainda entreaberta, minha mão ainda segurando a maçaneta, e minha vida inteira pareceu dar um pequeno desvio no trilho, quase imperceptível, mas irreversível. Fechei a porta devagar, sem fazer ruído, e fiquei alguns segundos parado no corredor vazio, olhando para o nada, tentando entender o que aquele gesto inocente — duas irmãs dormindo de mãos dadas — tinha despertado dentro de mim. Mas eu sabia. Sabia que algo tinha começado ali. E que não seria simples voltar atrás.
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