Depois do jantar silencioso com o meu avô, levantei-me da mesa com aquela mesma inquietação que havia me acompanhado o dia inteiro.
— Era uma combinação estranha de preocupação, culpa e algo que eu ainda não conseguia decifrar.
—Fui até a garagem, peguei o carro sem avisar ninguém e parti em direção ao hospital.
— As luzes da cidade se refletiam no vidro do carro enquanto eu dirigia, e, por mais que tentasse, não consegui ignorar o peso que pressionava meu peito desde a manhã.
Ao chegar ao hospital, estacionei no subsolo e segui para a recepção.
O ambiente tinha aquele cheiro característico de desinfetante e tranquilidade forçada, típico de lugares onde vidas são salvas e perdidas diariamente.
— A recepcionista levantou o rosto quando me aproximei do balcão.
— Boa noite, senhor. Em que posso ajudar?
Apoiei as mãos na madeira fria e perguntei, num tom mais baixo do que o habitual:
— A paciente Faith Campbell. Gostaria de saber qual é o quarto em que ela está internada.
A mulher consultou o sistema, digitando calmamente.
— Quarto 614, senhor. — Depois fez uma pausa e acrescentou: — Hoje ela não está sozinha. A acompanhante dela, a irmã, vai dormir com ela esta noite.
— A partir de amanhã a paciente ficará isolada para o preparo do transplante, e a acompanhante ficará em outro quarto, por recomendação médica.
Agradeci com um aceno, mas aquelas palavras ficaram ecoando na minha cabeça enquanto eu caminhava até o elevador.
— Vai ficar isolada, passar por isso sem ninguém ao lado.
— Mesmo sabendo que era o protocolo, aquilo me incomodou mais do que eu esperava.
Quando a porta do elevador abriu no sexto andar, o corredor estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes noturnas, criando sombras suaves nas paredes claras.
—Caminhei devagar até a porta 614, o número metálico refletia o brilho amarelado da luminária.
Empurrei a porta devagar, apenas o suficiente para enxergar o interior do quarto.
E a cena me atingiu como um soco silencioso.
As duas estavam deitadas na mesma cama — Hope abraçada à irmã como se fosse a única âncora que Faith tinha no mundo.
— Os dedos delas estavam entrelaçados, como se medo e força passassem de uma para a outra por aquele simples toque.
— Faith, tão frágil, respirava com dificuldade suave; Hope, exausta, tinha o rosto relaxado, mas úmido, como se tivesse chorado antes de dormir.
— O cabelo dela caía em ondas sobre o travesseiro da irmã. Aquele gesto simples, quase infantil, tinha uma pureza que eu não lembrava de já ter visto na minha própria vida.
Fiquei parado ali, observando-as em silêncio, sem coragem de interromper, sem coragem de entrar, sentindo uma pressão estranha subir pelo meu peito.
— Era como se alguém tivesse colocado minha alma entre as mãos e apertado, lembrando-me de tudo que eu passei e de tudo que eu perdi.
"O que vai acontecer com essas duas?"
A pergunta se formou dentro de mim antes que eu pudesse impedir. Hope estava colocando a própria vida, o próprio corpo, em risco por aquela menina que nem sangue compartilhava com ela.
— E ninguém cuidava de Hope. Ninguém velava o sono dela. Ninguém perguntava se ela estava com medo.
E, naquele instante, uma certeza surgiu tão nítida quanto a respiração frágil das duas naquela cama.
O que eu puder fazer, eu vou fazer. O que estiver ao meu alcance, eu vou mover. Eu vou salvar as duas. Eu vou protegê-las do jeito que eu não consegui proteger ninguém antes.
A porta ainda entreaberta, minha mão ainda segurando a maçaneta, e minha vida inteira pareceu dar um pequeno desvio no trilho, quase imperceptível, mas irreversível.
Fechei a porta devagar, sem fazer ruído, e fiquei alguns segundos parado no corredor vazio, olhando para o nada, tentando entender o que aquele gesto inocente — duas irmãs dormindo de mãos dadas — tinha despertado dentro de mim.
Mas eu sabia.
Sabia que algo tinha começado ali.
E que não seria simples voltar atrás.