####O CONTRATO DE CONFIDENCIALIDADE

808 Palavras
Anthony pegou o celular antes mesmo do advogado ter saído da sala. A mão tremia levemente — não de medo, mas pela adrenalina de quem percebe a necessidade de cortar rápido. Disparou um número e aguardou, o olhar preso no contrato sobre a mesa. Do outro lado da linha atendeu a voz calma e protocolar de Guilherme, chefe de Relações Públicas da holding. — Guilherme, sou eu. Preciso que você organize uma operação de contenção agora. — A voz de Anthony era curta, sem rodeios. — Antonella será desligada hoje. Quero que a comunicação esteja alinhada com o jurídico e com o RH. Nada de vazamentos. Entende? Houve um silêncio do outro lado enquanto Guilherme processava a urgência. — Entendo, senhor. Vou alertar o jurídico e o RH imediatamente. Tem alguma diretriz inicial, senhor? — perguntou ele, profissional. Anthony respirou fundo e foi direto ao ponto: — Prepare duas frentes. Uma, um comunicado interno para empregados, reduzido e neutro — “rescisão por acordo entre as partes” — não queremos escândalo entre funcionários. Dois, um plano de resposta caso ela vá à imprensa. Se ela alegar sedução ou escândalo, nós temos provas e testemunhas. Marque entrevistas com pessoas que possam confirmar que ela vinha se aproximando, que ela externou o interesse. O erro meu foi me envolver com uma funcionária casada — e isso, a empresa não pode suportar em termos de reputação — mas precisamos controlar o relato: o fato é que a relação era consensual e não houve crime corporativo. Do outro lado, a voz de Guilherme ganhou tom mais firme: — Perfeito. Vou montar o dossiê e checar as testemunhas. Vou avisar o jurídico para preparar a carta de rescisão e um acordo de confidencialidade com pagamento — algo que minimize a chance dela ir à imprensa. Se ela insistir, teremos de liberação parcial e cláusula de não divulgação. Mas precisamos de provas documentais, senhor — e de depoimentos formais. — Tem provas — respondeu Anthony, seco. — Mensagens, sinais, testemunhas. Marque tudo. Vá ao RH, redija a carta, e entregue a ela hoje, sem alarde. Se ela tentar exposição, lançamos a narrativa: “rescisão por mútuo acordo, compensação” — e apresentamos o dossiê que a desmente. E por fim, diga ao jurídico: eu não quero mais esse tipo de relação. Nunca mais se envolvam com funcionária casada — se for envolver-se novamente, que seja com uma mulher solteira e independente. Compreendeu? Guilherme fez uma breve pausa, assimilando o comando. — Compreendi, senhor. Vou agir agora. Vou também preparar um release para imprensa com opções — desde “nenhuma declaração” até um posicionamento sobre política interna. E vou coordenar com o departamento jurídico para providenciar a carta que o senhor quer que o RH entregue hoje mesmo. — Faça isso — disse Anthony, e interrompeu antes que Guilherme pedisse mais detalhes. — E mais uma coisa: envolva o Mark no processo. Quero que as cláusulas que negociamos com a moça estejam blindadas e que qualquer aditivo seja revisado por ele. Ele é quem protege a integridade do acordo. E avise ao jurídico que eu quero tudo documentado: notificações, entregas, testemunhos. Se ela abrir processo, quero que estejamos prontos. A voz de Guilherme soou tranquila, quase alivada pela eficiência da lista: — Enviarei uma equipe agora para redigir e levar a carta. Avisarei o RH para preparar o PIS, a rescisão e a compensação. Teremos também um plano de preservação de provas — mensagens, registros de horário, e-mails. Não se preocupe, senhor. Anthony desligou, apertou o telefone na mão como se segurasse um punho de aço, e ficou parado por alguns segundos. Não era uma escolha leve: demitir uma amante implicava em radar público, em risco de escândalo; mas deixá-la dentro dos corredores da empresa, ou pior, dentro de sua casa com Hope presente, era impensável. Na mesa ao lado, o advogado já terminava de compilar as alterações no contrato que Anthony pedira. Mark — ele sabia — seria acionado assim que a carta fosse lavrada. Era o único em quem Anthony, por ora, confiava para garantir que a moça que havia vindo salvar a própria irmã não fosse transformada em mercadoria de troca sem p******o. Do outro lado da cidade, Antonella não demoraria. Seus instintos iam agudos: sentiria a mudança no ar, os passos que sumiram, o sorriso que faltou. E ela reagiria. Mas Anthony já havia dado o primeiro passo: declarar guerra — preventiva — a qualquer possibilidade de perder controle sobre o que, afinal, agora lhe interessava mais do que a reputação: a segurança do acordo que assinara com Hope. Enquanto isso, o carro que levava Hope para o hospital seguia tranquilo, com Mark ao volante e a jovem num silêncio que não era só medo; era dever cumprido. E, dentro da mansão, o jogo começava a deslocar suas peças.
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