A suave luz da manhã filtrava-se pela varanda, dançando entre as cortinas de linho, enquanto o aroma envolvente do café ainda flutuava no ar, misturando-se delicadamente ao perfume das flores do jardim.
Hope movimentava-se com gestos sutis, recolhendo as xícaras da mesa e esforçando-se para ocultar a confusão deixada pelo olhar de Anthony antes que ele subisse para o banho.
O velho Vitale observava em silêncio, com as mãos repousadas sobre a bengala, sua expressão refletindo ternura e uma lucidez que o tempo não havia apagado.
— Minha filha — disse ele, quebrando o silêncio — tenha paciência com meu neto, pensa que pode me enganar, mas não pode, eu o conheço melhor do que ele imagina.
Hope hesitou ao preparar a bandeja sobre o aparador. — Senhor Vitale… não se preocupe comigo.
— Eu me preocuparei, sim — insistiu ele, com um tom firme, mas carinhoso.
— Anthony é um bom homem, mas ainda não compreendeu o verdadeiro significado de paz. Vive como se o passado o estivesse perseguindo.
Ela respirou fundo, evitando o olhar dele. — Não tenho que me preocupar com o que ele faz de sua vida, senhor. — afirmou, mantendo a voz calma, apesar da emoção contida.
— Meu único dever é cumprir o contrato.
O velho a fitou com curiosidade e respeito. Sem hesitar, ela continuou: — Anthony já cumpriu sua parte.
Ele salvou a vida da minha irmã, e agora é minha vez de cumprir a minha.
O que ele faz ou deixa de fazer não me diz respeito.
No contrato, pedi fidelidade, discrição e respeito. Quando ele se casar, espero que cumpra o que acordamos, apenas isso.
Fiz uma breve pausa e continuei, com os olhos marejados, mas sem deixar que minha voz tremesse: — Enquanto ele não se casar, pode fazer o que quiser, abertamente.
Mas depois do casamento, mesmo que por obrigação ou por um tempo determinado… só peço que, se ele continuar vivendo como antes, que o faça com discrição. Porque isso é humilhante, senhor Vitale.
Ela desviou o olhar, a pressão no peito aumentando, como se uma tempestade interna estivesse se formando, deixando-a vulnerável diante das verdades que nunca se atreveu a revelar.
— Nenhuma mulher gosta de ser humilhada, mesmo sabendo o que está fazendo.
O velho suspirou, com os olhos marejados, compreendendo o peso do fardo que pairava sobre os ombros dela.
— Você é uma moça admirável, Hope.
E por isso, me dói ver como a vida tem sido c***l com você.
— Pela minha irmã, eu faria qualquer coisa — respondeu ela com firmeza, a força de suas palavras ressoando como uma promessa antiga.
— Até engolir meu orgulho e silenciar minha dignidade.
— Dignidade é o que você tem em abundância, minha filha. — disse ele, com a voz embargada, cada sílaba impregnada de admiração e tristeza.
— O que falta é alguém que a reconheça.
Ela desviou o olhar para esconder a emoção, enquanto o velho Vitale acariciou seu braço com ternura, como se pudesse transferir um pouco de sua força e sabedoria.
— Mas há algo que preciso lhe dizer — ele prosseguiu, a gravidade de suas palavras tomando forma. — Meu bisneto vai crescer aqui, comigo.
Quando você e sua irmã estiverem prontas e o contrato terminar, não pense que levará a criança consigo.
Hope arregalou os olhos, surpresa e confusa, um turbilhão de sentimentos inundando-a. — Senhor Vitale…
— Ouça o que estou dizendo — interrompeu ele, firme, mas com o calor paternal que a acalmava.
— Você continuará morando aqui comigo. Quando seu casamento terminar, se desejar ir embora, pode ir.
Mas meu bisneto não. Quero vê-lo crescer, correr por este jardim e me chamar de “biso”.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios, como um raio de sol em um dia nublado, a oferta de Vitale ecoando em seu coração como uma doce esperança.
Hope se aproximou, ajoelhou-se diante dele e beijou sua mão em sinal de gratidão, reconhecendo a generosidade que poucos seriam capazes de oferecer.
— Homens como o senhor não existem mais.
O velho sorriu, passando a mão trêmula pela cabeça dela, reconhecendo a força delicada que ela representava em um mundo muitas vezes indiferente.
— E jovens como você e sua irmã… são raras hoje em dia, minha filha, muito raras.
Hope levantou o olhar e, por um breve instante, o velho Vitale percebeu nos olhos dela algo que não via há muito tempo: Faith aquela moça simples e discreta, marcada pela dor e pela coragem, começava, sem perceber, a devolver humanidade à casa dos Vitale.
E ele soube, naquele instante, que era ela — e não o dinheiro, nem o poder, nem a herança — que salvaria o nome da família.
— Esta responsabilidade pesa sobre você, minha filha — continuou ele, suas palavras como um eco do passado que ainda reverbera na sala iluminada.
— O contrato que assinaram não é apenas uma formalidade, mas uma promessa.
E eu vejo que você carregará esse peso com graça, mesmo quando a vida se tornar um fardo.
— Entendo o que diz, senhor, mas não sou inquebrantável — retrucou Hope, a vulnerabilidade exibida em seu rosto agora, um lampejo de uma luta interna.
— Às vezes, o que parece ser um ato de bravura é apenas uma máscara para a fragilidade.
Mesmo eu gostaria de ter a opção de correr, mas meu coração permanece aqui, preso a uma memória.
— E é essa fraqueza que te faz forte — afirmou o velho Vitale, seu olhar penetrando na alma dela. — Você transforma a dor em força, e o amor por sua irmã é uma força que poucos conseguem igualar.
Portanto, não duvide do seu poder de mudança, transformação e esperança.
— Seu apoio é minha âncora — Hope murmurou, sua voz suave, como se estivesse compartilhando um segredo.
— Mesmo sem saber, o senhor me dá esperança, e talvez eu ainda possa encontrar um caminho que não necessite de tantas concessões.
Assim, enquanto cumprir este contrato, também buscarei a minha voz e espaço nesse mundo confuso.
— E quando a sua voz se erguer, Hope, será um canto que ecoará através das gerações — concluiu o velho, um brilho nos olhos que denunciava o orgulho que sentia por aquela jovem que, mesmo em meio a desafios, estava se moldando para se tornar alguém extraordinário.