}}}}PESO DAS PALAVRAS

1347 Palavras
Anthony Nunca vi o meu avô se dirigir a alguém daquela forma. Rorô sempre foi um homem de ferro — cortês, mas reservado, um general cansado de guerras invisíveis. Mesmo nos jantares de família, quando todos tentavam arrancar um sorriso dele, o máximo que conseguíamos era um aceno lento, como se ele medisse o valor de cada gesto. Mas hoje, diante daquela moça de olhar sereno e mãos frágeis, ele parecia um homem transformado. Por um instante, a doença que o consumia recuou, em seu lugar, vi um brilho que há anos não testemunhava — um lampejo de esperança. “Um coração puro faz sacrifícios por amor, e o céu costuma recompensar.” Essas palavras ficaram gravadas em mim como ferro quente. Coração bondoso, Fé e Amor, três palavras que o tempo havia arrancado do meu vocabulário, como páginas rasgadas de um livro que eu nunca mais quis abrir. Por que me afetou tanto? O modo como ele a chamou de filha me incomodou como uma farpa sob a pele? Deveria me sentir satisfeito, por vovô ter gostado dela — e significa que o plano está funcionando, estou fazendo o que ele deseja, me casar dar o bisneto que ele tanto exige, vou preservar o sobrenome Vitale e cumprir o testamento como manda a tradição. O peso dos anos e das expectativas familiares se acumulava em meus ombros como uma corcova indesejada, e a contagem regressiva de trinta dias se tornava não apenas um prazo, mas um fardo profundamente enraizado nas tradições do clã. Trinta dias e tudo estará resolvido: contrato assinado, obrigações cumpridas, herança preservada como um relicário de promessas antigas. E, ainda assim, algo dentro de mim se agita — algo que eu julgava morto. Um incômodo discreto, uma rachadura no gelo, não se trata de desejo, tampouco de curiosidade. É uma estranha sensação de espelho: ao olhar para Hope, vejo uma parte de mim que enterrei há muito tempo, num passado que discretamente se esvai. Ela fala com calma, mas há uma firmeza nas entrelinhas que desafia a minha pragmática concepção de vida. Obedece, mas não se dobra. Agradece, mas sem submissão, acima de tudo, acredita, nas pessoas e em Deus. Acredita em promessas que pareciam tão distantes para mim, como estrelas apagadas no céu de uma noite sem lua. Eu já acreditei, um dia, antes de o mundo me mostrar o preço de acreditar, antes de perder meus pais, que nem sei wuem são, compreender que amor, às vezes, é a forma mais bonita que a dor encontra para enganar a gente. Aprendi a me proteger com o silêncio, a substituir fé por controle, afeto por estratégia. E funcionou, até agora, quando o imutável se torna fluido e as certezas se desfazem como neblina ao amanhecer. Ela pensa que está cumprindo um contrato. Mas, sem saber, é ela quem me está testando — não com palavras, mas com a própria existência. E eu, que sempre conduzi tudo com precisão cirúrgica, começo a sentir o chão ceder sob meus pés, como se as fundações de uma vida que um dia considerei sólida estivessem se transformando em areia movediça. Mais tarde, ao deixar o escritório, o corredor me pareceu maior do que de costume. O relógio da parede marcava onze e quarenta e cinco, e cada segundo soava como um lembrete de que o tempo não para nem por arrependimento. As luzes suaves lançavam sombras alongadas pelos degraus. Foi quando a vi. Hope estava no jardim. O luar a envolvia com uma luz pálida e calma, quase sagrada. Os cabelos, soltos, dançavam com o vento. Ela olhava para o céu — ou talvez para dentro de si —, e seus lábios se moviam num murmúrio que eu não compreendia, mas que o coração, de alguma forma, reconheceu. Por um instante, tive a sensação de que o mundo inteiro havia parado para ouvi-la. E também parei, havia leveza naquela mulher em meio à dor. Ela carregava o peso de uma irmã doente, de um contrato que a prende, de um futuro incerto — e ainda assim, parecia em paz. Essa serenidade me incomoda, pois talvez, por eu nunca tê-la conhecido em toda a sua plenitude, a falta disso ecoa como um vazio no meu âmago. Aproximar-me dela parecia, de certo modo, desafiar as regras que sempre impus à minha vida, que é essa sensação de vulnerabilidade? Quando finalmente cruzei o jardim até ela, a noite parecia mais intensa, como se todos os sentidos se concentrassem naquele momento, revelando nuances que antes me escapavam, como a luz de uma lembrança há muito esquecida. Ela se virou, surpresa, mas não assustada. Nossos olhares se cruzaram, e algo em mim vacilou. Não era apenas atração ou curiosidade. Era algo mais primitivo, mais antigo. Como se a alma lembrasse de algo que a mente insiste em negar, um eco de um tempo em que eu acreditava no amor incondicional. — Aconteceu alguma coisa? — perguntei, tentando soar neutro, mas minhas palavras carregavam um peso que eu gostaria de evitar. Ela balançou a cabeça. — Não, “Senhor.” Essa palavra me soou como um abismo entre nós, um abismo que eu mesmo construí com a armadura do cinismo. Não quero ser senhor de ninguém, mas também não quero me ver vulnerável. — Se nós vamos nos casar — disse, e a voz saiu mais firme do que eu pretendia —, ainda que por contrato, precisa se acostumar a me chamar de Anthony. Uma pequena mudança, mas que pareceu carregar o peso de toda uma nova realidade. Ela hesitou por um segundo. — Sim, senhor Anthony. Ela levantou o olhar, e o nome saiu em tom baixo, mas pleno: — Sim, Anthony, a forma como pronunciou… havia algo quase musical, um som que ressoava na profundidade do meu ser. Sem insolência, sem medo — apenas respeito. E ainda assim, me atravessou de um jeito que não entendo, como se suas palavras carregassem uma promessa antiga. Respirei fundo, tentando retomar o controle que começava a escorregar entre meus dedos. — Amanhã você se levantará cedo. Levaremos sua irmã ao hospital, depois iremos à clínica. O cronograma deve ser seguido à risca, como uma liturgia que não pode ser ignorada. — Entendido. — Nosso casamento será em trinta dias. — Estarei pronta, — respondeu, com aquela serenidade que mais parece uma oração, um mantra que ela repetia para si mesma para não se perder em meio à tormenta. Fiquei em silêncio por um instante, absorvendo o peso das palavras trocadas, como se cada uma delas fosse uma pedra adicionada à construção dessa nova realidade. — Boa noite, Hope. — Boa noite, Anthony, e naquele simples cumprimento, houve algo que nenhuma cláusula contratual poderia explicar. As palavras ficaram suspensas no ar mesmo depois que ela subiu as escadas. E a casa, tão grande e silenciosa, pareceu ouvir comigo, como se as paredes estivessem atentas ao que estava nascendo entre nós, algo que poderia se transformar em um caminho a ser explorado, uma bifurcação no destino que nunca esperei encontrar. Deitei-me, mas o sono não veio o teto do quarto se transformou em espelho das minhas lembranças. O som da voz do meu avô ecoou: “Corações bondosos mudam o destino, mesmo quando o destino já foi escrito.” Fechei os olhos. Tentei me convencer de que tudo era apenas cansaço. Mas a verdade é que há algo se movendo dentro de mim Hope, a mulher que veio por necessidade, não por amor. Mas que, sem perceber, está abrindo frestas nas muralhas que levei uma vida inteira para erguer. Como uma brisa delicada que, aos poucos, desgasta as camadas de uma rocha aparentemente intransigente. E quando o silêncio finalmente me venceu, percebi o medo mais antigo que existe em um homem: não o de perder o controle, mas o de voltar a sentir. Como um mergulho em águas desconhecidas, cada pensamento sobre ela faz a superfície do meu ser tremer, ameaçando me afundar em emoções que eu já acreditava ter enterrado, mas que podem muito bem ser a chave para uma nova vida.
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