Anthony
O relógio marcava nove horas quando entrei na empresa.
O ar-condicionado sussurrava pelos corredores, e o som dos saltos apressados das secretárias misturava-se ao tilintar dos telefones.
Tudo estava como sempre — previsível, organizado, sem falhas.
Mas, por alguma razão, nada parecia no lugar.
Cumprimentei dois gerentes, respondi mecanicamente às saudações e segui direto para minha sala.
Fechei a porta, joguei o paletó sobre o encosto da poltrona e fiquei alguns segundos parado, observando a vista de Filadélfia.
O céu estava cinzento, a cidade se movia frenética lá fora, e eu me sentia imóvel, deslocado dentro da minha própria rotina.
Sentei-me, encostando as costas na poltrona, e encarei os relatórios sobre a mesa.
As letras embaralhavam-se, os números não faziam mais sentido.
O mundo inteiro parecia distante, como se eu o observasse debaixo d’água.
O que estou fazendo?
A pergunta surgiu antes mesmo de eu me dar conta.
Era uma daquelas questões que o cérebro tenta evitar porque o coração já sabe a resposta.
Passei as mãos no rosto, tentando afastar o cansaço.
O gosto amargo do uísque da noite anterior ainda me vinha à boca, junto com a lembrança de Isabella — o perfume forte, o riso fácil, o corpo quente.
Mas nada daquilo me preenchia mais.
O prazer físico, que antes bastava, agora parecia um disfarce malfeito para algo que eu nem sabia nomear.
Antes, eu não me incomodava.
Antes, eu apenas vivia o instante e o deixava morrer na madrugada seguinte.
Mas agora havia algo diferente.
Algo dentro de mim estava mudando.
Suspirei e encostei o cotovelo na mesa, apoiando a testa sobre a mão.
O reflexo no vidro da janela me devolveu um rosto que eu quase não reconhecia — o de um homem exausto de vencer.
Ver o vovô sendo cuidado pela Hope…
Aquela imagem me vinha à cabeça desde cedo.
Ela, com aquele jeito sereno, a voz baixa, o olhar atento.
Ela não precisava cuidar de ninguém.
Não devia nada à nossa família.
Mas lá estava, todas as manhãs, servindo o café ao meu avô como se aquilo fosse o dever mais nobre do mundo.
Ela não estava ali por ambição — e talvez fosse isso o que mais me incomodava.
Ela não fingia, não bajulava, não temia.
Era uma mulher que aceitara o acordo, sim, mas que o vivia com dignidade, como se a bondade ainda fosse uma escolha possível.
Peguei a caneta e comecei a bater o corpo dela contra a mesa, em um ritmo lento, irritante.
Eu tentava me convencer de que aquilo não me dizia respeito.
Essa é a minha vida, pensei.
Ela vai me dar o filho, vai ter o dinheiro, a irmã dela vai fazer a cirurgia, e tudo estará resolvido.
Mas a voz que saiu dentro de mim soou estranha — quase um sussurro de dúvida.
Levantei-me e caminhei até a janela.
Lá fora, o trânsito avançava como um rio de aço.
As pessoas pareciam saber para onde iam, enquanto eu, cercado por tudo o que sempre quis, começava a me perguntar o que realmente restava.
Toquei o vidro frio e pensei no meu avô.
Pensei no olhar dele quando falou sobre “corações bondosos que mudam o destino”.
Na hora, achei apenas poesia de velho.
Mas agora aquelas palavras ecoavam como um lembrete.
O que aconteceu comigo para que a frieza se tornasse a única maneira de existir?
A resposta veio devagar, como uma lâmina:
Medo.
O medo de amar, de perder, de sentir.
Eu havia enterrado tudo isso com meus pais.
E, de alguma forma, Hope — com aquele sorriso simples e fé absurda — estava cavando tudo de volta.
Bati na mesa, irritado comigo mesmo.
Eu não podia permitir aquilo.
Não agora, não quando tudo estava em jogo.
Não depois de tantos anos controlando cada passo, cada emoção.
Ela é apenas uma mulher que fez um acordo comigo.
Ela vai gerar o herdeiro, a irmã dela será salva, e todos sairemos ganhando.
Simples.
Lógico.
Racional.
Mas, ainda assim, o pensamento não trazia paz.
Fechei os olhos por um instante e a vi — no jardim, ajoelhada ao lado do meu avô, lendo para ele um trecho de algum livro que ela gostava.
O som da voz dela era baixo, sereno, como o som de chuva leve batendo no telhado.
Meu avô ria, e o rosto dele parecia mais vivo do que nos últimos meses.
E eu, o neto que sempre tentou cuidar de tudo, que movia o mundo para garantir o bem-estar dele, percebi que uma simples mulher estava conseguindo o que eu não pude.
Afastei o pensamento.
Peguei o celular e abri a agenda.
Reunião com o departamento financeiro, 10h.
Conferência com os acionistas, 14h.
Clínica, 16h.
E, ainda assim, o tempo parecia não andar.
O interfone tocou.
— Senhor Vitale? — era a secretária. — O senhor tem uma ligação do hospital.
Meu corpo enrijeceu.
— Coloque na linha.
— Senhor Vitale? — a voz era do médico responsável pelo caso de Faith. — Estou ligando apenas para informar que iniciamos o tratamento intravenoso. Sua noiva passou a noite acompanhando a irmã e reagiu muito bem ao protocolo.
Fechei os olhos por um momento.
— Agradeço a informação, doutor. — Minha voz soou mais baixa do que o normal. — Diga a ela que eu passarei no hospital mais tarde.
— Claro, senhor Vitale.
Desliguei e fiquei em silêncio.
Passar no hospital.
Por quê?
Não havia necessidade — eu já tinha enviado o motorista, o plano estava sendo seguido à risca.
Mas havia uma inquietação, uma curiosidade silenciosa, quase infantil, de vê-la de novo.
Olhei o relógio. Dez e quinze.
Tinha tempo.
Peguei o paletó, respirei fundo e desci até a garagem.
O trajeto até o hospital foi curto.
No caminho, minha mente girava em círculos, buscando justificativas.
É apenas uma visita técnica, eu dizia a mim mesmo. Preciso garantir que tudo esteja correndo conforme o contrato.
Mas, no fundo, eu sabia que não era isso.
Era outra coisa.
Algo que me assustava.
Quando cheguei, vi-a de costas, sentada ao lado da irmã.
Hope segurava a mão de Faith e lia em voz baixa um trecho de um livro antigo.
Os olhos da menina estavam fechados, o rosto pálido, mas tranquilo.
Ela falava sobre promessas, sobre fé e recomeço.
E, por um momento, esqueci quem eu era.
Ela olhou para o lado e me viu.
Sorriu, discreta, respeitosa.
— Senhor Anthony.
— Como ela está? — perguntei, aproximando-me.
— Reagindo bem — respondeu. — O médico acredita que ela pode estar pronta para o procedimento em menos de dez dias.
Assenti, observando-a.
Os cabelos presos, o rosto cansado, mas com aquele brilho estranho nos olhos.
Ela parecia uma mulher que carrega o mundo, mas ainda sorri para o céu.
— O senhor veio ver minha irmã?
— Vim ver as duas — respondi, sem pensar.
Ela abaixou o olhar e sorriu de leve.
— Ela ficará feliz em saber.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Eu deveria ter ido embora, mas fiquei ali, observando-a cuidar da irmã com uma delicadeza que me desconcertava.
Quando finalmente me despedi e deixei o quarto, senti algo apertar o peito.
Era como se o ar tivesse ficado mais pesado, e eu soubesse — ainda que não quisesse admitir — que estava começando a cair.
Voltei ao carro e fiquei parado por um tempo, com as mãos no volante.
Ela vai me dar o filho, vai ter o dinheiro, a irmã dela vai ter a cirurgia.
Repeti as palavras como quem tenta se segurar em algo firme.
Mas, dentro de mim, já sabia.
Nenhuma dessas frases soava verdadeira.
Não mais.