Na manhã seguinte ao diagnóstico, o mundo parecia mais pesado. A luz que entrava pela janela da kitnet era pálida, como se também ela tivesse vontade de poupar as meninas do frio que vinha de dentro da casa. Hope levantou antes do alarme, pegou o envelope com os exames e vestiu o uniforme da lanchonete como quem coloca uma armadura. Faith estava sentada na cadeira da cozinha, o rosto de porcelana, as mãos cruzadas sobre o colo. Quando Hope se aproximou, a irmã tentou sorrir, mas o sorriso ruiu antes mesmo de aparecer.
— Eu vou — Hope disse, sem rodeios —. Vou levar os exames agora e falar com a gerente. Eles têm que entender que a gente precisa de um tempo. Eles têm que entender que a Feiti não está bem.
Faith estremeceu, segurou a mão dela como se fosse um último pedaço de certeza.
— Não me deixe sozinha, Hope.
— Nunca. — Hope beijou a testa da irmã. — Vou resolver. Eu volto com respostas.
O caminho até o shopping foi um pequeno inferno de passos apressados e pensamentos que se atropelavam. Hope segurou o envelope tão firme que as pontas dos dedos doeram. Quando empurrou a porta da lanchonete, o cheiro do café e da gordura quente a recebeu como sempre: familiar, rotina. Alguns clientes já conversavam, a equipe trocava piadas amargas pela manhã. A rotina, por um momento, sorriu para ela. Mas lá no fundo do balcão, havia um vazio que nenhum pedido poderia preencher.
Senhora Mirtes, a gerente, era uma mulher de olhar seco porém prático. Conhecia as duas desde quando chegaram: jovens esforçadas, honestas, corretas — e já queridas pelos fregueses. Ao vê-la, Hope sentiu o calor da esperança que os olhos de Mirtes traziam, e logo teve que apagar o calor com um engano de coragem.
— Senhora Mirtes — começou ela, a voz firme pela necessidade —, a Feiti está doente. Ela desmaiou ontem e os exames… O médico disse que precisa de cirurgia. Eu vou ter que assumir mais turnos. Posso trabalhar no horário dela também? Dois turnos. Eu consigo. Por favor.
Mirtes ajeitou os óculos, pegou os exames com uma mão rápida, leu por cima e interrompeu com um suspiro profundo. Não era de desdém — era compaixão mordida pela realidade.
— Você tem certeza de que aguenta, menina? — perguntou, baixa, quase confidencial. — Dois turnos não é brincadeira. É conseguir trabalho das sete da manhã até fechar à noite. Vai sobrar pouco pra comer e nada pra dormir. E se você adoecer?
Hope sentiu as palavras baterem como pedras, mas derrubou cada uma com uma certeza que vinha de um lugar que só quem ama conhece.
— Eu preciso aguentar — respondeu. — Porque se eu não aguentar, quem vai cuidar da Feiti? Nós não temos ninguém, Senhora Mirtes. Só temos a irmã Teresa e ela está ajudando como pode. Mas eu... eu não tenho mais ninguém. Se não for eu, quem será? A Feiti é tudo o que eu tenho. Eu não posso perdê-la.
O rosto de Mirtes amoleceu por um instante. Ela olhou para as duas jovens que, sempre, viravam a vida inteira com as mãos que recebiam e davam. Mirtes lembrava dos dias em que as havia treinado a carregar bandejas, lembrar dos pedidos, sorrir para clientes rudes. Lembrou de como Hope, sempre a mais prática, consertava calças rasgadas e limpava lágrimas por baixo do balcão. Lembrou de Faith, derramando ternura nas crianças que passavam.
— Você promete que vai se cuidar? — ela perguntou finalmente. — Porque a verdade é que eu preferia perder um funcionário do que uma dessas meninas. Se você cair, quem vai socorrer a outra? Promete que vai comer, que descansará quando for possível?
Hope respirou, a promessa saltando da garganta como juramento.
— Eu prometo, Senhora Mirtes. Eu prometo.
Mirtes assentiu, com a promessa pesada em seus olhos. — Tá bem. Vou abrir a vaga no turno da tarde para outra pessoa, mas se quiser, você pode pegar. Só que me prometa uma coisa a mais: avise a irmã Teresa. Ela precisa saber de tudo. Se precisarem, a casa pode ajudar com o que for possível.
Hope sentiu um alívio que doeu. — Eu vou avisar a irmã Teresa agora mesmo — disse.
Antes de sair, Mirtes puxou-a para perto, em um gesto pequeno, quase uma avó escondida. Chegou perto do ouvido dela e murmurou:
— Menina, rezarei por vocês. Às vezes, o milagre vem no tempo errado, mas vem. Segure a sua fé.
Hope saiu de lá com os passos mais leves que havia dado nas últimas horas. No caminho para a casa da irmã Teresa, segurou o envelope contra o peito. Pensou na caixa metálica onde guardavam cada moeda, cada gorjeta, o sonho da faculdade que agora servia de garantia para exames e esperanças.
A casa de irmã Teresa ficava numa rua curta, bem arrumada, com vasos de plantas que a freira cuidava com delicadeza. Ao chegar, bateu, e a irmã atendeu com o hábito limpo, o olhar exausto de quem passara a noite rezando. Ao ver o rosto de Hope, Teresa abriu os braços.
— Minha filha — disse ela, sinceramente emocionada. — O que aconteceu?
Hope não conseguiu falar de imediato. As palavras vinham grossas na garganta. Finalmente, as expeliu.
— A Feiti tem câncer — disse. — Eles disseram que precisa de cirurgia e tratamento. Eu falei com Senhora Mirtes. Vou pegar o turno dela também. Vamos dar um jeito.
Irmã Teresa segurou as mãos de Hope como se quisesse transferir força. — Menina, vocês não estão sozinhas. Eu falei com as outras irmãs. Conseguimos um pouco de dinheiro e um contato no hospital que conhece casos assim. Mas, Hope... ouviu-se tristeza na voz da freira — Há muito a fazer. Talvez, se Deus quiser, e nós nos unirmos, a gente consiga.
Hope sentou-se, exausta, e deixou que a freira falasse. Falar com Teresa era como reorganizar peças soltas do coração. A freira falou com calma, deu instruções, fez uma prece curta e serena. E, então, como se fosse algo simples e natural, entregou um pequeno envelope.
— As irmãs juntaram isso. Não é muito, mas pode ajudar a pagar as primeiras coisas. E o hospital prometeu nos ouvir. Vá, minha filha, e use essa força que tem aí dentro. Você tem fé — disse Teresa, com os olhos brilhando.
Hope sentiu as lágrimas aparecerem, não de fraqueza, mas de gratidão. Pegou o envelope com cuidado como quem segura a vida num pequeno pacote. Beijou a mão de Teresa e prometeu retornar.
Voltando para a kitnet, Hope pensou na pilha de pratos sujos que a esperava, nas bandejas que teria que levar, nos clientes apressados e nas filas que teria que enfrentar. Pensou também no rosto de Faith, pálido e assustado, no medo que chamuscava sua voz.
Ao chegar, salvou um instante para sentar ao lado de Faith. As horas até o primeiro turno passaram como se fossem minutos e séculos ao mesmo tempo. Hope comeu pouco, apenas o necessário, mas comeu. Dormiu por curtos períodos na hora do intervalo, encostada no balcão, os olhos ardem pelo cansaço. Quando o expediente terminou, ela limpou o rosto com as costas da mão e já estava pronta para voltar ao trabalho.
Naquele dia, serviu nos dois turnos: manhã e noite, correndo como uma força que parecia feita de vontade e medo. Quando entregava um copo de café, lembrava da promessa que fizera: vender a alma se preciso fosse, para salvar a irmã. Mas, dentro dela, algo maior do que culpa crescia — um orgulho mudo de cuidar de quem amava.
Ao final da segunda jornada, exausta, voltou para a kitnet com as mãos doloridas, mas com a caixinha um pouco mais cheia. Faith a esperava com uma tigela de sopa morna que m*l podia cobrir a fome do corpo e a sede do coração. Aquelas pequenas coisas — a sopa, a presença, o olhar — fizeram a noite parecer suportável.
Antes de dormirem, Hope sentou-se à beira da cama estreita, olhou para Faith e, com voz firme, disse:
— Eu prometi que vou lutar por você. Amanhã eu volto cedo. Vamos falar com o hospital, vamos ver os médicos. A irmã Teresa disse que nos ajudará. Nós não perdemos a fé.
Faith pousou a cabeça no ombro dela e murmurou:
— Eu tenho você.
— Sempre — respondeu Hope.
A promessa soou no quarto como uma oração. E naquela noite, por entre os ruídos da cidade, Hope dormiu por poucos minutos, enlaçada na coragem que a mantinha de pé. Dois turnos, uma caixinha, uma freira e uma promessa: era tudo o que, naquele momento, o mundo permitia. E ela não cabia em outra decisão que não fosse cumprir o seu voto — porque amar, para Hope, era um pacto que não admitia renúncia.