Em um luxuoso escritório, com vista para as luzes vibrantes da cidade, Victor encarava a tela do computador com um olhar frio e calculista. Seus dedos tamborilavam na mesa de vidro enquanto analisava os números diante dele.
Algo estava errado.
Ele puxou a cadeira para trás e se levantou, os olhos sombrios fixos na tela. Uma quantia absurda de dinheiro havia desaparecido de suas contas. Transferências inesperadas, movimentações que não deveriam existir.
— Isso não é um erro… — murmurou para si mesmo, caminhando até um bar de vidro no canto da sala e servindo uma dose de uísque. — Isso é um ataque.
Pegou o celular e discou um número.
— Quero um relatório completo agora. — Sua voz era cortante. — Todas as transações dos últimos dias, quem teve acesso, qualquer rastro.
— Senhor… — A voz do outro lado hesitou. — Encontramos algo.
Victor apertou o copo em sua mão. — Fale.
— Um dos contatos antigos de Rafael fez movimentações incomuns…** É como se ele estivesse vivo.**
O silêncio caiu como uma lâmina.
Os olhos de Victor se estreitaram, sua mandíbula travou. Rafael estava morto. Ou pelo menos, era isso que deveria ter acontecido.
Se ele estava vivo, então aquilo era uma traição.
Victor se aproximou da janela, observando as luzes da cidade. Ele nunca foi homem de esperar os inimigos virem até ele.
— Reúnam os homens. — Sua voz saiu mortal. — Se ele estiver vivo, vamos garantir que não esteja por muito tempo.
Victor desligou o telefone e girou o copo de uísque entre os dedos. Se Rafael estava vivo, isso significava que havia uma peça fora do lugar.
Ele nunca subestimava seus inimigos, mas também nunca os superestimava. Se Rafael tinha voltado dos mortos, não estava sozinho.
O problema era descobrir quem mais estava envolvido nessa traição.
Pegou outro telefone — um número que poucas pessoas tinham — e discou.
— Descubra onde Rafael está se escondendo. Verifique os lugares que ele poderia procurar refúgio. Se ele estiver tramando algo, não estará sozinho.
— Sim, senhor.
A chamada foi encerrada.
Victor se virou para um dos seus homens de confiança, um sujeito baixo, de feições duras e olhar afiado.
— Eu quero que nossos contatos investiguem qualquer movimentação incomum na cidade. Algo grande está para acontecer, e eu quero estar dois passos à frente.
O homem assentiu e saiu sem dizer uma palavra.
Victor tomou um gole de uísque, sentindo o líquido arder em sua garganta.
Rafael, Rafael… Você não devia ter voltado.
Se o jogo estava começando, ele iria ditar as regras.
A noite pairava sobre a cidade como um véu denso. Do alto de sua cobertura, Victor observava as luzes piscando nos prédios, mas sua mente estava em outro lugar.
O telefone vibrou.
— Senhor, encontramos algo. — A voz do outro lado soava tensa. — Uma movimentação suspeita em um galpão abandonado no setor industrial. Acreditamos que Rafael pode estar lá.
Victor estreitou os olhos. — Eles estão armados?
— Não sabemos quantos, mas há movimentação recente. Pode ser uma armadilha.
Ele riu baixinho. Claro que poderia ser uma armadilha. Mas não era isso que o impedia de agir. Ele precisava de informações, precisava saber quem estava com Rafael e qual era o objetivo final.
— Prepare os homens. Vamos fazer uma visita.
Desligou o telefone e virou-se para o espelho, ajeitando a gravata. Se Rafael queria jogar, ele jogaria. Mas dessa vez, ele não daria espaço para falhas.
Pegou seu casaco e saiu do escritório, pronto para acabar com qualquer ameaça antes que ela crescesse...
Enquanto isso no galpão
Helena ajustou a mochila nas costas e olhou para Rafael. — Tudo pronto?
Rafael assentiu, os olhos escuros analisando o espaço ao redor. — Sim. O tempo está correndo contra nós.
Elaine, de pé ao lado de Gabriel, segurava um pequeno dispositivo na mão. Um detonador.
O plano estava traçado. Os documentos estavam protegidos, os próximos passos definidos, e agora, não poderiam deixar rastros.
Gabriel olhou para as pequenas cargas explosivas posicionadas nos pilares do galpão. Era necessário. Se Victor ou qualquer outro chegasse ali, tudo o que encontrariam seriam cinzas e concreto queimado.
— Vamos sair daqui. — Helena ordenou, dando um último olhar ao local onde haviam planejado sua vingança.
O grupo caminhou para a saída, mantendo a compostura, mas os corações acelerados. Assim que alcançaram uma distância segura, Elaine parou, respirou fundo e apertou o botão.
BOOM!
O galpão explodiu em uma nuvem de fogo e fumaça. Pedaços de metal retorcido foram lançados ao ar, o vidro das janelas se estilhaçou com o impacto. O esconderijo que tinham usado até agora estava destruído.
Helena observou as chamas iluminando o céu noturno e apertou os punhos. Nada mais os ligava àquele lugar. Agora, só restava seguir com o plano e acabar com Victor antes que ele acabasse com eles.
Eles entraram no carro e desapareceram na escuridão...
O carro preto de Victor deslizou pelas ruas escuras, parando a uma distância segura das ruínas fumegantes do galpão.
Ele desceu devagar, os sapatos de couro fazendo um leve ruído contra o asfalto. Seu olhar afiado analisava os destroços, tentando captar qualquer detalhe que pudesse ser útil.
Mas tudo o que encontrou foram restos carbonizados.
E um grupo de sem-teto reunido ao redor de pequenas fogueiras improvisadas.
Victor franziu a testa. — O que é isso?
Um de seus homens se aproximou e deu um passo à frente. — Quando chegamos, já estavam aqui. Parece que usam o local para se aquecer.
Victor caminhou até eles. O fogo iluminava rostos magros e olhares cansados. Eles não pareciam saber de nada.
Ele rangeu os dentes.
— Droga... — murmurou, enfiando as mãos nos bolsos do casaco.
Era um beco sem saída.
A pista sobre Rafael era falsa.
Ou pior: era real, mas ele havia chegado tarde demais.
Com um suspiro pesado, deu meia-volta e voltou para o carro. Se Rafael estava vivo, ele não se deixaria encontrar tão facilmente.
Mas Victor ainda tinha outra pista para seguir…
O dinheiro desaparecido.
E isso, ele sabia rastrear.
— Vamos continuar investigando. Quero saber para onde foi cada centavo daquele dinheiro. E quero isso ontem.
Os motores rugiram, e os carros desapareceram noite adentro.
A estrada se estendia diante do trio como um corredor escuro e silencioso. O cheiro de fumaça do galpão ainda impregnava as roupas deles, um lembrete do risco que corriam.
Rafael dirigia, os olhos fixos no retrovisor. Ele queria ter certeza de que ninguém os seguia.
— Acho que conseguimos despistá-lo. — Ele disse, soltando um suspiro tenso.
Gabriel não parecia tão confiante.
— Victor não é burro. Ele pode ter desistido do galpão, mas ainda está na caça. Ele quer aquele dinheiro. E se encontrar um fio solto, ele puxa até destruir tudo.
Helena, sentada no banco de trás com Elaine, fechou os olhos por um momento, como se tentasse organizar seus pensamentos.
— Então temos que agir antes dele.
Elaine se mexeu, encostando a cabeça no ombro de Helena.
— E se dermos um tempo? Deixamos ele correr atrás da trilha errada. Pode ser nossa chance de descansar antes da última jogada.
Gabriel olhou para Rafael. — Algum lugar seguro para nos escondermos?
Rafael sorriu de canto. — Conheço um. Um velho depósito fora da cidade. Pouco movimentado, ninguém faz perguntas.
Helena assentiu. — Então é pra lá que vamos.
Eles precisavam de um momento para respirar. Mas também precisavam se preparar.
Porque sabiam que o jogo ainda não havia acabado.
O carro avançava pela estrada vazia, cortando a noite como uma sombra fugidia. O silêncio entre eles não era de conforto, mas de preparação.
Depois de quase uma hora de viagem, Rafael virou em uma estrada de terra que levava a um galpão abandonado cercado por árvores altas. O lugar era discreto, afastado, e o mato alto mostrava que ninguém passava por ali há tempos.
— É aqui. — Ele disse, desligando o motor.
O trio desceu e olhou ao redor. O ar estava fresco, carregando o cheiro de terra úmida. Um contraste estranho depois do calor das explosões e da tensão dos últimos dias.
Helena entrou primeiro, observando o ambiente. O galpão era simples, mas seguro. Havia um sofá velho, algumas cadeiras jogadas no canto e um pequeno banheiro improvisado.
Elaine esticou os braços e suspirou.
— Finalmente, um momento para respirar.
Gabriel se encostou na parede, cruzando os braços.
— Sim, mas não podemos baixar a guarda. Victor ainda está por perto.
Rafael sorriu de canto. — Eu aposto que ele está se perguntando o que aconteceu com o dinheiro.
Helena se jogou no sofá e fechou os olhos.
— Isso nos dá tempo. Mas não muito.
Elaine se sentou ao lado dela e passou a mão pelos próprios cabelos ruivos, ainda úmidos da última chuva fina que caiu na estrada.
— E o que fazemos agora?
Gabriel olhou para Rafael.
— Agora descansamos. Mas amanhã… acabamos com isso.
A guerra contra Victor estava longe de terminar. Mas pela primeira vez em muito tempo, eles tinham uma chance real de vencer.