Capítulo 12 — Reflexos e Revelações

1162 Palavras
— Então... eu não sou exatamente dessa tribo. Eu era da tribo Araguaia, mas, quando era pequeno, fui deixado na floresta dentro de uma cestinha de bambu. Estava de noite e tinha uns pregadores por ali... Achei que ia morrer ali mesmo, mas foi aí que Jandira chegou, me salvou e me acolheu. Minha infância foi meio difícil, porque eu não tinha meu pai nem minha mãe por perto. Mas fazer o quê, né? Eles escolheram assim... Arregalei os olhos e disse: — Eu sinto muito... sinto muito por tudo. Mas tudo isso faz parte da sua história. Pra tudo tem um propósito, e acredito que essa situação também tem! Ubirajara respondeu, tranquilo: — Calma, Lyra... querendo ou não, aconteceu. E é passado. Não tem muito o que fazer. Mas e agora? Você confia em mim? — Na verdade... Antes que eu terminasse a frase, a água do rio espirrou sobre a gente, molhando nossas roupas. Levei um susto. — Acho melhor irmos para nossas cabanas... estou bem cansada. Com um sorriso leve, ele respondeu: — Tudo bem. Vamos. Chegando perto da cabana onde eu estava hospedada, encontramos Jandira me esperando. Quando ela me viu, abriu um sorriso caloroso e disse: — Boa noite, Lyra! Estava aqui te esperando. Queria te ensinar uma técnica muito antiga que eu usava para me comunicar com quem eu desejasse. Surpresa, respondi: — Uau! Vamos entrar para conversarmos melhor. Boa noite, Ubirajara! Até amanhã! — Boa noite, belas moças — disse ele, sorrindo. Após entrarmos, Jandira começou a explicar: — Quando eu era jovem, me comunicava com meus pais através de um espelho. — Quê? Como assim? — Eu sei que parece meio estranho, mas existe um feitiço. Para fazer funcionar, precisamos de: • Um espelho • Velas (branca e vermelha) • Guiné • Um punhado de rosas brancas • Um recipiente para amassar os ingredientes • Um borrifador — Primeiro, acendemos as velas, mentalizando bem com quem queremos falar. Depois, amassamos as rosas com o guiné, colocando um pouco de água para diluir. Em seguida, colocamos a misturinha no borrifador, balançamos e falamos: "Espelho, espelhinho, faça eu me comunicar com quem eu desejar." — Após isso, borrifamos sete vezes no espelho e dizemos três vezes o nome da pessoa desejada. Muito surpresa, falei: — Nossa, eu nunca achei que fosse ver um feitiço tão... Ela me interrompeu, rindo: — É por causa do "espelho, espelhinho", né? Esse feitiço eu mesma criei quando era jovem! — Na verdade, eu ia dizer fácil... mas tudo bem... Jandira suspirou: — Ah, minha menina... acho que vou me deitar. Amanhã temos um longo dia pela frente. Boa noite! Depois que ela saiu, me deitei para tentar dormir. Mas o sono... nada. Então resolvi tentar o feitiço do espelho. Logo de primeira, achei que tinha dado errado. O espelho ficou todo embaçado. Mas, aos poucos, o reflexo ficou mais nítido... e eu vi o Marcelo’s, dentro de uma banheira, chorando. Sinceramente, nunca imaginei vê-lo assim. Preocupada, perguntei: — Marcelo’s? Tá tudo bem? Com o susto, ele bateu a cabeça na borda da banheira e começou a olhar em volta, procurando a voz. — Marcelo’s, sou eu, Lyra!!! Ele continuava procurando: — Minha Santa Sara, eu tô ficando louco agora? Isso é castigo? Irritada, gritei: — Seu i****a! Aqui no espelho! Quando se deu conta, ele tentou se levantar da banheira gritando: — LYRA! LYRA! — NÃO SE LEVANTE! — gritei de volta. Sem graça, ele respondeu: — Ah... Eu tinha esquecido... Me desculpa... Pegou a toalha e o roupão, e do nada ele já estava sequinho, com o espelho nas mãos, me olhando e fazendo mil perguntas: — Por que você sumiu? Quando você volta? Eu senti tanta saudade! Lyra, você tá bem? Estamos todos preocupados com você!! Respirei fundo e disse: — Calma, Marcelo’s! Eu tô bem. Mas e vocês? Como estão as coisas por aí? Com um suspiro, ele respondeu: — Chimera ficou meio mal... e Zazi saiu em busca de um velho amor depois de um sonho. Mas nada demais. Poxa, Lyra... estamos com tanta saudade... — Olha, Marcelo’s... Eu não sei quando vou voltar, mas estou bem. Espero que vocês estejam também. Por enquanto, só podemos nos falar... — ...por aqui — ele completou comigo, em uníssono. O espelho ficou embaçado de novo. Quando o reflexo voltou ao normal, Marcelo’s já não estava mais lá. Só eu e meu reflexo. Arrumei minhas coisas e fui dormir. --- Enquanto isso... Marcelo’s chorava muito, com o espelho ao lado. De repente, alguém bateu à porta. Ele rapidamente enxugou as lágrimas e abriu, dizendo: — Que fo— Mas, ao ver quem era, mudou de tom: — Seraphina? Boa noite! Deseja algo? Ela deu um doce sorriso e respondeu: — Não... é que... Antes que terminasse, desabou em lágrimas. Marcelo’s a abraçou com força, tentando confortá-la, mas não adiantou muito. Então a levou para dentro de seus aposentos e a sentou na cama. Ela só conseguia repetir uma única frase, várias vezes: — Eu ouvi... eu ouvi a voz da Lyra... No calor do momento, Marcelo’s a beijou. Ela arregalou os olhos, surpresa, mas retribuiu o beijo. Após se afastarem, ele perguntou: — Está mais calma? Ela respondeu, envergonhada: — Sim... — Lyra conseguiu se comunicar comigo através de um espelho. Ela está bem... mas, por enquanto, não poderá falar onde está ou quando vai voltar. Com um suspiro de alívio, ela disse: — Graças a Deus! Fico mais calma ao saber disso. Espero que ela esteja feliz... com quem quer que esteja... Com uma expressão meio dividida, ele perguntou: — Devemos contar ao resto? Principalmente pro Aleck? Querendo ou não... ele gostava bastante da Lyra, né? Rindo, Seraphina respondeu: — E ela dele, né? Aqueles dois são demais! Ao invés de tomar logo uma iniciativa... Marcelo’s abaixou a cabeça: — Sabe... falando nisso... lembra da primeira vez que nos conhecemos? Ela assentiu. — Naquele dia, algo mudou dentro de mim. Não só porque eu tive onde morar e com quem ceiar... mas por sua causa. Você despertou algo em mim. Cada sorriso seu iluminava meus dias. Cada momento contigo é mágico. — Quando você sumiu, fiquei com medo de te perder. Foi nesse dia que percebi... eu estava começando a te amar. Seraphina, envergonhada mas feliz, olhou fundo nos olhos dele e respondeu: — Olha... eu não sei o que dizer. Mas também senti algo entre a gente. Sua presença trouxe leveza aos meus dias. Saber que você quer compartilhar sua vida comigo me deixa feliz, porque... eu também te amo. Mas não sei se quero arriscar. Entende? Ele sorriu, meio abalado: — Eu entendo. Arriscar pode ser assustador. E respeito seus sentimentos. Vamos continuar conversando, nos conhecendo, sem pressa. O mais importante é que a gente se sinta seguro um com o outro. Ela o abraçou com carinho, desejou boa noite e saiu de seus aposentos. Marcelo’s demorou a dormir... mas, quando conseguiu, dormiu feito uma pedra.
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