Melina Sullivan
Daniel é, de longe, a criatura com o maior coração que Deus já colocou na Terra. Sério. Às vezes eu acho que ele foi fabricado errado - bondade em excesso, juízo de menos. Porque, se dependesse de mim, o encosto que ele chama de melhor amigo estaria dormindo no sofá duro do Miller, com as costas travadas e a dignidade espremida junto com ele.
Mas não.
Daniel nunca faria isso. Tudo isso por quê: "Ele faria o mesmo por mim, Mel." e "Ele é tão meu irmão quanto você."
Foda-se.
Ele poderia ser o próprio papa, que ainda sim eu o deixaria mofando a noite toda onde ele caiu. Tudo isso porque o grande advogado fodão ficou irritadinho com o t**a que levou depois de cruzar uma linha que nunca deveria ter sequer olhado.
Aí, claro, encheu a cara, fez showzinho, desmaiou no final da festa.
Um espetáculo tão patético que dava até pena... se eu tivesse alguma.
E pensar que Daniel estava preocupado comigo. Que piada pronta.
- Mel! - a voz dele ecoa do andar de cima, com aquele tom meio rígido, meio aflito - provavelmente no quarto de hóspedes. - Pega os comprimidos na segunda gaveta da dispensa e uma garrafa d'água, por favor!
Reviro os olhos tão forte que quase vejo o passado. Eu sei muito bem reconhecer remédio de ressaca - principalmente dos fortes, daqueles que o O'Connor claramente vai precisar amanhã pra não morrer de vergonha antes da dor de cabeça acabar.
Mas ok. Faço o que ele pede.
Apago as luzes do primeiro andar e subo as escadas devagar, sentindo cada batida do meu coração ainda cansado do dia infernal que foi.
Quando entro no quarto de hóspedes, Daniel acaba de ajeitar o encosto na cama. O'Connor está apagado, respirando pesado, com a cara enterrada no travesseiro como o bom fardo humano que é.
- Eu teria trazido veneno, mas infelizmente acabou. - digo com um sorriso doce, meigo... e completamente falso, estendendo para o Daniel a cartela de comprimidos e a garrafa.
- Engraçadinha. - ele rebate, pegando o que pedi e colocando no móvel ao lado da cama. - Vai dormir já?
- Niel... são quase uma da manhã. E amanhã eu tenho um monte de coisas pra resolver. - respondo, sincera, cansada e com zero paciência.
Ele vira pra mim com aquele sorriso que sempre derrete metade da minha irritação.
- Você me chamava assim quando era pequena. - ele diz, baixinho, como quem encontra um fantasma bom. - Faz tempo que não ouço esse apelido.
Ele se aproxima antes que eu possa fugir desse clima emocional e me puxa pra um abraço apertado - aquele abraço firme que ele sempre deu, desde que eu era só um fiapo de gente tentando parecer forte.
- Eu amo você, Mel. - ele sussurra, beijando o topo da minha cabeça, exatamente como fazia quando eu caía da bicicleta ou acordava de pesadelos. - Você sempre vai ser minha garotinha.
O peito aperta, mas é aquele aperto bom, sabe? Aquele nó que diz que alguém ali realmente se importa.
- Eu também te amo, Niel. - sorrio, me soltando devagar. - Agora eu preciso dormir, senão amanhã acordo parecendo um zumbi atropelado.
Fico na ponta dos pés e dou um beijo na bochecha dele. - Até amanhã, maninho.
- Até amanhã, pirralha. - ele responde, sorrindo daquele jeito que sempre me dá vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
Saio do quarto, fecho a porta devagar e vou para o meu.
Depois da noite de hoje, meu corpo só pede duas coisas: banho e cama.
E, honestamente? Eu tenho todo prazer em atender a esse pedido.
★★★★★★★★★
Pego meus óculos de sol na penteadeira, guardo o celular e o cartão no bolso da minha saia cargo cinza e encaro meu reflexo no espelho pela última vez. Blusa branca, mini saia cargo, tênis igualmente branco, cabelo preso num r**o de cavalo. Tudo perfeitamente calculado pra transmitir simplicidade, normalidade e responsabilidade.
- Três coisas que, sinceramente, não fazem parte do meu pacote de fábrica - mas tudo bem, a vibe de adulta funcional precisa ser vendida de algum jeito.
Saio do quarto. O dia amanheceu mais quente do que eu estava emocionalmente preparada para lidar. O banho gelado que tomei ao acordar não serviu de absolutamente nada além de me lembrar que água fria não cura más decisões.
Desço as escadas e vou direto para a cozinha. A última vez que chequei o celular já passava das oito. Daniel, muito provavelmente, já evaporou para o escritório - abre às 7h30 e ele é esse tipo de pessoa irritantemente pontual.
Claro, isso se ele não acordou com a mesma dor de cabeça que eu, devidamente conquistada pelas minhas próprias escolhas brilhantes. E, honestamente? Não duvido.
Eu m*l bebi - quase nada - mas acordei com a sensação de que levei uma surra dada por três lutadores profissionais e um panda drogado. A cabeça lateja como se tivesse um tambor africano dentro do meu crânio.
E como se o universo tivesse decidido que eu ainda não sofri o suficiente...
Assim que entro na cozinha, lá está ele.
O encosto.
O infortúnio.
A prova viva de que Deus realmente dá suas batalhas mais difíceis para os soldados que Ele quer ver surtando.
De pé, com a mesma roupa de ontem, cabelo bagunçado, cara amassada... e enfiando a mão dentro da geladeira como se fosse o dono da p***a da casa.
Tá explicado por que o dia amanheceu tão quente: o d***o resolveu fazer visita domiciliar.
Eu nem olho pra ele.
Nem respiro na direção dele.
Só desviei da geladeira como quem desvia de um animal selvagem prestes a atacar e fui direto para os armários, procurando alguma coisa rápida e decente pra comer.
Tenho horário com um corretor imobiliário às dez, e sinceramente, não tenho tempo - nem paciência - pra lidar com o fantasma ressacado do O'Connor rondando minha manhã.
Mas claro... o universo nunca perde a chance de ver até onde vai minha sanidade.
Vasculho o armário de suplementos, pesco uma caixa de cereal como se estivesse resgatando a última centelha de dignidade da manhã, pego uma tigela no outro armário... e, quando viro para a bancada, lá está ele.
O'Connor.
Plantado do outro lado da cozinha, braços cruzados, olhos verdes fixos em mim com uma frieza que dá até preguiça. A expressão? Fúria contida - daquele tipo que parece ferver atrás da íris, só esperando um pretexto para explodir.
Arqueio as sobrancelhas, bem devagar, tentando decifrar o que exatamente ele acha que vai provocar em mim com essa pose de guarda-costas rejeitado. Balanço a cabeça, negativa, e volto ao meu grande plano de café da manhã gourmet: cereal e leite. Um banquete digno de quem não tem a paciencia de fazer algo mais elaborado.
Me aproximo da geladeira - perto demais de onde aquele neandertal resolveu montar acampamento - e simplesmente o ignoro. Abro a porta, pego o galão de leite, fecho. Tudo fluindo lindamente... até uma mão firme fechar-se em volta do meu pulso, me travando no lugar.
Respiro fundo. Porque, sinceramente, esse homem deve ter algum tipo de fetiche com levar t**a. Só pode.
Afinal, o de ontem claramente não ensinou nada.
- Solta. - Minha voz sai limpa, cortante, preenchendo o silêncio da cozinha. - Agora, O'Connor.
- Não até que você se desculpe pelo t**a que me deu ontem à noite. - Ele solta, com aquele tom pesado, recheado de raiva segurada na coleira.
Viro para encará-lo, devagar, como se estivesse abrindo as cortinas para o espetáculo. Arqueio as sobrancelhas, um sorriso de escárnio surgindo nos meus lábios como se tivesse vida própria.
- Ah, meu bem... você vai criar raiz aí se depender de mim. - Dou de ombros, erguendo o galão de leite na outra mão. - Vai soltar por bem ou prefere que isso aqui faça uma visita guiada ao topo da sua cabeça?
- Eu solto quando você pedir desculpas. - Ele sustenta meu olhar, frio, desafiador, como se quisesse me puxar para dentro do olho do furacão.
E eu?
Eu sorrio. Claro que sorrio.
- Ficou bravinho ontem à noite, O'Connor? - Aproximo um passo, só para ficar cara a cara com ele. Minha voz baixa, afiada. - Aconteceu o quê? O advogado fodão ficou sentido porque levou um t**a? Vai fazer o quê agora? Correr chorando pro Daniel porque a irmãzinha ousou encostar no seu ego, ou vai encher a cara de novo e dar outro show patético como fez ontem?
- Cala a boca, Melina. - A voz dele treme com a fúria que ele tenta esconder, e isso... ah, isso só me anima. Seu aperto no meu pulso se intensifica, uma pontada de dor subindo pelo meu braço.
- O que foi, O'Connor? Tá magoadinho porque não é mais o centro das atenções do Dan? - Deixo o veneno escorrer, doce e lento.
- Você está brincando com fogo, Melina.
- Ótimo. Tenho gasolina suficiente pra montar um incêndio inteiro. - Sorrio, maliciosa. - E vou te dizer... às vezes você tem umas atitudes que me fazem questionar se seus sentimentos pelo meu irmão não passam de amizade, não.
- Eu tô avisando, Melina. Cala essa p***a dessa boca.
- Claro, claro... porque, pela forma como você vem reagindo desde que cheguei, eu até pensei em outra coisa. - Inclino a cabeça, o sarcasmo escorrendo de cada sílaba. - A conclusão que eu cheguei é simples: você não gosta tanto de mulher quanto costuma dizer. Aliás... sabe o que eu realmente acho?
Que talvez você tenha se declarado pro Dani.
E ele te rejeitou.
E é por isso que você me odeia tanto. Porque acha que eu posso apresentar alguém pra ele e...
O aperto dele se torna ainda mais firme, quase dolorido, e num único passo a distância entre nós se desfaz como fumaça. De repente, sua respiração quente está a centímetros da minha, invadindo meu espaço, minha paciência e, principalmente, minha vontade de não m***r ninguém antes do café.
- ... e sabe o que mais, O'Connor? - continuo, com o sorriso mais venenoso que já dei na vida. - Essa história de divórcio é uma fachada tão m*l feita que até eu sinto vergonha alheia. Admite logo: você nunca foi traído. Só estava infeliz por não poder sair do armário e se assumir de uma vez...
Não termino.
Porque o mundo simplesmente gira.
Meu corpo é empurrado com força contra a geladeira - um tranco seco, inevitável - o galão de leite voa da minha mão, cai no chão e estoura, mas o som não serve pra nada. Não afasta. Não quebra o momento.
Não me salva.
Fico presa entre a superfície fria da geladeira e o calor bruto do corpo de O'Connor, que se aproxima como se tivesse decidido que espaço pessoal é uma lenda urbana. Seus olhos me encontram, gélidos, afiados, revelando uma fúria silenciosa que não é mais contida - é concentrada.
Sua respiração está entrecortada, pesada, tocando minha pele.
Cada músculo do corpo dele se tenciona contra o meu, como se a raiva fosse uma corrente elétrica passando de um para o outro.
O cheiro dele invade tudo: o álcool ainda agarrado às roupas, um rastro de tabaco, e a sombra de uma colônia masculina que, em qualquer outra situação, seria sedutora. Aqui, só me enjoa. E irrita.
E alimenta meu próprio fogo.
Ainda assim, não cedo.
Não desvio.
Meu olhar se finca no dele, desafiador, teimoso, quase provocativo demais para o próprio bem.
Ele então inclina o rosto, aproximando-se da minha nuca.
Sinto sua respiração quente deslizar pela minha pele.
Seus lábios passam tão perto do meu ouvido que chega a dar um arrepio - não de desejo, mas de pura tensão, como se o ar tivesse ficado pesado demais para respirar.
- Você não deveria começar um jogo, que não sabe jogar Melina. — ele sussurra em meu ouvido, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. - Não quando você não tem noção de com quem está jogando.
- Aí é que tá o problema, O'Connor... eu nunca estive jogando. - digo baixinho, quase numa provocação íntima, levando as mãos até a nuca dele.
Minhas unhas arranham sua pele num traçado lento, firme, profundo o suficiente pra deixar marca. Marcas que vão ficar ardendo por dias.
O que deveria irritá-lo... faz o desgraçado praticamente rosnar. Ele afunda o rosto na minha nuca como se estivesse farejando o próprio vício, aspirando meu cheiro no exato momento em que minhas unhas cravam mais fundo.
Puta m***a.
O homem é um masoquista.
E isso... bom, isso quase me deixaria excitada se não fosse a pessoa em questão - e as circunstâncias dignas de um pedido de terapia.
- Eu vou te dizer só uma vez, garota... - ele murmura contra minha pele, a voz rouca, arranhada, quente como pecado. - Na próxima vez que você ousar me dar outro t**a, eu te faço pedir perdão de joelhos.
A barba por fazer arranha minha pele, causando um arrepio involuntário que O'Connor, claro, percebe.
E isso só piora tudo.
Sem pensar muito, meus dedos sobem pelo cabelo dele e se fecham nas mechas escuras.
Puxo sua cabeça pra trás com firmeza suficiente para arrancar um suspiro de surpresa - e para obrigá-lo a me encarar.
- Eu duvido, O'Connor. - retruco, sem piscar.
O olhar dele é um espetáculo à parte: intenso, furioso, quase divertido... e perigosamente à beira de algo que nenhum dos dois está disposto a admitir.
E é exatamente por isso que eu não hesito.
Minhas mãos deslizam de volta para sua nuca - delicadas, quase carinhosas - e, no segundo seguinte, ergo meu joelho com força.
Sem dó.
Sem aviso.
Sem remorso.
Acerto exatamente onde dói mais.
- p***a, MELINA! - ele urra, dobrando o corpo num reflexo involuntário. - SUA DESGRAÇADA! FILHA DE UMA-!
As ofensas saem tão rápidas que se embolam, mas não me atingem.
Nada mais atinge, na verdade.
O aperto dele se desfaz de uma vez, como se eu tivesse cortado os fios que o mantinham em pé.
Ele se encolhe, gemendo, perdendo toda a pose de macho alfa que tentou sustentar.
Eu me afasto da geladeira com calma, ajeitando a roupa como se nada tivesse acontecido, e dou alguns passos para longe dele.
- Eu disse que não estou jogando. - minha voz sai leve, quase doce, o que provavelmente o irrita mais ainda. - E você deveria tomar cuidado, O'Connor... pode acabar confundindo as coisas.
Dou de ombros, como quem comenta o clima, e pego uma laranja da fruteira.
- Você não se importa de limpar isso, né? - aponto para o lago de leite espalhado pela cozinha, sem nem olhar pra ele. - Afinal, esse caos é culpa sua. Nada mais justo que você cuidar.
Eu preciso ir. Tenho algo importante pra fazer.
Dou um sorrisinho de canto.
- Beijinhos.
Saio da cozinha sem pressa, ouvindo atrás de mim o brutamontes ainda gemendo de dor, amaldiçoando tudo que respira.
Eu só acho bem feito.
Eu avisei pra ele me soltar.
..