Capítulo 23
O príncipe Adormecido
A manhã seguinte amanheceu abafada em Dubai. A cidade ainda despertava quando as manchetes já estavam estampadas nos principais portais internacionais:
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ESCÂNDALO EM NOIVADO REAL… PRÍNCIPE RAFIQUE ROMPE ALIANÇA NO MEIO DA CERIMÔNIA, E PRINCESA DA PÉRSIA É ACUSADA DE AGREDIR A MULHER QUE ELE CARREGOU NOS BRAÇOS. POSSÍVEL CASO DELE COM A MOÇA DESCONHECIDA FOI A CAUSA DA AGRESSÃO.
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Fotografias em alta resolução mostravam Rafique, no auge da fúria, atravessando o salão luxuoso com Isadora nos braços. Outras, captadas pelos celulares dos convidados, revelavam o vestido dourado manchado de vermelho e o olhar mortal que ele lançou à própria mãe.
No hospital, Rafique lia as notícias no notebook enquanto o seu tio Malik atualizava as informações.
— A Pérsia está em pânico. — Malik disse, sério — O pai de Kaisle exigiu um pedido formal de desculpas e n**a qualquer agressão.
— Claro que n**a. — Rafique respondeu, seco — Vai proteger a filha, mesmo que ela tenha quase matado uma mulher grávida de três herdeiros reais.
— Ele está dizendo à imprensa que Isadora “provocou” a princesa. — Malik continuou — E que você foi enganado por uma “oportunista estrangeira”.
O som do notebook pousando com força sobre a mesa ecoou no quarto.
— Oportunista? — Rafique se levantou, os ombros tensos. — Isadora é a mulher que carrega o futuro da minha linhagem. Se alguém ousar diminuir o nome dela, vou transformar essa ofensa numa guerra que eles não estão preparados para travar.
— Calma sobrinho, ninguém sabe que Isadora está grávida dos seus herdeiros.
— Não ainda, mas farei questão de mudar isso. — disse decidido.
Enquanto isso, em Teerã, a princesa Kaisle surgia nas câmeras, sentada num salão de paredes cobertas de tapeçarias douradas. A voz suave, estudada, tentava convencer os repórteres:
— Nunca houve agressão física. — dizia, com expressão inocente — A moça estava emocionalmente instável no banheiro e tropeçou. Eu apenas tentei ajudá-la… Mas compreendo que o príncipe esteja sob forte pressão, ele saiu recentemente de um coma e por isso tenha interpretado m*l a situação.
Os comentários online eram um campo de batalha. Metade a defendia, exaltando a honra persa. A outra metade a acusava de ser arrogante e c***l, compartilhando imagens de Isadora sendo carregada ensanguentada, duvidando da versão dada por Kaisle.
No palácio de Dubai, Annia se reunia com diplomatas para tentar conter o estrago. Ela ainda queria o casamento.
— Ele precisa entender que o rompimento público é um desastre. — dizia, pressionando os olhos com as mãos — Há contratos, alianças, rotas comerciais…
Um conselheiro, mais ousado, rebateu:
— Alteza, com todo respeito… agora há três vidas e uma mulher ferida no centro do assunto. E a opinião pública está do lado do príncipe. Mesmo sem saber ainda disso.
— Ninguém pode saber, essa mulher é só uma incubadora, nada além disso.
De volta ao hospital, Isadora acordou com a luz filtrada pelas cortinas douradas. O silêncio era estranho depois da noite anterior. Ela viu Rafique à beira da cama, revisando documentos e falando ao telefone em árabe com a voz firme.
— Então tio está decidido. Se a Pérsia quer guerra, terão guerra. Mas Isadora e nossos filhos são intocáveis.
Ele desligou e, percebendo que ela estava acordada, suavizou o olhar.
— Bom dia, habibti.
— O que está acontecendo? — ela perguntou, a voz ainda fraca.
— O mundo inteiro está falando sobre nós. E a Pérsia está tentando transformar você na vilã como minha amante.
Ela fechou os olhos, respirando fundo.
— Não quero ser o motivo de uma guerra.
— Você não é o motivo. — Rafique respondeu, pegando a mão dela. — O motivo é a arrogância deles de achar que podem atacar você e tocar no que é meu.
— Rafique é sério, olha eu não vou atrapalhar seu futuro como Sheik, sucessor do seu pai, e não quero nenhuma guerra para você ficar comigo.
— Isadora, fiquei calma, não haverá guerra, e só nosso jeito de ser aqui, agora descanse eu preciso fazer algo que já deveria ter sido feito.
— Rafique..!
— Agora não.
Isadora estava insegura porque sabia que não era modo de ser nenhum deles, e ela não deixaria nada disso seguir em frente. Uma guerra não, isso nunca. Mas ela estava fraca demais e não conseguia se levantar, e só consegui mesmo chora olhando para janela.
Rafique convocou uma coletiva de imprensa no terraço do hospital. Câmeras de todo o mundo foram posicionadas, repórteres aguardavam ansiosos. Ele apareceu de terno cinza-escuro, a postura impecável, mas o olhar de aço.
— Ontem, durante o que deveria ser uma celebração, a mulher que carrega os meus herdeiros foi agredida covardemente. — disse, a voz grave reverberando pelos microfones. — O noivado com a princesa Kaisle da Pérsia está encerrado de forma definitiva, na verdade eu nunca consenti o acordo de casamento arranjado pelos meus pais com os pais da princesa. E realmente estava ali por imposição e protocolo, que já não seguirei porquê eu Rafique Al- Nahyan Salim estou comprometido com a Isadora, eu a reconheço publicamente, e ela que será minha esposa, e qualquer tentativa de difamar ela será tratada como um ataque direto à mim e ao meu país. Por quê eu sou futuro Sheik do palácio Al-Nahyan.
O silêncio depois de suas palavras foi quase tão pesado quanto a tempestade de flashes que se seguiu.
Em Teerã, o pronunciamento de Rafique caiu como uma bomba. O pai de Kaisle entrou em reunião de emergência com o conselho real, avaliando se a crise diplomática poderia ser revertida… ou se já era tarde demais.
Em Dubai, milhares de mensagens inundavam as redes sociais. Hashtags em apoio a Isadora se espalhavam:
#JustiçaParaIsadora
#RafiqueProtegesecasecomela
#PricesadedubaiIsadora
Mas nos corredores do poder, todos sabiam que aquilo era só o começo de grandes problemas políticos que exigiam negociações.
O hospital, embora fosse um refúgio luxuoso, começava a ser como uma fortaleza sitiada. Guardas armados, enviados pelo Sheik Malik, que estava do lado do sobrinho, patrulhavam os corredores discretamente, enquanto jornalistas e curiosos permaneciam do lado de fora, mesmo sob o sol escaldante de Dubai.
Rafique passou o restante do dia, e a noite cuidado de Isadora que só dormia, e ele enfim não teve que discutir assuntos que sabia que ela não entenderia.
Na manhã seguinte à coletiva de Rafique, Isadora estava sentada na cama, apoiada em almofadas brancas bordadas, folheando uma revista que não conseguia ler.
A televisão estava no mudo, mas as imagens não mentiam: cada canal exibia seu rosto, o vestido dourado manchado de sangue e a cena de Rafique declarando o rompimento.
Autora: Graciliane Guimarães