Dia 2

2317 Palavras
Clarke estava me esperando na porta do colégio com cara de poucos amigos. Pensei em fugir sorrateiramente, mas os seus olhos furiosos me encontraram antes que eu tivesse a oportunidade. Respirei fundo e caminhei até ela. — Bom dia, amiga. — Não vem com essa de amiga. Eu estou tão chateada com você. Suspiro cansada. — Eu sei. — Que bom que você sabe. Quer dizer que pelo menos você reconhece o que fez. Como assim você está namorando o Dean e eu não sei nada sobre isso? Quando aconteceu? Como aconteceu? — Foi tudo muito rápido, Clarke. Eu não queria falar até ter certeza. — Corta o papo furado. Eu nem consigo acreditar em você. Eu sou a sua melhor amiga ou não? — Você é, tem razão. Eu deveria ter falado. Culpa faz o meu estômago retorcer. Esconder o namoro falso de Clarke seria a pior parte nessa loucura toda. Mas eu não poderia contar, prometi a Dean. — Você deveria ter falado mesmo! Mas já que não fez, vamos começar a recompensar o tempo perdido. Como foi que isso aconteceu? Bota tudo para fora agora e eu penso em te perdoar. — Acho que tudo começou no dia em que Ben me traiu. — a mentira vem facilmente. — Você lembra como Dean me defendeu? — Eu lembro, ele ameaçou tirar o Ben da sua frente à força. — Naquela noite, ele apareceu na minha casa. Acho que queria checar se eu estava bem. Só agora me dou conta que nunca contei isso para Clarke. Não é que eu não confie nela, eu confio. Mas acho que eu queria guardar aquele momento para mim. — Ele foi até a sua casa? — Sim, bem, na casinha da árvore. Ele me deixou chorar por toda a sua camisa e disse que tudo bem em estar triste, mas não por muito tempo porque ele gostava mais do meu sorriso. Foi delicado da parte dele, foi... especial. E foi. Realmente foi. Eu nunca me permiti pensar demais sobre aquele dia. Às vezes, quando penso no Dean que me consolou tão amavelmente, sinto coisa estranhas. Clarke acaba abandonando a expressão irritada e abre um sorriso. — Isso foi... adorável. Eu rio um pouco. Ela estava certa. — Eu ainda não te perdoei por não ter me contado isso. Na verdade, acho que estou ainda mais irritada. Já faz um tempão! Passo o meu braço sobre o seu ombro. — E se eu te pagasse um milk-shake? — Dois. — Dois. — Agora estamos chegando em algum lugar. Ei, olha lá o seu príncipe encantado. Eu sigo o seu olhar até encontrar Dean descendo da moto. Ele olha ao redor parecendo estar procurando algo até que os nossos olhares se cruzam. — Uh... seu namorado é sexy. Toda essa coisa de bad-boy é uma delícia. Dou um t**a no seu braço. — Fala baixo. Ele está vindo para cá. — Por quê? O seu namorado não pode escutar? — Não posso escutar o que? Ele nos alcança e, naturalmente, como se fizesse isso sempre, passa o braço por meu ombro e beija a minha bochecha. O sorriso de Clarke aumenta. — A Bibi não quer que você escute que ela te acha sexy. Clarke estava mort*. Ela ia ver só.  Dean sorri e vira o rosto para mim. — Ah, é? — Não dê atenção para Clarke. Minha ex-amiga levanta as mãos. Fingindo inocência. — Vou deixar o novo casal sozinho. Gabriella, não pense que vai se livrar de mim tão cedo, eu quero detalhes! Vejo vocês mais tarde. Ela nos dá às costas e sai saltitando para dentro da escola. — Então, eu sou sexy? Ele fala no meu ouvido. Perto. Perto demais. Eu me desvencilho do seu toque, sentindo as mãos suarem. — Ela só estava sendo implicante comigo. — Então você não me acha sexy? Estou ofendido. — Eu acho que você não precisa de mais ninguém amaciando o seu ego grande. — Entendi. Você acha, mas não quer dizer. Minhas bochechas coram e eu olho para o chão, tentando disfarçar. — Quer parar com isso? — Já parei. — Olhe só, você chegou cedo hoje. — mudo de assunto — estou surpresa. — É, não quis te deixar esperando de novo. Sorrio, porque isso foi doce. — Mas não se acostume. — Eu jamais faria isso. Nós começamos a andar para a escola. — Qual é o plano de hoje? — Eu não sei... o mesmo de ontem. Passamos o intervalo juntos e depois você me leva até o ponto de ônibus. — Intervalo, ok. Ponto de ônibus, não é possível. Eu tenho treino depois da aula. Fico um pouco desapontada e realmente não sei de onde vem esse sentimento. — Tudo bem. — Ei! Você pode ficar e assistir ao treino. — Não sei... — Ah, vamos! Isso é o que uma namorada faria. — ele puxa uma mecha do meu cabelo — vamos. Assista ao meu treino. Eu te levo para tomar um sorvete depois. A ideia de que isso seria um encontro passa na minha mente e retorce o meu estômago, mas eu enterro o pensamento. Dean só está fazendo o seu papel, no máximo está sendo legal. — Certo. Eu fico. — Boa escolha. Eu te encontro no intervalo. Ele beija o meu rosto e vai embora. Eu fico o observando se afastar e o meu rosto formiga no lugar em que ele encostou. * Eu não tinha reparado ontem, mas hoje os olhares não passam despercebidos. Todos encaram a mesa onde estou sentada com Dean, Clarke e Ryan. Dean parece confundir o meu prato com o dele e continua roubando batatas fritas de mim. — Se você queria batata por que não pegou? — Eu não posso comer. Não faz bem para o corpo e eu preciso estar em forma. — Não faz muita diferença se você come as minhas. Ele ri. — É claro que faz. A minha consciência não pesa porque não fui eu quem peguei. — Isso nem faz sentido! — Não seja uma ch*ta — ele está sorrindo, então não me sinto ofendida — Estou te ajudando. Você não pode comer toda essa fritura, olha para isso. Ele faz uma falsa expressão de desgosto que me arranca uma risada, mas eu fico séria quando penso no que acabou de dizer. Estreito os meus olhos. — Você acabou de fazer uma crítica ao meu corpo? — O que? — pergunta chocado — Eu? — Sim. Por que eu não poderia comer coisas gordurosas? Dean ri. Eu não gosto de sempre acabar corando quando ele faz essa coisa de joga a cabeça para trás. — Você está ótima. Eu abro a boca para responder, mas a risada de Clarke me interrompe. — Vocês dois são adoráveis. Ryan concorda com a cabeça e aponta para o lado. — Parece que o Ben vai explodir. Eu olho para mesa ao lado e Ben não para de nos encarar. Ele parece muito irritado. Eu sorrio. — O problema é dele. Quem mandou trair a minha amiga? Não acredito que você ainda seja amigo dele. Clarke reclama e Ryan revira os olhos. Eles já brigaram por isso diversas vezes antes. — Ben é legal, princesa — Ele me lança um olhar de desculpa — O que ele fez com você foi errado. Estou feliz que você tenha seguido em frente. — Tudo bem, Ryan. Eu sei que no fundo Ben é uma boa pessoa. Dean emite um resmungo e a sua atenção está toda no prato à sua frente. Como se estivesse se forçando para ignorar a conversa. — Dean, ele fez uma coisa muito errada comigo. Eu sei. Mas nós tivemos momentos muito bons. Uma atitude errada desfaz todo o resto? Ben ainda é um cara legal. — Não. Ele é um otár*o que te traiu quando você estava fazendo uma coisa legal para ele. Ele diz ríspido, quase grosseiro. Olho para Clarke, para que ela me ajuda a entender o que está acontecendo aqui. Ela está sorrindo e fala “ciúmes” sem emitir som. Eu olho para Dean espantada. Ciúmes? Antes que essa ideia tome vida dentro de mim, me lembro que não é verdade. O problema está em Ben. Isso não tem a ver comigo. Mas agora Dean está calado e eu não gosto muito disso. Eu prefiro um Dean sorridente ou até um implicante. Eu pego uma batata e ergo diante de seu rosto. Ele me olha. — Pode comer as minhas batatas. Eu não vou contar para ninguém. Dá certo. Ele sorri e arranca a batata da minha mão. Depois, toma um gole do meu suco e apoia um braço no meu ombro. Eu não me espanto dessa vez. Acho que estou me acostumando a ter o braço de Dean ao meu redor. * Eu me sento na arquibancada e vejo Dean e os outros treinarem. E agora estou me perguntando por que nunca fiz isso antes. É uma visão maravilhosa. Garotos sarados e suados correndo de um lado para o outro. Acho que me apaixonei por três deles. Mas ninguém se compara a Dean, ele é um espetáculo à parte. Em algum momento durante o treino, ele tira a sua camisa e eu vou me limitar a dizer que eu poderia ter literalmente babada. Que garoto gostoso. As minhas bochechas coraram muito e eu fiquei feliz por ele não conseguir perceber à distância.  Mas ele olhava muito para mim. Sempre que o nosso olhar encontrava, nós dois sorríamos. Acho que eu poderia fazer isso todos os dias, eu não iria me oferecer, mas aceitaria se ele me convidasse. Dean correu para mim quando o treinador o dispensou. — E, aí, entediamos muito você? Ele estava lindo. Cabelos úmidos, uma trilha de suor descendo pelo peito e o rosto corado pelo esforço físico. Ele sorria muito abertamente também. Se eu já não soubesse, teria percebido agora que o futebol é a sua grande paixão. — Ei? — Ele estala os dedos na minha frente — Tudo bem? Acho que eu devia parecer uma maluca encarando o seu corpo. Forcei os meus olhos a se desviarem. — Estou bem. Foi divertido. — É? Você viria de novo? Tipo, na quinta...? — Claro! Nós dois sorrimos. — Legal. Eu vou tomar um banho rápido e volto para lhe pagar aquele sorvete. — Vou esperar aqui. Ele me lança um último sorriso e me dá às costas. * — Sorvete de chocolate, certo? Estamos na sorveteria que fica na rua da escola, normalmente ela está lotada, mas devido ao treino de Dean, chegamos num horário pouco tumultuado. — Como você sabe que eu ia pedir chocolate? — Você disse que sempre toma esse sabor. Que pensa em pedir algo diferente, mas acaba desistindo. — Quando eu disse isso? — Na primeira semana de aula. Nós viemos aqui, você lembra? Eu lembrava. Isso foi na primeira semana de aula do ano passado, assim que entrei na escola. Estava surpresa por ele lembrar. — Você tem uma boa memória. Ele apenas balança a cabeça. Dean paga os sorvetes e me ignora quando digo que posso pagar o meu. Nós nos sentamos para comer. — Você me trouxe aqui porque eu tinha me machucado na educação física. Eu digo, lembrando da ocasião. Foi a primeira aula de educação física que eu estava participando. Estávamos numa espécie de corrida de obstáculos quando o meu sapato desamarrou e eu fui de cara no chão. Eu ganhei um arranhão grande no joelho e um bocado de vergonha. Cair na primeira semana de aula em uma escola nova nunca é legal. Foi a primeira vez que Dean falou comigo. Eu já havia reparado nele e na sua beleza óbvia antes. Ele perguntou se eu estava bem e eu ri de mim mesma. Então, Dean declarou que uma enorme casquinha de sorvete me faria sentir melhor. — Sim. Foi hilário. Você caiu tão f**o e ficou toda vermelha. Parecia que queria cavar um buraco no chão para se esconder. — Era o que eu estava pensando. Nós dois rimos e quando o silêncio surge entre nós, solto uma pergunta que sempre rondou a minha mente. — Por que parou de falar comigo? Ele fica surpreso com a minha pergunta e hesita um pouco antes de falar. — Eu não parei de falar com você. — Fala sério! É claro que parou. — Não. Eu parei de falar com Ben. Acho que você foi... um efeito colateral. O problema nunca foi você. Fazia sentido por um lado. Dean se afastou de mim depois da briga com Ben. Mas se o problema não era eu, então por que ele ficou tão frio? Não foi apenas parar de falar, Dean desviava o seu caminho para não esbarrar em mim. Ele ficou distante e tão diferente do garoto gentil do primeiro dia. — Por que vocês brigaram? Dean se concentra no sorvete. — Acho que nem sempre é possível manter uma amizade para a vida toda. Nós crescemos juntos, mas mudamos. — É isso? Não tem um motivo. — Isso faz diferença? — Acho que faz. — Bom, tem. Mas não importa. Nós nos odiamos agora e isso é tudo. Eu não sabia como responder então apenas continuei tomando o meu sorvete. Dean suspirou. — É mentira. — O que? — Eu não odeio o Ben. — Não? — Você sabia que nós costumávamos nos apresentar para os outros como irmãos? Um olhar triste cruza os seus olhos e eu sinto uma enorme necessidade de tirar isso de lá. — Quer saber o final da história sobre o garoto? Dean ficou confuso. — Que garoto? — O garoto dos peit*os de meia. Quer saber? Ele volta a sorrir. — Eu jamais diria não a essa história. Eu comecei a falar e cada vez que o fazia rir, considerava uma vitória particular.
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