A tarde em que tudo mudou

2200 Palavras
A chuva começou de repente. Não foi aquela chuva leve que avisa que está chegando. Foi uma daquelas que caem como se o céu tivesse perdido a paciência com o mundo. Lia Fernandes saiu do portão da universidade segurando a mochila contra o peito, tentando proteger os cadernos da água que já escorria pelos seus cabelos. — Ótimo… simplesmente ótimo — murmurou ela, olhando para o céu cinzento. Os estudantes corriam pelo campus procurando abrigo, alguns rindo, outros reclamando. O cheiro de terra molhada invadia o ar, misturado com o barulho constante da chuva batendo nos telhados. Lia caminhava rápido pela calçada. Sua mente, porém, estava longe dali. Pensava no trabalho da faculdade que ainda precisava terminar, nas contas que tinha para pagar e na sensação estranha que vinha sentindo nos últimos dias. Como se algo estivesse prestes a acontecer. Ela sempre teve essa intuição silenciosa. Não era algo que pudesse explicar, mas às vezes tinha pequenos pressentimentos. Nada muito claro. Apenas sensações. E naquele dia… a sensação era forte. Muito forte. Ela parou na esquina esperando o sinal fechar para os carros. A rua estava cheia de veículos, as luzes refletindo no asfalto molhado como pequenos espelhos quebrados. Lia ajustou a alça da mochila no ombro e respirou fundo. — Vai ficar tudo bem — disse para si mesma. O sinal abriu para os pedestres. Ela começou a atravessar. Foi então que aconteceu. Um carro virou a esquina rápido demais. Muito rápido. Os pneus deslizaram no asfalto molhado. Um som agudo de travagem cortou o ar. — CUIDADO! — alguém gritou. Lia virou o rosto. As luzes do carro vinham direto em sua direção. Por um segundo… tudo ficou silencioso. O mundo parecia em câmera lenta. Ela viu as gotas de chuva caindo. Ouviu o próprio coração. Sentiu o corpo congelar. E então, o impacto. --- Quando Lia abriu os olhos, tudo parecia distante. As vozes vinham abafadas, como se estivessem debaixo da água. — Ela está respirando. — Chamem a ambulância! — Ela bateu a cabeça? Lia tentou se mexer, mas seu corpo parecia pesado demais. Seu olhar estava fixo no céu cinzento. A chuva ainda caía. Fraca agora. Um gosto metálico surgiu em sua boca. — Minha… mochila… — murmurou ela, quase sem voz. Ninguém respondeu. Alguns minutos depois, a sirene da ambulância cortou o barulho da cidade. As luzes vermelhas piscavam refletindo nas poças de água. --- O hospital tinha aquele cheiro típico de desinfetante e silêncio. Lia abriu os olhos lentamente. A luz branca do teto fez seus olhos arderem. — Ei… calma — disse uma voz feminina. Uma enfermeira estava ao lado da cama. — Você sofreu um pequeno acidente, mas está bem. Lia piscou várias vezes, tentando organizar os pensamentos. — Quanto… quanto tempo…? — Algumas horas apenas. Ela respirou fundo. Seu corpo doía, mas nada parecia quebrado. — Minha mochila? — perguntou novamente. A enfermeira apontou para a cadeira ao lado. — Está ali. Lia virou o rosto. A mochila preta estava intacta, um pouco molhada, mas fechada. Uma sensação de alívio percorreu seu peito. Depois de alguns exames e recomendações médicas, Lia recebeu alta naquela mesma noite. --- A chuva tinha parado. A cidade estava silenciosa. As ruas ainda brilhavam com a água que cobria o asfalto. Lia caminhava devagar até seu pequeno apartamento. O acidente ainda parecia um sonho estranho. Algo dentro dela, porém, dizia que aquele dia não tinha terminado. Ela abriu a porta de casa, jogou as chaves na mesa e tirou os sapatos. O silêncio do apartamento era reconfortante. — Que dia… — suspirou. Lia colocou a mochila na cama e abriu o zíper. Queria apenas pegar o caderno para revisar algumas anotações antes de dormir. Mas algo chamou sua atenção. Um pedaço de papel. Dobrado. Ela franziu a testa. — Eu não lembro disso aqui… Lia pegou o papel lentamente. Era um bilhete simples, escrito à mão. Seu coração começou a bater mais rápido. Ela abriu. E leu. > Amanhã, às 10h17, você vai derramar café na camisa de um homem dentro do autocarro. Ele vai rir. E você vai sentir que já viveu esse momento antes. Lia ficou parada. Imóvel. O silêncio do quarto parecia mais pesado. — O quê…? Ela virou o papel. Nada. Nenhuma assinatura. Nenhuma explicação. — Deve ser alguma brincadeira — disse em voz baixa. Mas havia algo estranho. A caligrafia. Ela conhecia aquela letra. Muito bem. Devagar, Lia abriu o caderno que estava dentro da mochila. Comparou as letras. Seu estômago gelou. A letra… Era idêntica. Exatamente igual. Era a caligrafia dela. Lia deixou o papel cair na cama. — Isso… isso não pode ser possível. Ela tinha certeza absoluta de uma coisa. Ela nunca tinha escrito aquele bilhete. Nunca. Mesmo assim, aquelas palavras estavam ali. Escritas como se tivessem saído de sua própria mão. Lia respirou fundo e olhou novamente para o bilhete. Uma sensação estranha começou a crescer dentro dela. Medo. Curiosidade. E uma pergunta que ela ainda não sabia responder. E se aquilo não fosse uma brincadeira? Ela dobrou o papel lentamente e colocou de volta dentro da mochila. — Amanhã eu descubro — murmurou. Mas naquela noite… Lia demorou muito para conseguir dormir. E em algum lugar do apartamento… um leve som de papel sendo dobrado ecoou no silêncio. Como se um novo bilhete estivesse sendo escrito. --- O silêncio do apartamento parecia mais pesado do que o normal. Lia ficou sentada na cama por alguns segundos, olhando para a mochila como se ela pudesse, a qualquer momento, revelar algum outro segredo. A pequena luz do abajur iluminava o quarto com um tom amarelado e suave. A chuva tinha parado, mas o som distante de carros passando nas ruas molhadas ainda chegava pela janela entreaberta. Ela respirou fundo. — Estou cansada demais… é isso — disse para si mesma. Talvez o acidente tivesse mexido com sua cabeça. Talvez alguém tivesse colocado o bilhete na mochila durante a confusão na rua. Talvez fosse apenas uma coincidência estranha. Mas havia um detalhe que não saía da sua mente. A caligrafia. Era a dela. Não apenas parecida. Era exatamente igual. Cada curva das letras, cada pequeno traço inclinado, cada espaço entre as palavras. Era como se ela mesma tivesse escrito aquilo. Lia pegou o papel novamente. Passou os dedos devagar sobre as palavras. A tinta parecia recente. Como se tivesse sido escrita há pouco tempo. Uma sensação de arrepio percorreu seus braços. — Não… isso é ridículo — murmurou. Ela levantou-se da cama e caminhou até a cozinha. Precisava de água. Ou talvez de algo mais forte, se tivesse em casa. Abriu a geladeira. Nada além de algumas frutas, uma garrafa de água e restos de comida do dia anterior. Ela pegou a garrafa e bebeu diretamente. O líquido frio desceu pela garganta trazendo um pouco de alívio. Mas não afastava a inquietação. Lia apoiou as mãos no balcão e ficou olhando para o chão da cozinha. Pensando. Relembrando o acidente. A travagem do carro. O impacto. O momento em que tudo ficou silencioso. Havia algo estranho naquela lembrança. Algo que ela não conseguia identificar completamente. Uma sensação. Como se… por um breve segundo… Ela soubesse que aquilo ia acontecer. Lia franziu a testa. — Não… isso é impossível. Ela sempre teve uma boa intuição, é verdade. Mas prever algo assim? Um acidente? Isso não fazia sentido. Ela voltou para o quarto. O bilhete ainda estava na cama. Esperando. Quase desafiando-a. Lia pegou o caderno e começou a escrever. Quando sua mente ficava confusa, escrever sempre ajudava. No topo da página ela escreveu: "Bilhete estranho — 21h43" Em seguida começou a listar fatos. 1. Sofri um acidente hoje à tarde. 2. Minha mochila ficou comigo durante quase todo o tempo. 3. Encontrei um bilhete dentro dela. 4. O bilhete prevê algo que vai acontecer amanhã. 5. A letra é idêntica à minha. Ela parou de escrever. Observou as palavras. — Isso parece roteiro de filme r**m — disse, soltando um pequeno riso nervoso. Mesmo assim, havia algo no fundo do seu estômago dizendo que aquilo não era apenas uma coincidência. Ela olhou novamente para o bilhete. Amanhã, às 10h17... Lia pegou o celular. 21h48. Ela fez um cálculo rápido. Se aquilo fosse verdade… Se realmente fosse acontecer… Ela descobriria em menos de doze horas. Lia suspirou e fechou o caderno. — Chega. Preciso dormir. Mas dormir não foi fácil. --- A noite parecia longa demais. Lia se revirava na cama enquanto a mente repetia a mesma pergunta inúmeras vezes. Quem escreveu o bilhete? E uma pergunta ainda pior surgia logo depois. Como essa pessoa sabia o que ia acontecer? Ela virou-se para o lado e olhou para a mochila na cadeira. A luz da rua entrava pela janela, iluminando parcialmente o quarto. Por um momento, teve a sensação absurda de que a mochila tinha se mexido. Ela piscou. Nada. — Você está ficando paranoica — murmurou. Mesmo assim, levantou-se e caminhou até ela. Abriu o zíper. Vasculhou todos os compartimentos. Cadernos. Canetas. Carregador. Nada além do normal. Nenhum novo bilhete. Ela respirou fundo. Fechou o zíper. Voltou para a cama. Mas quando finalmente conseguiu adormecer, os sonhos vieram. E não eram sonhos tranquilos. --- Lia estava novamente na rua. A chuva caía. As luzes dos carros refletiam no asfalto. Mas dessa vez algo estava diferente. Ela não estava atravessando a rua. Ela estava… observando. Do outro lado da calçada. Como se estivesse vendo a si mesma. Lia viu sua própria versão caminhando com a mochila no ombro. Viu o carro se aproximando. Viu o momento do impacto. Mas havia algo mais. Uma figura parada na esquina. Uma silhueta. Alguém observando tudo. A figura segurava algo na mão. Um papel. Um bilhete. Quando a figura levantou o rosto— Lia acordou. Ofegante. O coração batendo forte. Ela levou alguns segundos para perceber que estava no próprio quarto. A primeira coisa que fez foi olhar o relógio. 06h12. O sol começava a nascer. Lia passou a mão no rosto. — Foi só um sonho… Mas algo naquele sonho parecia real demais. Ela levantou-se devagar. Tomou um banho. Vestiu-se. Tentou agir como se fosse apenas mais um dia normal. Mas não era. O bilhete estava dobrado dentro do bolso da sua mochila. Esperando. --- A universidade estava movimentada como sempre. Estudantes caminhavam pelos corredores conversando, rindo e reclamando de provas. Tudo parecia tão normal que Lia quase se convenceu de que tinha exagerado na noite anterior. Até olhar novamente para o relógio. 09h58. Seu estômago se apertou. Faltavam menos de vinte minutos. Ela decidiu fazer exatamente o que faria normalmente. Foi até a pequena cafeteria perto do ponto de autocarro. Comprou um café. Pegou o copo quente entre as mãos. — Obrigada — disse ao funcionário. Ela saiu da cafeteria. O autocarro chegou poucos minutos depois. Lia entrou. Estava cheio. Como sempre naquele horário. Ela segurava o café com uma mão enquanto tentava se equilibrar. Seu coração batia cada vez mais rápido. Ela olhou discretamente para o relógio do celular. 10h14. Três minutos. — Isso é ridículo — murmurou para si mesma. O autocarro começou a se mover. As pessoas se apertavam no corredor. Lia segurou-se na barra de metal. 10h16. Seu coração parecia bater dentro da garganta. — Nada vai acontecer — disse baixinho. O autocarro fez uma curva. Então travou de repente. O corpo de Lia foi lançado para frente. O copo escapou de sua mão. E o café caiu direto na camisa de um homem parado à sua frente. Silêncio. Por um segundo inteiro. — Ah! Meu Deus! Desculpa! — disse Lia imediatamente. O homem olhou para a mancha na camisa. Depois olhou para ela. E começou a rir. — Relaxa — disse ele. — Acontece. O mundo pareceu congelar. Exatamente. Como no bilhete. Lia ficou parada. Sem saber o que dizer. Seu coração batia tão forte que ela tinha certeza de que todos ao redor podiam ouvir. O homem ainda sorria. — Primeira vez andando de autocarro lotado? Lia piscou. — N-não… eu só… Ela não conseguiu terminar a frase. Porque uma única pergunta dominava sua mente. Como aquilo era possível? O bilhete estava certo. Cada detalhe. Cada palavra. Cada segundo. Lia pegou a mochila com mãos trêmulas. Precisava verificar. Precisava ter certeza de que não estava ficando louca. Ela abriu o zíper. E seu coração parou por um instante. Havia outro bilhete lá dentro. Um que não estava ali antes. Dobrado. Esperando. Como se soubesse que ela iria procurá-lo. Lia sentiu um frio percorrer sua espinha. Devagar… Ela pegou o papel. E abriu. As primeiras palavras fizeram seu estômago gelar. > Se você está lendo isso… significa que o primeiro bilhete se confirmou. Lia engoliu em seco. E continuou lendo. > Agora você precisa prestar atenção. Porque o próximo acontecimento não é apenas constrangedor. Ele é perigoso. O autocarro continuava andando. As pessoas conversavam. Ninguém parecia perceber que o mundo de Lia estava virando de cabeça para baixo. Ela leu a última frase do bilhete. E sentiu o coração afundar. > Amanhã alguém vai morrer. Lia levantou lentamente os olhos do papel. Uma única pergunta ecoava em sua mente. E se o próximo bilhete falar sobre mim?
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