O ar dentro da cafeteria parecia pesado.
Lia e Sofia estavam em silêncio havia quase um minuto inteiro, olhando uma para a outra como se cada pensamento estivesse tentando encontrar um lugar para se organizar.
O barulho das xícaras sendo colocadas no balcão e o murmúrio distante das conversas ao redor criavam uma atmosfera estranhamente normal.
Normal demais para o que estava acontecendo.
Sofia foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Vamos pensar com calma — disse ela, tentando manter a voz firme. — Talvez a mensagem seja vaga de propósito.
Lia ainda segurava os dois bilhetes entre os dedos.
O papel parecia mais pesado agora.
— Não parece vaga para mim — respondeu ela em voz baixa. — Parece um aviso.
— Mas um aviso de quê exatamente? — perguntou Sofia. — Diz apenas que alguém vai morrer.
Lia olhou novamente para a frase.
Amanhã alguém vai morrer.
Ela sentiu um aperto no estômago.
— Hoje — corrigiu.
Sofia franziu a testa.
— Como assim?
— Quando eu li o bilhete pela primeira vez ainda era ontem à noite.
Ela puxou o celular do bolso e mostrou a tela.
— Agora já é outro dia.
Sofia olhou o relógio.
11h12.
Seu rosto perdeu um pouco da cor.
— Então… se a previsão for literal…
Lia terminou a frase que Sofia não conseguiu dizer.
— A morte pode acontecer a qualquer momento.
O silêncio voltou a se instalar entre elas.
Sofia passou a mão pelos cabelos, claramente nervosa.
— Isso é absurdo — disse ela. — Não podemos sair por aí tentando salvar alguém de algo que nem sabemos o que é.
Lia sabia que ela estava certa.
Mas algo dentro dela insistia que ignorar aquilo seria um erro.
Um erro terrível.
— E se alguém realmente morrer hoje? — perguntou Lia.
Sofia não respondeu imediatamente.
Ela olhou para o movimento da rua através da janela.
Carros passavam.
Pessoas caminhavam.
A vida seguia normalmente.
— Pessoas morrem todos os dias — disse ela por fim. — Infelizmente.
— Eu sei.
— Então talvez seja apenas… coincidência.
Lia balançou a cabeça.
— O primeiro bilhete não foi coincidência.
Sofia abriu a boca para responder, mas parou.
Porque sabia que Lia estava certa.
Aquela previsão tinha sido exata demais.
Cada detalhe.
Cada momento.
Cada reação.
— Certo — disse Sofia finalmente. — Vamos considerar, só por um momento, que isso é real.
Ela se inclinou sobre a mesa.
— O que fazemos agora?
Lia pensou por alguns segundos.
— Observamos.
— Observamos o quê?
— Tudo.
Sofia soltou um pequeno suspiro.
— Isso não ajuda muito.
Lia abriu a mochila novamente.
Queria guardar os bilhetes.
Mas algo a fez parar.
Seus dedos ficaram imóveis dentro da mochila.
Seu coração deu um salto.
— O que foi? — perguntou Sofia imediatamente.
Lia não respondeu.
Ela apenas puxou a mão para fora.
E trouxe consigo outro pedaço de papel.
Dobrado.
Sofia arregalou os olhos.
— Não… — murmurou.
Lia sentiu o sangue gelar.
— Ele não estava aqui antes.
As duas olharam para o papel como se ele pudesse explodir.
— Abra — disse Sofia, quase num sussurro.
Lia respirou fundo.
Suas mãos tremiam enquanto desdobrava o bilhete.
As palavras estavam escritas com a mesma caligrafia.
A mesma.
Exatamente igual à dela.
Ela começou a ler.
> Você ainda não percebeu…
Lia engoliu em seco.
Sofia aproximou-se mais da mesa.
Lia continuou.
> Mas a morte que precisa impedir…
Seu coração começou a bater mais rápido.
> Está mais perto do que imagina.
As duas ficaram em silêncio.
O barulho da cafeteria parecia distante agora.
— O que isso significa? — perguntou Sofia.
Lia releu as palavras lentamente.
Cada frase parecia mais inquietante que a anterior.
— Alguém perto de mim… — murmurou ela.
Sofia ficou imóvel.
— Você acha que…
— Que pode ser alguém que eu conheço.
O estômago de Sofia se apertou.
— Isso não é bom.
Lia dobrou o bilhete lentamente.
— Não.
Ela começou a pensar nas pessoas ao seu redor.
Sofia.
Os colegas da universidade.
Os professores.
Os funcionários da cafeteria.
Até o homem do autocarro.
Qualquer um deles poderia ser a pessoa mencionada no bilhete.
E o pior de tudo era que o aviso não dizia quando.
Apenas que aconteceria hoje.
— Talvez o bilhete apareça de novo — disse Sofia.
— Como assim?
— Talvez ele dê mais detalhes.
Lia olhou novamente para a mochila.
A ideia parecia absurda.
Mas até poucas horas atrás, tudo aquilo parecia absurdo.
— Talvez — disse ela.
Sofia apoiou os cotovelos na mesa.
— Precisamos descobrir duas coisas.
— Quais?
— Primeiro: quem está escrevendo esses bilhetes.
— E a segunda?
Sofia olhou diretamente para ela.
— Quem está em perigo.
Lia sentiu um peso enorme sobre os ombros.
De repente, parecia que o destino de alguém dependia dela.
E ela nem sabia por onde começar.
---
Do lado de fora, o vento começou a soprar com mais força.
Algumas nuvens escuras se formavam no horizonte.
A previsão do tempo dizia que uma nova chuva poderia chegar no final da tarde.
Lia olhou para o relógio novamente.
11h37.
Cada minuto parecia importante agora.
— Vamos sair daqui — disse ela.
— Para onde?
— Não sei ainda.
Mas ficar sentada esperando alguém morrer parecia impossível.
Sofia concordou.
As duas saíram da cafeteria e caminharam pelo campus.
Os corredores estavam mais movimentados agora.
Alguns estudantes se preparavam para a próxima aula.
Outros conversavam animadamente.
Lia observava cada rosto.
Cada pessoa.
Como se estivesse tentando identificar algum sinal de perigo.
Mas todos pareciam… normais.
— Isso é inútil — disse Sofia depois de alguns minutos.
— Talvez.
— Não podemos simplesmente vigiar todas as pessoas da universidade.
Lia sabia disso.
Mesmo assim, continuava olhando ao redor.
Até que algo chamou sua atenção.
Do outro lado do pátio.
O homem do autocarro.
Ele estava parado perto de um dos prédios.
Conversando com alguém.
Lia sentiu um arrepio.
— Sofia…
— O quê?
— Está vendo aquele homem ali?
Sofia seguiu a direção do olhar dela.
— Qual?
— O da camisa clara.
Sofia estreitou os olhos.
— Sim.
— Foi nele que derramei o café.
Sofia olhou novamente.
— Você acha que ele tem algo a ver com isso?
— Não sei.
Mas algo dentro de Lia dizia que aquele encontro não tinha sido por acaso.
O homem terminou a conversa e começou a caminhar.
E por um breve momento…
Ele olhou diretamente para Lia.
Um olhar rápido.
Mas intenso.
Como se a reconhecesse.
Como se soubesse algo.
Lia sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Ele está olhando para você — disse Sofia.
— Eu sei.
O homem desviou o olhar e continuou andando.
Desaparecendo dentro de um dos prédios da universidade.
Sofia virou-se para Lia.
— Isso foi estranho.
— Muito.
Lia colocou a mão sobre a mochila.
O terceiro bilhete parecia pesar mais a cada minuto.
A mensagem ecoava em sua mente.
A morte que precisa impedir está mais perto do que imagina.
Ela olhou novamente ao redor.
E pela primeira vez desde que encontrou os bilhetes…
Sentiu medo de verdade.
Porque se a mensagem estava certa…
Então alguém ali.
Muito perto dela.
Talvez estivesse vivendo as últimas horas de vida.
E Lia ainda não sabia quem.