Passar o tempo com Vincent era como viver em uma bolha. Com ele, eu não lembrava do meu passado e nada sobre o futuro me afligia. Cada instante juntos estava sendo vivido intensamente: fosse na troca de olhares, palavras, carinho ou saliva. Os dias da casa de campo estavam sendo inesquecíveis, mas aos poucos eu começava a sentir que o fim das férias se aproximava.
"Posso te fazer uma pergunta?" - Vincent disse enquanto caminhávamos em volta do lago.
"Claro." - respondi sorrindo.
"Você teve muitos namorados?"
"Oficialmente, apenas um."
"Então isso quer dizer que você se envolveu com outras pessoas?"
"Algumas, quando entrei na faculdade eu acabei conhecendo muitas pessoas, então…"
"Entendi, não precisa continuar..." - ele falou me interrompendo.
"Tudo bem…você tem curiosidade sobre mais alguma coisa?"
"Hm…na nossa primeira vez eu fiz alguma coisa errada?"
"Não, na verdade não tem um jeito certo ou errado de fazer. Quando nos envolvemos com alguém, isso é mais sobre o que ambos concordaram em viver do que sobre a forma que cada um deu prazer. Como posso explicar…"
"Você quer dizer que o que mais importa é o que os dois querem, certo?"
"Exatamente. E tudo o que fizemos foi em comum acordo, então não se preocupe sobre isso. Você me deu prazer e agiu como sentiu que deveria. Foi uma experiência incrível pra mim."
"Comigo também. Se a gente não tivesse vindo pra cá, não tenho ideia de como conseguiríamos passar tanto tempo juntos. Ser independente e ter a própria casa deve ser tão bom…não aguento mais morar com os meus pais. Embora eu goste do tempo que eu passo com o meu irmão, depois que ele entrou na faculdade, só volta pra dormir, então a gente quase não se vê."
"É ainda um pouco surreal saber que você é irmão dele. Eu sabia que o Ernesto tinha um irmão mais novo, mas ele nunca comentou o nome ou onde estudava. Foi uma boa surpresa, assim como ele, você é muito dedicado e estudioso."
"E você? Tem irmãos?"
"Não, sou filho único."
Raramente eu contava sobre a minha vida para meus colegas e amigos, eu preferia ouvi-los. Vincent parecia interessado em me conhecer, por isso sempre perguntava sobre os meus gostos, livros preferidos, lugares que eu queria visitar, comidas que eu não tinha experimentado ainda e assuntos sobre os quais eu nem tinha pensado ainda.
Sua inocência, ânimo e sinceridade me deixavam fascinado por ele. Ao contrário de mim, Vincent era muito mais comunicativo e emotivo, algo que eu não imaginava que me encantaria tanto.
Diariamente, acordávamos entre carícias e dormíamos entre beijos, mantendo um ritmo que deixava meu corpo exausto, mas satisfeito. A cada vez que dávamos ou recebíamos prazer, eu podia perceber o quanto Vincent estava se tornando experiente e sedento por mais momentos como aquele.
"Sabe, eu demorei um pouco para aceitar que gostava de você. O que eu sentia quando te via pessoalmente na escola era estranho, intenso, incômodo…ao mesmo tempo que eu queria correr para os seus braços, minha vontade era de tirar você da minha mente. Fico pensando se você notou os meus sentimentos…" - comentou Vincent.
"Eu estava um pouco confuso, acho que mesmo que eu visse alguns sinais de interesse da sua parte, eu preferi acreditar que era apenas a minha imaginação. Só que quando nos encarávamos…não tinha justificativa que me convencesse que não estava acontecendo algo entre nós."
"Me senti do mesmo jeito! E sempre que eu via você ensinando outros alunos ou conversando com a professora Agnes…nossa, eu nem sei explicar como eu me sentia. Principalmente porque eu sei o sucesso que você fazia na escola, todo mundo comentava sobre você."
"Sério? Eu não sabia disso…"
"Ouvi alunos e professores falando o quanto você era bonito e educado. Fiquei com ciúmes, confesso. Mas agora que estamos juntos, me sinto bem. Valeu a pena esperar, no fim das contas eu que conquistei o seu coração, embora a professora Agnes também tenha tentado."
"Do que você está falando?"
"Eu percebi a forma como ela olhava pra você. E sempre que vocês conversavam, ela não parava de colocar a mão no seu ombro, no seu braço. Sério, pra que ela fazia isso?"
"Somos amigos, ela estava sendo apenas gentil."
"Ainda bem…um dia ouvi ela conversando com alguém no telefone dizendo que ia sair com você. Eu sei que não é certo ouvir a conversa dos outros, mas não pude deixar de ficar próximo para tentar saber o que ela estava planejando. Acredita que ela comentou que ia tentar te beijar naquela noite? Quando ouvi isso, fiquei em pânico."
Vincent estava falando da noite em que levei Agnes até em casa. Até aquele dia, eu não sabia que ela tinha interesse em mim. Ter um outro ponto de vista daquela situação estava me deixando curioso e também chocado.
"Acabamos saindo naquela noite mesmo, ela bebeu bastante."
"Mas vocês se beijaram?" - Vincent questionou, mudando completamente a sua expressão facial. Ele estava nitidamente preocupado com a minha resposta.
"Não, na verdade ela nem tentou. Acho que desistiu. Só soube que ela estava afim de mim, quando eu a levei até o seu apartamento. Ela acabou me contando."
Quando terminei de falar, Vincent calou-se. Ele parecia irritado, talvez estivesse com ciúmes. Eu o abracei para tentar acalmá-lo.
"Ei, isso está no passado, além do mais, o que importa agora é apenas nós dois." - falei para mostrar a ele que Agnes não me interessava.
Vincent ainda parecia bravo, era a primeira vez que o via assim. Embora eu tenha achado que a nossa conversa sobre a Agnes tivesse terminado ali, à noite, depois que deitamos, Vincent perguntou novamente sobre ela.
"Você ficaria com ela, mesmo ela sendo sua colega de trabalho?"
"Bem, se eu me interessasse, provavelmente."
"Mas não tem problema se envolver com quem você trabalha?"
"Tem empresas que não permitem, mas no caso da escola, não tinha restrições sobre isso. Então nesse caso não teria problema."
"Ah, então não pode ficar com aluno, mas pode ficar com outro professor…"
"Vincent, do que você está falando?"
"Nada, deixa pra lá." - ao responder, Vincent virou-se de costas pra mim e adormeceu nessa posição. Eu estava começando a ver um lado dele que eu não conhecia. Tentei ignorar essa situação e voltei a dormir como se não tivéssemos tido aquela conversa.
Um dia, acordei bem cedo e decidi caminhar um pouco sozinho. Faltavam apenas alguns dias para voltarmos para a cidade, e por mais que eu não quisesse, precisava começar a pensar no que fazer quando isso acontecesse.
Vincent e eu tínhamos construído um vínculo forte, intenso e totalmente diferente dos meus outros relacionamentos. Ele parecia destemido em se envolver comigo. De certa forma, eu o invejava, ele era uma pessoa capaz de amar sem freios. Mas será que eu poderia lidar com a intensidade dele?
Enquanto estávamos convivendo ali todos os dias, conseguíamos nos entender. Só que a vida lá fora era muito diferente: não nos veríamos mais com frequência. Agora que ele tinha terminado a escola e eu não sabia se aceitaria ser professor efetivo, o nosso futuro era incerto.
Eu tinha prometido a mim mesmo que depois do meu último término, eu só me envolveria sério novamente com alguém se eu tivesse estrutura financeira para tirar minha mãe da casa do meu pai. Mas naquele momento, meu salário só pagava o meu aluguel e eu não tinha certeza do futuro que eu queria ter com Vincent.
Meus sentimentos por ele eram sinceros e fortes. Eu não tinha dúvidas do quanto eu estava apaixonado e de que estar naquela casa de campo tinha sido a melhor escolha que eu tinha feito. Mas o que eu poderia oferecer para ele depois de voltarmos para a cidade?
Vincent precisava focar-se na faculdade, e eu no meu mestrado. Eu sabia como era estar apaixonado: uma montanha-russa diária, que durante os dias bons é a maior motivação, e nos dias ruins, arruina todos os planos. Eu não queria mais lidar com esse tipo de situação em que brigas e discussões surgiam quando havia um imprevisto ou um desentendimento.
Não, eu não podia assumir um relacionamento com Vincent. Na verdade, eu nem mesmo sabia se ele ia querer me ver novamente depois daquela viagem, então talvez eu nem precisasse me preocupar com isso. É, eu estava pensando demais. A única coisa que eu precisaria fazer era voltar da caminhada e conversar com ele sobre o que eu estava pensando: poderíamos ser amigos ou no máximo nos vermos de vez em quando se fosse bom para ambos. Assim poderíamos manter o vínculo sem nos preocuparmos demais um com o outro.
Caminhei de volta para a casa, imaginando que ter essa conversa com ele seria como tudo até aquele momento: uma troca de ideias entre duas pessoas maduras. Abri a porta.
Ele veio até mim correndo e me abraçou apertado. Eu não sabia o porquê dele estar daquele jeito, por isso, o abracei e esperei que ele se acalmasse para me contar o que estava acontecendo.
"Você está bem? O que houve?" - questionei sentando-me de frente para ele. Vincent estava com os olhos inchados, ele com certeza estava chorando.
"É só que…está começando a cair a ficha de que isso não é um sonho. Até ontem à noite eu estava fingindo que todo dia seríamos felizes como estamos sendo até agora. Mas quando acordei hoje e não vi você ao meu lado na cama…entendi que essa seria a realidade daqui a alguns dias. Senti uma tristeza e um desespero tão grandes, que só consegui parar de chorar quando você chegou."
"Vincent, não precisa ficar assim…eu sei que não conseguiremos dormir juntos todos os dias mais, mas poderemos nos ver ainda."
"E se depois que voltarmos pra rotina, o nosso sentimento mudar? A gente teve que viver tanta coisa para ficarmos juntos, não quero perder o que temos…"
"Eu entendo você, antes eu também tinha medo de perder a pessoa que eu amava ao longo do tempo. Mas eu percebi que o melhor que podemos fazer quando gostamos de alguém, é aproveitarmos ao máximo o tempo com essa pessoa. O futuro sempre é incerto, mas o esforço de ambos para ficarem juntos que fará a diferença."
"E se você se interessar por outra pessoa? O que vai acontecer?"
"Isso pode acontecer…mas não só comigo, com você também."
"Então você quer dizer que se apaixonar é assim? A gente acha que encontrou o amor da nossa vida, mas na verdade pode ter sido só uma aventura?" - as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Vincent. Sequei-as com as pontas dos meus dedos.
"Vincent…você não foi e não é uma aventura pra mim. Cada instante desde que eu te conheci tem sido a melhor parte da minha vida. Receber os seus sentimentos através de gestos e palavras foi algo tão intenso e importante pra mim, que sem dúvidas nunca vou esquecer. Então não pense demais, ok? Não vai ser qualquer coisa ou qualquer pessoa que vai mudar o que sinto por você.
Não posso te perder."
Ver Vincent chorando acabou comigo. Eu estava tentando ser racional e consolá-lo, mas naquela noite, enquanto ele estava dormindo nos meus braços, não pude deixar de pensar na conversa que tivemos.
Eu não podia magoar Vincent, mas eu também não conseguiria corresponder às expectativas dele. Se continuássemos nos envolvendo após aquela viagem, seria muito pior. Era preciso terminar no último dia de viagem o que começamos na primeira vez que nos vimos.
Sem conseguir dormir e pensando em como pôr um fim à nossa história, me levantei da cama e fui até a janela, encarando a paisagem escura. Meu coração, que antes estava repleto de paixão e ânimo, agora estava começando a ficar pesado. Só de imaginar Vincent chorando novamente, eu não conseguia falar.
Distraído com meus pensamentos e apoiado no batente da janela, não percebi que ele tinha acordado. Senti o toque das suas mãos sobre as minhas. Ele olhou para mim com o olhar preocupado.
"Dimitri…está tudo bem?"
Respondi com um beijo longo e demorado. Eu precisava aproveitar o tempo que restava para sermos felizes juntos.