Liguei para Vincent três vezes. Nas duas primeiras, chamou até cair, mas eu não quis desistir.
"Alô…?" - ouvi a sua voz sonolenta e baixa quando já estava abrindo a porta do meu apartamento. Tranquei rapidamente a fechadura e fui direto para o quarto, me sentando na cama.
"Vincent? Consegue me ouvir?"
"Sim…quem é?"
"É o Dimitri…você me ligou e mandou uma mensagem. Está tudo bem?"
"Ah, Dimitri. Achei que você não queria falar mais comigo, por isso não atendeu minhas ligações…eu já estava quase apagando o seu número." - Vincent estava falando devagar e com uma voz sonolenta. Ele parecia muito mais embriagado do que eu. Suas frases eram longas e sem sentido.
"Você está sóbrio?" - perguntei para checar se a minha suspeita estava correta.
"Não muito, e você?"
"Bebi um pouco hoje à noite também. Aconteceu alguma coisa?"
"Sim…meu namorado e eu brigamos de novo. Ele saiu daqui de casa batendo as portas. Eu estava tão irritado com ele, que só virei a garrafa de vinho que ele deixou pela metade. Quando vi, já estava te ligando, e ainda nem sei por que."
"Mas você está bem?"
"Não sei…eu só me sinto péssimo, como se estar com ele fosse um erro. Ele era tão doce no começo…mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde as brigas iriam começar. Ele nem completou vinte anos direito, não sabe nada sobre a vida."
Aparentemente, Vincent tinha me ligado porque estava bêbado e chateado. Ele não tinha mesmo a intenção de falar comigo. Na verdade, imaginei que apenas embriagado ele tivesse coragem de me procurar. Eu não sabia como me sentir em relação àquela situação. Eu fiquei feliz e surpreso ao receber notícias dele, mas ao descobrir que Vincent só estava chateado com o namorado, me senti decepcionado.
Raramente eu dava conselhos aos meus amigos, principalmente sobre assuntos amorosos, mas pensei que Vincent precisava de algum tipo de conforto. Além do mais, eu deveria aproveitar aquela oportunidade de falar com ele novamente.
"Espere até amanhã para conversarem novamente. Tenho certeza de que após uma noite de descanso vocês estarão mais calmos para resolver os problemas."
"Você está certo. E me diz você, está namorando?"
"Não…já faz um tempo."
"Droga, por que estou fazendo essa pergunta? Eu não quero saber se você está com alguém, eu não quero saber nada sobre você."
À medida que conversávamos, Vincent me fazia perguntas sobre a minha vida e em seguida continuava mudando de opinião. Eu preferi deixá-lo falar, senti que ele poderia estar querendo apenas desabafar.
"Vincent, você continua bebendo?"
"Sim, estou. Você ouviu o gole que eu dei? Estou com tanta sede."
"E se o seu próximo gole for água?"
Saber que Vincent continuava bebendo estava me deixando preocupado. Eu não queria que ele ficasse com uma forte ressaca ou que no pior caso entrasse em coma alcóolico. Ele parecia chateado o suficiente para querer afogar todas as mágoas na bebida.
"Tudo bem, tudo bem." - ele concordou, falando ainda mais devagar e de uma forma que era difícil de entender. Sua dicção estava quase incompreensível.
"Talvez seja melhor dormir agora, podemos continuar a nossa conversa amanhã. "
"Já está me dispensando, Dimitri? Mesmo depois de tanto tempo sem a gente se falar?"
"Não estou te dispensando…eu só quero que você fique bem e que amanhã possa se lembrar do que conversamos sem arrependimentos."
"Ok, vou desligar…mas só quero dizer uma coisa antes. Desde o dia que peguei o seu número, estava pensando se deveria te ligar. Eu fiquei com tanta raiva quando te vi no lançamento do meu livro…você apareceu no meio de todas aquelas pessoas como um fantasma. Quando te vi, não consegui nem me concentrar nos autógrafos mais. Se não bastasse a sua presença para me perturbar, no momento em que você saiu da fila, tive vontade de chamar o seu nome pelo microfone. Eu queria saber por que você estava ali, estava querendo me espionar? Sério, quase perdi a cabeça. Então nos vimos no banheiro…e você tentou me evitar. Eu peguei o seu número porque eu queria saber o motivo para você ir até a livraria. Por que você quis me procurar depois de tanto tempo sem aparecer? Foram dez anos que você me deixou sem notícias, Dimitri. Dez anos sem querer saber o que tinha acontecido comigo, se eu estava vivo. Se não bastou todo o sofrimento que você me causou no passado, achou que seria uma boa ideia me fazer sofrer novamente no presente?"
"Vincent, sinto muito, eu…"
"Não, me escute. Eu não sei o que você quer de mim, tudo o que eu podia dar a você, eu dei…todos os meus sentimentos, a minha amizade, a minha sinceridade…Dimitri, eu te entreguei a minha inocência e a minha pureza…o mínimo que eu esperava em troca era que você não me abandonasse. Depois que você parou de me responder, eu te procurei em todos os lugares. Você foi capaz de mudar de apartamento e sair da escola só para não me ver mais…sério, que tipo de pessoa faria isso com a outra?"
Percebi que enquanto Vincent falava, ele começou a soluçar. Eu não conseguia ver, mas podia sentir suas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Eu deveria escutar tudo o que estava preso em sua garganta durante todo aquele tempo. Eu não podia fugir das consequências que meus atos trouxeram para a vida de Vincent. Ouvi-lo era o mínimo que eu deveria fazer por ele.
"Fiquei meses sem sair de casa. Até os meus pais, que não davam a mínima pra mim, ficaram preocupados. Eu não sei o que seria de mim sem o meu irmão. Se não fosse ele pedindo paciência aos meus pais e cuidando de mim, eu nem sei onde eu estaria. Dimitri, as feridas que você abriu no meu peito naquela época demoraram muito para cicatrizar. Fiz terapia, tomei remédios e tudo o que eu podia para lidar com o sentimento de abandono, mas eu nunca mais fui a mesma pessoa. Escrever um livro sobre o que eu sentia foi a forma que encontrei de botar para fora todo o arrependimento que eu vivi por ter te conhecido. Se eu pudesse voltar no passado, eu voltaria só para me impedir de falar com você."
"Vincent…eu realmente sinto muito. Eu nunca vou me perdoar pelo que fiz você sentir. Se eu pudesse, eu faria diferente…mas já que não posso mudar o passado, só quero que saiba que me arrependo de todo o sofrimento que eu te causei."
Comecei a sentir minha garganta se fechar e meus olhos lacrimejarem. Saber o que Vincent tinha vivido depois que eu sumi estava me colocando em um poço sem fundo. Eu não merecia nada de Vincent, nem as suas palavras.
"Isso é passado agora, mas eu quero saber…por que você voltou? Por que depois de tanto tempo você está me assombrando?"
"Eu…encontrei o livro que você me deu na última vez que a gente se viu…e pensei que eu deveria te procurar e pedir desculpas."
"Se você queria se desculpar, então por que desistiu de falar comigo no evento…?"
"Eu achei que eu não tinha o direito de te procurar novamente…percebi isso só quando te vi pessoalmente."
Vincent parou de responder.
"Vincent? Está me ouvindo? Vincent?"
Desliguei a chamada e liguei de novo, mas ele não atendeu. Imaginei que ele tivesse adormecido enquanto conversávamos. Eu não queria pensar o pior. Mandei uma mensagem para o seu número.
"Por favor, assim que acordar, me avise. Pode ligar ou mandar mensagem, só quero saber se está tudo bem."
Olhei para o celular antes de decidir dormir. Tínhamos conversado por quase três horas sem parar. Finalmente eu sabia o que Vincent pensava sobre mim. Adormeci me sentindo a pior pessoa do mundo.