Eu sou um vampiro

1302 Palavras
Quando o resto da banda foi embora, Dalilah observou Nikolas com certa expectativa. Contudo, para a agitação dela, ele não fez nada do que disse que faria e apenas a fez sentar no sofá, deitou com a cabeça nas pernas dela e ligou a televisão num filme antigo, que era Drácula de Bram Stoker. Era a cena do casamento de Mina com Jonathan, interpretado por Keanu Reeves. Ele ficou assistindo ao filme. Dalilah o contemplou assistindo ao filme com a cabeça repousada nas pernas dela e com o resto do corpo estirado no bonito sofá preto. Incerta, acariciou o cabelo escuro e macio dele. O olhar dele encontrou o dela. Niko ergueu a mão para tocar o rosto dela e, quando alcançou, afagou a bochecha da menina com o polegar. — Está cansada, querida? Sou muito perfeccionista, não sou? Desculpe. Mas sua voz ganhará ainda mais extensão vocal. — Sendo honesta, não achei que existisse tanta disciplina numa banda de rock. Eu acho que esperava o que vendem na televisão — brincou Dalilah, realmente impressionada, a voz dela cansada e mais rouca que o habitual. Ela ia fazer um chá e beber água quente para acalmar a garganta. — Mas eu gosto. Mostra que a fama de vocês foi construída porque se esforçam de verdade. Antes eu julgava sem saber como todos vocês se empenharam. Achei que só se drogavam, bebiam e usavam os seus rostos bonitos como moeda de troca com o mundo. Peço desculpas pelo meu equívoco. Dalilah pegou a mão pálida dele, com dedos grandes e magros, e a beijou devota, sem se entender. Nunca Miranda agiria dessa forma que você age. Eu gosto muito mais de você do que dela, Niko pensou. — Sou louco por você. — Deixou escapar de repente, num pensamento em voz alta, e respirou fundo. — Eu realmente te aprecio e te respeito. Você não é só alguém com quem durmo para me saciar. Realmente gosto de você e do seu jeito amável. Você é uma boa menina, só sofreu muito, Dalilah. Mas agora está segura comigo e serei tudo o que precisa que eu seja. Não posso ser seu anjo de luz, mas espero que me aceite mesmo sendo seu guardião das trevas. Dalilah sentiu o coração bater mais rápido ao analisá-lo, e os olhos azul-esverdeados dela encontraram os escuros dele. Ela sorriu encabulada, ficando com as bochechas vermelhas. Mas acusou, sentindo um gosto amargo na boca: — Bem, hoje no ensaio, o tal de Ian não tirava os olhos de você. Ele parece gostar de você… ele é bonito. Você disse que gosta de homens também… — Besteira, Dalilah! Ian é só uma criança caprichosa que não sabe ter “não” como resposta. Ele não faz o meu estilo e é como um irmão mais novo irritante e atrevido. — Brincou Nikolas. — Seja fiel a mim e eu serei a você, querida. Sempre. Mesmo que nós dois achemos homens e mulheres atraentes, isso não isenta que temos um relacionamento e somos um do outro. Dalilah ofegou, impactada por não ser apenas uma transa. Ela o beijou e mordeu a própria língua, oferecendo o seu sangue a Nikolas, como via sua avó fazer quando ofertava sangue de animal aos espíritos malignos para acalmá-los e impedi-los de ferir humanos. Nikolas levantou a cabeça do colo dela de súbito, surpreso pela oferta de sangue. Quando pararam o beijo de língua, regado a saliva e ao gosto metálico de sangue, que para ele era ambrosia, Nikolas contemplou Dalilah, entendendo o quão sombria ela era ao aceitar um demônio como ele. — Você resolveu a sua vida enquanto eu dormia, meu doce amor? — sondou ele, passando os dedos pelo cabelo dela como se fossem um pente. — Me matriculei na universidade e dei um tour nela. Fui ao Walmart e comprei algumas coisas que faltavam na sua geladeira. — Respondeu ela, tímida pelo modo carinhoso que ele falava com ela. — Winston disse que ia me arranjar um carro novo, mas eu gosto do meu pelo valor sentimental. Comprei uma mochila e algumas coisas para as aulas da faculdade e vou começar amanhã mesmo. — Bom. — Respondeu Niko. — Deve se esforçar em ter boas notas. Quero que tenha outras opções na vida além da música. Acariciou a bochecha dela. Ela roçou o nariz no dele e respirou fundo. — Querido… — chamou ela. Niko sentiu o seu corpo frio parecer esquentar, mesmo que fosse um fenômeno mais psicológico que físico. — Sim, meu bem. — Respondeu Nikolas, também carinhoso e hipnotizado pela beleza dela. Não mais só por ela ser parecida com Miranda, mas pelo jeito indomável, porém extremamente carinhoso dela. Como se ele criasse uma leoa que o respeitasse. — Estou ciente de que, na faculdade, não devo sair com ninguém… devo dizer que tenho namorado… você se importa que eu diga, mesmo que eu seja só alguém com quem você fode ocasionalmente? — Deve dizer que tem namorado. — Disse Nikolas, sinistro. Dalilah estremeceu inteira quando notou a voz dele ficar mais rouca e obscura. Nikolas decidiu de repente: — Eu vou dizer para Winston fazer uma coletiva de imprensa. Vou te assumir como minha namorada para o mundo e te apresentar como nova vocalista do Sangria. Dalilah nunca imaginou que passaria de uma f**a ocasional para Raven. Estava muito inquieta. Aquele era o pedido de namoro mais doentio da história. Por que ele era tão determinado em ter uma boneca quebrada como ela? Estava muito comovida. — Querido… — Hm… — Winston trouxe suas bolsas de sangue. Ele disse que são puras e mandou te dizer que não vai mais vacilar de novo. Nikolas gelou. Por que ela falava com tanta tranquilidade? — Você não sente medo de absolutamente nada? — questionou Nikolas, angustiado. Ele a havia mordido na noite passada. Agora as bolsas de sangue, e ela não fazia ou dizia nada. — Sangue é bom? É algum pacto satanista? Você bebe o sangue ou faz oferta a demônios? — brincou ela. — Eu fui da igreja, mas não julgo. Já vi minha vó ofertar e barganhar com pessoas que se diziam possuídas. Mas era para fazer os diabos não ferirem as pessoas. — Eu estou simplesmente incrédulo até agora. — Você é um astro do rock, acho que eles são sempre bizarros. — Você escutou as letras das minhas músicas, Dalilah? Dalilah moveu a cabeça num sim. — Querida, eu realmente sou um vampiro. Eu bebo sangue. — Enfatizou Nikolas, querendo alertá-la e assustá-la. — Eu sou o meu próprio demônio e não terceirizo a culpa. — Hm, querido. Você leva esse lance de vampiro bem a sério, não leva? — Isso não assusta você? — inquietou-se ele. — Minha avó é meio louca também e se diz benzedeira e bruxa, Nikolas. Ela já fez muita coisa estranha na minha frente. Você beber sangue não é nada demais se não for direto da fonte ou transformar alguém em cadáver na minha frente. — Me pergunto o que sua avó já fez na sua frente para você não temer alguém que bebe sangue humano… — Ele realmente estava horrorizado. — Ah, ela já dançou nua em frente a uma fogueira, já arrancou a cabeça de uma galinha preta com os dentes e bebeu o sangue. Já matou um cordeirinho e bebeu o sangue também. Já me fez ver ela fazendo um parto no interior e guardando a placenta e o cordão umbilical da criança para fazer feitiços. Ela que fez meu aborto e guardou o feto. Acha mesmo que isso de você brincar de vampirismo me assusta? Pelo menos você está nas bolsas de sangue e não matando humanos como nas suas músicas… — Eu sou perigoso. Sou mesmo capaz de matar. É sério, Dalilah.
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