Passado os dias de experiência no restaurante e Buffet o Nicolau me convidou para conversar e falar sobre meu pagamento e me explicou de uma maneira bem simples de entender.
- Trabalhe e receba. Se tiver disposição para as noites no restaurante e os serviços no Buffet você vai receber de acordo com a sua jornada. No restaurante você ainda tem as gorjetas que serão o retorno do seu atendimento. Nossos clientes costumam ser generosos.
Fiquei feliz ao ouvi-lo.
- Temos serviço de quarta a domingo no restaurante. E no Buffet temos uma agenda diferente que você pode acompanhar no quadro dos colaboradores. O que você não deve fazer é me deixar na mão. Porque quando um colaborador começa faltando ao serviço eu substituo rápido.
- Entendi.
- Caso tenha algum problema ou compromisso inadiável você pode ligar para o restaurante e comunicar sua ausência a Camila ou a Antônia. A Camila também é responsável pelo pagamento toda segunda-feira, sempre pagamos em cheque por segurança. Tem dúvidas?
- Não, nenhuma.
- Volte amanhã para pegar seu primeiro pagamento. Agora pode ir.
Levantei sorrindo e como ele não estendeu a mão para me cumprimentar só saí da sala e fui procurar pela Antônia que estava descarregando algumas caixas da Vam.
- Oi. Posso ajudar?
Aproximei-me dela que sorriu.
- Ajuda é sempre bem vinda. Como foi com o meu tio?
- Tudo certo. Amanhã venho receber pela primeira semana de trabalho. Pensei que não fosse ganhar nada agora.
Ela riu de mim.
- Com o Nicolau é assim você trabalha e recebe. Porque acha que faço tanta hora extra?
- Agora entendi.
Rimos juntas.
Depois de descarregar a Vam ela me ofereceu uma carona e no caminho nós duas paramos para tomar um café e eu acabei bebendo três doses de whisky que me deixaram leve, tanto que quando cheguei ao apartamento tomei um banho demorado, me perfumei e fui até a cama da Lauren que estava dormindo à vontade só de calcinha e camiseta.
- Errou o sofá Joana?
- Estou sentindo falta de contato.
Afirmei rindo.
- Mudou de ideia em relação à regra boba de não f********o com uma amiga?
- Não mudei de ideia. Só quero ficar perto de você. Posso?
Ela sorriu e deitou colocando uma das pernas por cima das minhas.
- Sinto que logo você vai esquecer essa regra.
Sussurrou perto do meu ouvido e eu fiquei excitada, mas me comportei e apenas sorri.
Dormi rápido e quando acordei observei a Lauren dormindo com os cabelos bagunçados de um jeito sexy e sorri ao pensar que a italiana era o próprio anjinho da tentação. Levantei da cama sem fazer barulho e quando estava terminando de me trocar pra ir fazer a minha atividade física diária olhei para o mezanino e dei um sorriso ao vê-la descendo a escada com sono.
- Você precisa abrir os olhos pra não sofrer um acidente Lauren.
Chamei a atenção dela que sorriu.
- Estou acostumada a descer assim. Você chegou carente ontem. Aconteceu alguma coisa?
Dei risada.
- Não posso querer dormir perto da minha melhor amiga italiana?
Ela riu.
- Quantas amigas italianas você tem só pra saber se tenho risco de perder posição no ranking?
- Amiga italiana só você. Se bem que você é mais que uma amiga e um anjo na minha vida!
- Joana você não pode chegar querendo meu calor sem me oferecer nada em troca.
Ela chamou minha atenção e eu dei risada.
- Ofereci o meu calor também Lauren, mas se abusei da sua boa vontade não faço mais isso.
Sorrindo ela me abraçou.
- Quanto você bebeu ontem?
Questionou olhando nos meus olhos.
- Três doses de whisky e nada mais.
- O que será que acontece seu eu trouxer uma garrafa para bebermos juntas?
Provocou-me.
- Por uma questão de segurança é melhor não fazermos esse teste.
Sorri beijando a testa dela.
- Vou correr e trago o pão recheado que você gosta, porque eu sou uma ótima amiga!
Brinquei com ela que ficou rindo.
- Não demora muito que eu estou com fome e fico com saudade. Vou voltar pra cama e dormir com seu travesseiro sentindo seu perfume que estimula minha imaginação.
- Agora entendi porque sempre flagro você com meu travesseiro.
Afirmei dando risada.
- Não sorri e me olha desse jeito que é s*******m.
Ela disse s*******m em português pra brincar comigo.
- Prometo voltar rápido.
Sai apressada e corri dois quilômetros para começar o dia, parando apenas para beber água e comprar os pães na delicatessen que a Lauren mais gostava. Aproveitei e levei uma geleia para provarmos juntas e ao voltar preparei o café e fui servi-la na cama.
- Sem sexo mais com café na cama. Assim você me deixa confusa.
Ela brincou comigo e eu dei risada.
- Você merece um agrado Lauren. Desde que cheguei à Itália tem feito muito por mim.
- Você está com um brilho diferente nos olhos. É bom vê-la assim!
- Estou confiante de que a minha vida vai começar a melhorar de verdade.
Afirmei sorrindo e olhando nos olhos dela.
- Quando vamos comemorar bebendo uma garrafa de whisky?
Questionou brincando.
- Porque não pergunta quando vamos comemorar com sexo?
Sorri acariciando os cabelos dela.
- Podemos comemorar com sexo matinal?
Propôs lambendo e mordendo os lábios.
- Até agora tem funcionado bem sermos somente amigas. Não vamos estragar nossa relação com uma vontade que passa em um banho gelado.
Rimos uma para a outra e mudamos de assunto.
Enquanto nós duas conversávamos fiquei imaginando o que acabaria mudando na nossa relação se ficássemos juntas de uma forma mais íntima e apenas em pensar tive medo de perdê-la. A Lauren era a única pessoa que eu tinha por perto pra me apoiar e eu não queria estragar tudo com ela.
Após o café tomei um banho gelado e troquei de roupa para começar a minha jornada de trabalho. Passei o dia na gravadora e à noite fui ao restaurante receber meu primeiro pagamento. No dia seguinte durante o almoço descontei o cheque e depositei na minha conta junto com o que restava do dinheiro da venda do meu carro e do cheque presente da Yelena. Fiquei feliz em ver que a minha conta foi de quase zerada para uma boa reserva e isso me incentivou a trabalhar mais.
Dois meses com dupla jornada entre a gravadora e o serviço no restaurante e Buffet foram o suficiente para que eu finalmente começasse a comprar algumas coisas que precisava sem exagerar. Até comecei a sair uma noite ou outra com a Antônia ou com a Lauren pra jantar e beber até três doses de um whisky de qualidade.
Finalmente após oito meses na Itália sentia-me em casa e por estar mais confiante passei a trocar mensagens com a minha mãe, o Alex e o Otávio com certa frequência. Só não informei o meu endereço para nenhum deles porque não me sentia pronta para um encontro.
- Está considerando começar uma faculdade no próximo ano?
O Otávio me sondava sempre que podia.
- Se eu fosse promovida na gravadora pensaria em deixar o outro trabalho e começar uma faculdade, mas não tenho condições de trabalhar em dois empregos e ainda estudar. Sem contar que tem mais dois problemas. Um. Não sei o que estudar. Dois. Não tenho dinheiro ou crédito no banco pra ser aceita em uma faculdade.
- Como não sabe o que estudar? Turismo ou administração.
Dei risada.
- Otávio eu não estou aqui dando um tempo pra estudar e voltar para o Brasil. Não trabalho com turismo e tampouco tenho um negócio para administrar.
- Você pode trabalhar com turismo em qualquer lugar do mundo. Não negue que sempre foi o seu desejo fazer esse curso. Independente da empresa da família devia ao menos considerar.
- Quem sabe no dia que o meu crédito no banco permitir. Até lá eu vou continuar trabalhando e recebendo exclusivamente por meu esforço. A mamãe sempre me pergunta qual é a minha conta porque ela quer mandar dinheiro. Vocês não entenderam que abri mão desse privilégio e isso inclui ser ajudada a entrar em uma faculdade.
- Quanta teimosia sem necessidade Joana. Você tem seus direitos querendo ou não. E os seus pais também sabem da obrigação deles.
- Ah sabem? Então espero que sejam melhores com o Alex do que foram comigo!
Falei irritada.
- A nossa conversa mudou totalmente de tom.
Ele observou.
- Realmente. Melhor encerrarmos por aqui e falamos em outro momento.
- Antes não quer notícias da Maria?
- É claro que eu quero.
- A Maria vai se formar no próximo mês e eu estou articulando uma boa oportunidade de trabalho para ela e um estágio para a Bruna. As duas decidiram casar e me chamaram pra ir ao casamento e eu fiquei pensando que devia aproveitar a oportunidade para presenteá-las com um veículo.
- Você quer dar um carro de presente para elas?
- O Recife não é o melhor lugar do mundo pra você circular com uma cadeira de rodas.
Ao ouvi-lo engoli seco.
- A Bruna é mais resistente, mas no final ela aceita ajuda por se preocupar com a Maria.
- Eu não sei o que dizer. Até mesmo porque dizer que sou a culpada não muda nada.
- Só pra você saber a Maria não tem raiva de você. Ela me disse que entrou no carro porque quis e porque não pensou no que poderia acontecer.
- Isso não tira a minha culpa Otávio.
- Não. Não tira. Mas ajuda a Maria a seguir em frente. E se você falasse com ela...
O interrompi.
- Eu não consigo.
- Devia fazer um esforço pra encarar seus erros e parar de fugir deles.
Novamente engoli seco.
- Chega por hoje Otávio! Não precisa dizer mais nada eu sei das merdas que fiz.
- Meu intuito não é feri-la Joana. Fico preocupado com o que está fazendo da sua vida.
- Então me faça um favor e não se preocupe. Falamos novamente outro dia. Abraço primo.
- Abraço.
Encerramos a chamada de vídeo e depois disso eu passei o dia todo praticamente em silêncio até que no final de mais um serviço no Buffet eu sai pra tomar um Whisky com a Antônia e ela me contou uma novidade que era boa e triste ao mesmo tempo.
- Finalmente fui aceita no curso de gastronomia na França. Vou me mudar em algumas semanas pra começar a me familiarizar com o país, o idioma e o meu novo trabalho.
Contou sorrindo.
- Parabéns, você merece! Vai ser a melhor aluna desse curso. Tenho certeza.
Dei um abraço apertado nela.
- Sei que vou me esforçar muito a partir do próximo ano. Esse curso é tudo que eu mais quero na vida. Depois pretendo voltar para o Brasil e abrir meu restaurante. Quem sabe não conheço uma francesa e levo comigo para Maceió.
- Pensa em voltar pra perto dos seus pais?
Perguntei por pura curiosidade.
- Quero voltar para o Brasil e para o nordeste. Não porque penso em ficar perto dos meus pais. Inclusive poderia até abrir meu restaurante no Recife. Só não pretendo fazer minha vida na Europa, por mais que goste desse lado do mundo, sinto falta de casa.
Sorri e me emocionei ao ouvi-la falar.
- Você vai ser uma chefe incrível em qualquer lugar do mundo Antônia!
Novamente nos abraçamos.
- Só uma coisa. Você vai se mudar em algumas semanas?
- Duas semanas. Preciso levantar mais um dinheiro e a minha tia até ofereceu vender a lambreta pra me ajudar. A partir de amanhã vou visitar algumas feiras e oficinas atrás de alguém interessado em comprar.
- Eu compro. Quero ajudar você e ficar com uma lembrança dos nossos momentos juntas.
Declarei sorrindo.
- Está brincando comigo?
- Não. Você sempre me dá carona depois do serviço. Vou precisar de um transporte agora que vai embora. Vamos negociar um valor justo e que possa contribuir pra você seguir seu sonho.
Ela ficou me olhando e sorrindo.
- Faria isso por mim?
Sorri pegando na mão dela.
- Você me ajudou tanto que é o mínimo que eu posso fazer pra retribuir.
- Eu não me enganei quando disse que você é uma pessoa linda e de bom coração.
Dei um sorriso e segurei a emoção.
- Você nem foi embora e eu sinto sua falta!
Declarei acariciando os cabelos dela e dando-lhe um beijo colado.
Tentei não ser egoísta e pensar que perderia a companhia da segunda amizade verdadeira que eu fiz desde que cheguei à Itália, mas não consegui evitar esse sentimento. Não ter a Antônia no restaurante e no Buffet deixaria o trabalho realmente cansativo, porque de certa forma a presença dela era um estimulo a mais para mim.
Negociei com a Camila, um valor razoável pela lambreta e quando nós duas chegamos a um acordo eu fiz a transferência do dinheiro para a conta da Antônia e ela me entregou a documentação da moto que eu logo passei para o meu nome.
- Nunca pensei que fossemos ajudar uma a outra dessa maneira.
Disse a Antônia na véspera da sua partida para a França.
- Lei do retorno. Você colhe o que planta não é verdade?
Brinquei com ela.
- Trabalhe e receba. Faça o bem e colha o bem. Vou tatuar essas frases no meu corpo.
Declarou com um sorriso especial nos lábios; um sorriso de quem estava indo de encontro ao próprio destino e a realização de um sonho. Vendo esse sorriso e um brilho intenso nos olhos dela, finalmente deixei de ser egoísta e ficar triste por ter que me despedir de uma amiga e senti-me feliz por tê-la conhecido e por ter apreciado sua companhia por alguns meses.
No dia seguinte despedi-me da Antônia depois de tomarmos o café da manhã juntas e antes dela partir dei-lhe um abraço apertado, um beijo carinhoso e uma carta que escrevi de todo coração. Comecei a perceber que expressava melhor o meu afeto escrevendo do que falando.
Itália, 13 de Outubro.
Oi Antônia, você m*l partiu para a França e eu já me peguei pensando em como serão as minhas noites sem sua companhia. Sem dúvida vou sentir falta do seu sorriso, do olhar generoso e de descarregar caixas e mais caixas com você.
Nosso encontro foi uma bela surpresa. Você chegou à minha vida em um momento em que me sentia cabisbaixa, sem perspectiva de melhora e desde o nosso primeiro encontro minha mente começou a refletir sobre questões que eu não tinha me permitido parar e pensar.
Mesmo sem entender o meu sentimento de culpa, por não conhecer os fatos do meu passado recente, você foi generosa em cada palavra e opinião que me deu. Enxergar a bondade e o afeto através dos seus olhos me fez sentir ainda mais vontade de ser uma pessoa melhor e eu só tenho que lhe agradecer por isso.
O que tivemos foi especial e vai ficar marcado no meu coração. Vou sentir muito sua falta, mas sempre que me lembrar de você vou sorrir e também pensar no risoto com arroz n***o e manteiga de garrafa que me prometeu e que eu espero provar em seu restaurante um dia.
Que você trabalhe plantando bons frutos para colher e que possa receber o devido reconhecimento no futuro!
Atenciosamente: Joana B.