capítulo 2

1107 Palavras
Minha garganta se apertou. Eu queria continuar andando. Queria chegar à saída e nunca mais voltar. Queria sobreviver ao último dia sem sangrar. Mas Beverly deu um passo à frente. — Fico feliz — ela disse, alta e clara — que não vamos mais ter que lidar com a sua cara por aqui. Alguns alunos se viraram. Alguns diminuíram o passo, farejando entretenimento. Meu rosto queimou. Beverly se inclinou para perto, a voz escorrendo doçura. — Aí, agarrada nessa coisa como se importasse. Ninguém vai assinar isso, sabia? Fiquei olhando para o chão. — Você está destinada a ficar sozinha — ela continuou — como a v***a da sua mãe. Algo explodiu em mim, calor e fúria e humilhação, tão afiados que fizeram minha visão embaçar. Eu poderia ter batido nela. Poderia mesmo. Mas eu tinha prometido a mim mesma que sobreviveria hoje. Só sobreviveria. Então eu engoli. Ergui a cabeça só o suficiente para falar de maneira firme. — Por favor, saia da frente. Beverly sorriu como se eu a tivesse entretido. — Você é burra? — ela perguntou. — Não sabe falar direito? Ou finalmente percebeu que tudo o que temos dito é verdade? As amigas dela riram atrás dela. O corredor tinha formado um círculo frouxo agora, corpos inclinados para dentro, famintos. Tentei passar por ela. Ela não deixou. A mão dela disparou e me jogou de volta contra os armários. O metal bateu na minha coluna com um baque brutal. A dor explodiu pelas minhas costas. Eu arquejei, o ar saindo dos meus pulmões num jato áspero. E foi isso. O momento mudou. Eu vi nos olhos dela, ela não ia me deixar ir embora. Não hoje. Não no meu último dia. Ela precisava marcar aquilo. Precisava me mandar embora com um hematoma de que a alcateia pudesse se lembrar. Afastei-me do armário, minhas mãos tremendo, meu coração martelando tão forte que fez meus ouvidos zunirem. Dei um soco. Lento demais. Malditos reflexos humanos. Beverly desviou com facilidade e enfiou o punho no meu estômago. Uma dor incandescente me rasgou. Eu me dobrei com um som estrangulado, a bile subindo rápido. Tossi, engasgando, sentindo um gosto azedo e metálico. Ela agarrou meu ombro e me empurrou para baixo. Meus joelhos bateram no chão. O corredor se inclinou. As risadas cresceram como uma onda. — Fica no chão, Moonchild! — alguém gritou, como se estivesse me dando um conselho útil. Eu deveria ter ficado no chão. Teria sido inteligente. Mas alguma coisa em mim, alguma coisa teimosa e tola, se recusou. Eu me ergui, tremendo, a respiração irregular. A bota de Beverly acertou minhas costelas. A dor explodiu tão forte que roubou minha visão por um segundo. Caí de novo, o ar saindo de mim num chiado. Risadas. Outro chute. Tentei me levantar. Outro chute. Meu corpo gritava. Meus pulmões queimavam. Minha boca se enchia de sangue. Mesmo assim, forcei meu corpo a se erguer, lágrimas ardendo nos meus olhos, não de fraqueza, eu disse a mim mesma, mas de dor. Da pura traição do meu próprio corpo. Ninguém ajudou. Instrutores passaram pelo fim do corredor e desviaram o olhar. Alunos assistiam como se aquilo fosse normal, como se fosse tradição, como se fosse o que o sangue de pária merecia. E então ouvi a voz dele. — Para, Beverly. Kieran. O som dele atravessou meu corpo como uma flecha, afiado, direto no coração. Beverly congelou no meio do movimento, o pé pairando no ar como se estivesse decidindo se conseguiria dar mais um chute antes de obedecer. Ergui a cabeça, a visão embaçada, e o vi entrando no círculo. Alto. Imponente. Bonito do jeito que os lobos eram bonitos, perigosos e adorados. O alívio me inundou com tanta força que quase me deixou tonta. Ele está aqui. Ele viu. Ele vai, , — Você está tentando matá-la? — Kieran perguntou, a voz marcada pela raiva. Por um momento, achei que a alcateia fosse mudar. Que o ar fosse mudar. Que alguém finalmente fosse lembrar que eu era uma pessoa. Beverly soltou um som de desprezo. — Ela não sabe qual é o lugar dela. Kieran se aproximou. Eu só conseguia ver claramente as pernas dele de onde eu estava caída, mas eu conseguia senti-lo, o cheiro dele, a presença dele, a forma como meu corpo inteiro reagia como se ele fosse a única coisa real na sala. Ele se abaixou. A mão dele se fechou em volta do meu braço. Gentil. Tão gentil que doeu mais do que os chutes. Ele me ajudou a levantar, e meu corpo se inclinou na direção dele automaticamente, desesperado por apoio, desesperado pelo único lugar seguro que eu já tinha conhecido. Estendi a mão para ele. E ele se afastou. Não com violência. Não com nojo. Só... rápido. Preciso. Como um homem se lembrando de onde estava. Beverly riu, aguda e brilhante. — Você não devia tocar nisso, Kieran. Vai pegar alguma coisa. Mais risadas vieram em seguida, cruéis e satisfeitas. Olhei para ele através de lágrimas que eu não conseguia mais segurar, lágrimas de dor, lágrimas de humilhação, esperança morrendo em tempo real. Kieran não olhava para mim do jeito que olhava para mim à noite. Ele não tocou meu rosto. Ele não disse: Ela é minha. Ele não disse: Parem. Ele não disse nada que expusesse o que éramos. Em vez disso, ele disse, seco e controlado, — Vá para casa. Duas palavras. Não Nyra. Não Você está bem? Não Me desculpa. Só: Vá para casa. Então ele se virou e foi embora como se eu fosse uma estranha. Como se ele só tivesse interferido para parar uma confusão. Como se não tivesse me beijado no escuro e me prometido para sempre. As risadas o seguiram como aprovação. Fiquei ali, cambaleando, com sangue na língua, meu anuário amassado contra o peito, meu corpo pulsando de dor, meu coração se partindo em silêncio onde ninguém podia ver. E me perguntei, realmente me perguntei, pela primeira vez em quatro anos... Até quando ele ia continuar fingindo? Até quando ele ia continuar me amando nas sombras e me abandonando à luz do dia? Porque ele não tinha me rejeitado. Ele tinha me mantido. Tinha ficado comigo. Tinha tomado pedaços de mim por quatro anos e os guardado nos lugares secretos dele. Então eu não entendia. Eu não entendia mais nada. Saí cambaleando do corredor com as pernas trêmulas, e o único pensamento ao qual eu conseguia me agarrar, a única coisa que me impedia de desabar completamente, era o próprio vínculo. A Lua não comete erros, eu disse a mim mesma. O destino não une almas por nada.
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