A sala era ampla, sofisticada e fria. Como um escritório de luxo preparado para negócios que ninguém ousaria discutir em público.
Maya sentou-se à mesa de vidro com a coluna ereta, mas o coração acelerado. Os dedos, mesmo firmes, tremiam levemente ao segurar a caneta dourada. O contrato à sua frente era claro: 12 meses. Sigilo absoluto. Disponibilidade completa ao comprador. 50% adiantado. Os outros 50% ao final do acordo.
Ela não sabia o nome dele. Ainda.
Mas a voz…
A voz a havia atravessado como um raio.
Firme. Grave. Precisa.
E doeu.
Porque só uma voz a fazia se sentir assim.
Só uma voz fazia seu corpo trair seu orgulho.
Raul.
Não podia ser. Não devia ser. Mas… era.
Os advogados explicavam os termos em linguagem jurídica enquanto Maya tentava manter a postura. O cheiro do couro, o silêncio denso da sala, os olhares formais; tudo parecia distorcido desde o momento em que aquela voz foi ouvida.
Do outro lado da parede envidraçada, Raul assinava com mãos firmes. Não olhava para ela ainda. Não agora. Saboreava a espera. Saboreava o domínio.
Daniel apareceu no corredor antes que as portas se fechassem.
Com um sorriso que misturava arrogância e frustração.
— Raul…
Começou com voz baixa.
Passe ela pra mim. Nem a viu ainda. Podemos fazer um acordo. Dobro o valor, se quiser.
Raul nem se virou completamente.
— Aceita que perdeu.
Respondeu, com um meio sorriso frio.
— Eu não revendo o que comprei. Ainda mais quando é única.
Daniel travou a mandíbula, mas recuou.
Sabia que havia perdido.
E o pior: para o único homem que ele odiava com tanto fervor quanto inveja.
A porta se abriu com um clique sutil.
Maya levantou lentamente. O véu já não cobria seu rosto. O vestido simples agora parecia ainda mais revelador diante da presença dele. E quando os olhos de Raul tocaram os dela… foi como se o mundo parasse por um segundo.
— Maya.
A voz dele soou como um trovão abafado.
Ela recuou um passo. Mas não de medo; de fúria contida. De descontrole.
— Você…
A palavra morreu em sua garganta.
— Você está se vingando de mim?
Raul caminhou até ela devagar, os olhos cravados nos dela como uma lâmina afiada.
— Eu não preciso me vingar, Maya.
Disse, a voz baixa, mas repleta de algo antigo e perigoso.
— Eu comprei.
Ela respirou fundo, tentando não ceder à raiva. Nem ao calor que já subia por dentro.
— Isso é nojento, Raul. Você acha que pode me possuir como um objeto?
Ele se aproximou mais. A ponto de ela sentir o cheiro amadeirado familiar.
Tão dele.
Tão maldito.
— Você se vendeu, Maya.
Ele rosnou, rente à sua boca.
— Agora… eu vou aproveitar a minha compra.
Ela ergueu o rosto com o queixo erguido, desafiadora.
— E se eu disser que não quero?
Ele sorriu. Não aquele sorriso de antes. Mas um sombrio, c***l e… faminto.
— Quem disse que desejo tem a ver com querer?
— Isso aqui…
Ele tocou o contrato dobrado em seu bolso.
— … é sobre cumprir.
E eu pretendo aproveitar cada cláusula.
Maya tremeu. Mas não de medo.
De raiva.
De desejo.
De lembrança.
Eles estavam a um centímetro do passado.
E a milímetros do que viria a seguir.
Maya tentou se manter firme.
As palavras dele ainda queimavam nos ouvidos.
“Você se vendeu… agora vou aproveitar a minha compra.”
Ela queria bater nele. Gritar. Cuspir cada ferida que guardou nos últimos anos.
Mas o olhar dele a imobilizava.
O calor que emanava do corpo dele, aquele maldito magnetismo que só Raul tinha, a desarmava mesmo antes do toque.
— Você acha que pode me intimidar com essa pose de bilionário ferido?
Ela soltou, firme.
— Eu não sou mais aquela menina que você largou com o coração em ruínas.
Raul deu um passo à frente. O corpo alto, tenso, como um animal prestes a atacar.
Mas seu olhar…
Aquele olhar não era de ameaça. Era de fome.
— Não, você não é.
Ele murmurou, com um meio sorriso.
— Está mais linda. Mais forte. Mais venenosa.
— E ainda assim, está tremendo por dentro.
Ela bufou.
— Eu estou tremendo de nojo.
— Mentirosa.
Ele respondeu rápido.
— Está tremendo porque eu sou o único homem que você nunca conseguiu esquecer. O único que te fez gritar meu nome… com gosto.
Maya sentiu o rosto corado, mas não recuou.
— Se você está esperando que eu me ajoelhe… vai cansar de pé.
Raul se aproximou tanto que os narizes quase tocaram.
O ar entre eles era pura eletricidade.
— Acha mesmo que eu quero você ajoelhada? Ele provocou, a voz mais grave do que nunca.
— Você sempre foi melhor… por cima.
Sempre me enlouqueceu quando assumia o controle e me fazia perder o meu.
Ela o empurrou com força. Mas as mãos ficaram no peito dele um segundo a mais do que o necessário.
— Eu te odeio, Raul.
Disse, num sussurro rasgado.
Ele segurou o queixo dela com firmeza, inclinando o rosto.
— Não, Maya.
Você me deseja.
E isso é pior do que ódio.
O silêncio seguinte doeu mais do que um tapa.
Porque era verdade.
A primeira faísca entre eles…
Nunca foi ódio.
Foi sempre algo muito mais perigoso.
Maya recuou um passo. Precisava de ar.
Mas Raul… era o próprio ar rarefeito daquela sala.
Ele não a tocava.
Não ainda.
Mas os olhos dele eram mãos.
E as palavras, ganchos que se cravavam em sua pele.
— Vai continuar fingindo que não sentiu nada? Ele perguntou, baixo, a voz roçando como veludo grosso na espinha dela.
— Seu corpo mente m*l, Maya.
Ela engoliu seco. As pernas vacilaram por um segundo, imperceptível a qualquer outro. Mas não a Raul.
— Não confunda meu nojo com atração.
Ela retrucou, mordendo o lábio inferior.
— Pena que seu corpo não sabe diferenciar.
Ele respondeu.
— Está com os m*****s rígidos sob esse vestido barato. E seu perfume… intensificou.
Ele estava a estudando.
Com olhos treinados.
Como quem já conhecia cada reação.
Como quem sabia exatamente onde doía… e onde queimava de desejo.
— Está acostumado a comprar silêncio e gemidos agora, é? Isso é baixo até pra você!
Ela cuspiu com raiva.
— O que mais está no seu contrato? Que eu finja prazer?
Raul deu dois passos, rápido demais. A encurralou contra a parede, sem tocá-la.
Mas Maya sentiu.
Sentiu o calor do corpo dele invadindo o espaço.
Sentiu o perfume amadeirado com notas de couro e pecado.
Sentiu as lembranças explodirem, uma a uma.
— Eu nunca precisei pagar pra ouvir você gemer.
Ele sussurrou, a voz no ponto exato entre ameaça e adoração.
— E se eu tocar em você agora… vai ser como antes.
Vai perder o controle.
Vai me odiar por isso.
Ela fechou os olhos. O coração martelando no peito.
— Eu não sou mais aquela garota.
Sussurrou de volta, com esforço.
— Então me prove.
Ele provocou.
— Porque seu corpo ainda reage como se fosse meu.
Como se me desejasse com raiva, com dor, com t***o.
As mãos dele pairavam a milímetros da cintura dela.
Sem encostar.
Mas o toque estava ali.
Psicológico. Tóxico. Inebriante.
Maya ergueu o queixo, mas a voz saiu trêmula:
— Eu não sou sua.
Raul sorriu. Lento. Obscuro.
— Não ainda.
Mas você vai implorar pra ser.
E quando isso acontecer, Maya…
… eu não vou ter misericórdia.