Vôo 326. Pronto para decolar.
S/N ouviu a voz robótica vindo dos alto-falantes do aeroporto. Olhando em volta a procura de S/A que tinha saído a alguns minutos comprar algo para comer e não encontrando resolveu sair. Se levantou de seu assento na sala do embarque e foi atrás de sua amiga, lembrava que ela tinha vindo para a saída já que achava os preços dos lanches na lanchonete muito abusivos, ia procurar um mercado por perto e com sorte a encontraria. “ Não tem mercado nenhum” foi o aviso que S/N disse antes de sua amiga sumir no meio da multidão. Agora já do lado de fora procurava por cabelos extremamente (...) entre as várias pessoas de diferentes etnias, infelizmente o Sol das onze a impedia de enxergar direito graças a miopia.
- O que você está fazendo aqui fora S/N? – se virou para a amiga que estava segurando dois picolés, um de morango que lhe oferecia e outro de limão que a mesma já estava chupando. Estava tão quente que S/N não pensou em recusar. – não era você que estava dizendo que não tinha mercado por aqui?
- E tem?
- Não, comprei no carro de sorve que passou aqui agora a pouco. Vamos entrar.
- Vamos correr né? O nosso vôo já está saindo, eu vim te chamar sua louca. – S/A puxou S/N pelo braço e as duas correram até o portão de embarque, as malas já tinham sido levadas. Por muito pouco chegaram a tempo e conseguiram entrar no avião. Estavam na classe econômica, e pra quem nunca tinha entrado em um avião, como era o caso de S/N, aquilo era um luxo, olhava para tudo impressionada e sua mente tentava entender os mecanismos do avião e o que o fazia voar. Já S/A não estava muito contente e achava que poderiam ter conseguido algo melhor.
- Olha que legal! – S/N se jogou em um dos estofados sorrindo enquanto a amiga sentou do seu lado ainda desgostosa. – o que foi?
- Somos as melhores alunas da faculdade, do país! Estudamos durante meses, deixamos de ir em todos os roles e festas. Tudo isso pra passar em uma prova que ia nos dar um cargo de detetives do outro lado do mundo. Certo, já devia estar contente com essa parte. Mas esperava bem mais que – parou para olhar em volta - isso.
- Ah, para S/A. Nós estamos indo pro Japão. Sabe o que é isso? Podemos ir ver a cidade de Konoha. Depois ir em Satan-city. Apesar de não gostar muito da idéia. Depois podemos ir no museu que criaram em homenagem a shinheki no kyojin. E depois disso tudo podemos ir em uma biblioteca, pesquisei na internet e vi que tinha uma com cafeteria acoplada e ainda tem gatos. Aí que sonho.
- Você sabe que a gente tá indo meio que trabalhar né? – elas eram as mais novas detetives. Com seus dezenove anos S/N e S/A conseguiram o mérito de serem as jovens mais inteligentes de sua faculdade.
- É um estágio.
- Que pode mudar nossas vidas. Droga, por quê te segui em? Estava muito feliz com o meu futuro na medicina até você chegar com seus livros de mistério bobos. – S/N riu com as palavras da amiga, não era sua culpa ter ficado feliz ao perceber seu novo e preferido gênero literário seria sua futura profissão.
- Bom, que seja. Kanto que se prepare, nós estamos chegando.
- E por falar nisso. Quem vai ser o nosso chefe? – diferente de S/N que havia surtado de felicidade quando descobriu que iria pro Japão. S/A desmaiou quando a sua pressão caiu. Acordou mais tarde com S/N falando sem parar, e tentando explicar o que seu professor tinha dito sobrecarregando sua cabeça de informação.
- Soichiro Yagami. Líder da Força-Tarefa Japonesa e nosso chefe. Casado com Sachiko Yagami, pai de Raito Yagami e Sayu Yagami. Nasceu dia 12 de julho de 1955. 68 kg. Altura: 1.81. Aquele velho é mais alto que nós duas juntas, fala sério... Por que você tá me olhando desse jeito? Dessa vez eu só pesquisei o básico. – S/A estava impressionada. Sabia que a amiga levava a vida de detetive muito a sério e que não brincava em serviço, mas não tinha o porque de pesquisar a vida de seu futuro chefe. Mas ela já tinha feito coisas piores então não estava muito chocada.
- Como você sabe tudo isso? Não me diz que você...
- Sim eu ativei meu modo hack. Quer saber alguma coisa sobre o diretor? Como o fato de que ele assediava algumas alunas e nesse momento está sendo preso depois de uma ligação anônima para polícia? Aliás obrigada pela câmera. – S/N tirou um pequeno objeto de dentro da blusa e entregou para S/A.
- Seu primeiro caso? Um assediador?- S/A ainda estava meio lerda pela enxurrada de informações que sua amiga tinha derramado sobre sí.
- Não. Fiz de modo anônimo. Eu quero algo mais sabe... Algo que irá causar choque a todos.
- ... Eu vou dormir. Se ouvir outra palavra vinda de você minha mente vai começar a trabalhar e então já era.
- Tá bem. Eu vou ouvir música um pouco. Sabe que horas vamos chegar?
- Você já sabe.
- Estou perguntando para você mulher. – será que ela nunca vai esquecer isso? Pensou S/A enquanto virava pro lado aposto ao de S/N.
- As dez horas da noite criatura – ouviu a voz da aeromoça pedindo para prender os cintos, depois de fazê-lo as amigas pudera ver a mesma ir para trás de uma cortina. Logo o avião já estava no ar. – até mais amiga.
- Não, não, não. Você não vai dormir. São onze horas da manhã, qual o problema do seu corpo?
- Ele não é ligado no trezentos e vinte como o seu é.
- Isso, seja ácida. Vai te ajudar a ficar acordada. – revirando os olhos S/A encostou sua cabeça no estofado e com os pés tirou a sapatilha azul, logo sentindo a liberdade dos dedos doloridos. Encostou no chão frio da aeronave e se sentiu bem melhor.
Quatro horas depois...
- Aí caramba, isso deve ser muito legal! – olhou para S/N que estava virada, com os joelhos dobrados encima da cadeira. Em que momento ela tinha feito isso?. A conversa com a pessoa no assento atrás estava muito interessante pelo visto. As vezes esquecia o quanto S/N podia ser comunicativa quando estava animada.
- Realmente menina. Os restaurantes no Japão são muito movimentados. Principalmente os que vendem sasishimir. – a voz era masculina, calma e cordial. Mas o que impressionava S/A era o fato de que ele falava português tranquilamente mas ainda tinha sotaque europeu.
- E o que é isso senhor?
- Carne de cavalo.
- O meu... Vocês comem cavalo? Pobrezinho. – ouviu uma risada rouca e pôde confirmar ser um idoso.
- Ora querida. Experimente primeiro, quem sabe goste.
- Eu acho que não. Prefiro doces. O que o senhor me recomenda?
- Você é muito fofa e gentil. Taiyaki deve ser a melhor opção.
- O senhor deve ter viajado muito para saber tudo isso. Inglaterra né?
- Como percebeu?- então o homem parecia interessado demais.
- O terno elegante, o cabelo devidamente penteado. Fora que apesar de não ficar muito claro o senhor ainda tem sotaque inglês.
- Muito inteligente criança.
- S/N, deixe ele em paz. Me desculpe senhor. – puxou a amiga pela barra da blusa para que a mesma ficasse sentada. O que não durou muito já que a aeromoça estava vindo com um carrinho cheio de guloseimas pelo corredor. S/A só notou a aproximação da sua amiga tarde demais. S/N tinha jogado o corpo em seu colo em uma tentativa de pegar o bolo de morango. – você podia pedir sabia, ele não vai fugir?!
- Você não ia pegar se eu pedisse. – mais uma vez ela tinha razão. Quando notou que sua amiga agora estava sentada tranquilamente em sua cadeira, e sua boca ocupada demais para conversar pôde mexer no seu celular um pouco, respondeu algumas mensagens de seus pais e de Ricardo, com quem namorava a dois anos. Não era o melhor aparelho, mas com o salário que ia ganhar na corporação podia comprar outro.
Já S/N olhava pela pequena janela do avião. Parecia estranho que um pequeno vidro como aquele impedia que ela e os outros passageiros morressem pela pressão causada pela altura. Olhou para a amiga que parecia muito interessada no celular, provavelmente conversando com o namorado. Não queria conversar, mas também não queria ficar quieta. Quem sabe o gentil senhor no banco atrás do seu poderia lhe contar uma história. Olhou pela brecha da cadeira que lhe permitia ver o que acontecia atrás e notou que ele estava mexendo em um laptop com muito interesse. Sentiu a curiosidade tomar conta de sí, mas não podia sacia-la, não era amiga do mais velho e com certeza não o encontraria outra vez. Sua mente divagou imaginando um futuro onde ela já idosa se lembrava deste momento se perguntando o por que de não ter feito nada. Se convencendo com este pensamento já ia levantar quando uma mão pressionou seu ombro, a fazendo ficar parada no lugar.
- Não se atreva a me fazer passar essa vergonha. – olhou para S/A que lhe encarava mortalmente.
- Mas eu quero... – não conseguiu evitar a voz infantil que usava quando queria algo.
- Mas não pode. Droga, preciso de mais bolo, onde está a aeromoça quando preciso?
- Por que o bolo do nada?
- Não é pra mim, é pra você. O único jeito de te fazer ficar quieta é comendo então...
- Você se preocupa mesmo comigo S/A. Eu sabia que um dia ia conseguir descongelar esse seu coração frio. – S/A notou pequenas lágrimas nos olhos grandes e chamativos da amiga. Sabia que para ela os amigos eram tudo, e para S/A também. Mas em sua visão ela não podia se deixar envolver tanto.Mesmo que S/N fizesse uma atuação tão descarada como essa.
- Você não descongelou nada. Agora seque essas lágrimas, e por favor tente cochilar um pouco.
- Tá bem. Até mais amiga, até mais mundo. Até mais tio inglês! - depois de ouvir uma resposta vinda do banco de trás S/N encostou a cabeça na janela e tentou dormir.
Quebra de tempo...
O “cochilo" durou até a hora do próximo lanche, e só acordaram porque a aeromoça lhes chamou para que pudesse servir. Comeram, conversaram, e depois dormiram outra vez. A mudança de continente estava as afetando. Só vieram acordar quando as rodas do avião tocaram o chão. Ainda meio grogues pelo sono longo elas se levantaram e tentaram organizar as roupas no corpo, limpando a fina camada de baba que escorria da boca. Pelo que dizia no e-mail o oficial Yagami estaria esperando as duas no saguão.
Já na ala de desembarque S/N procurava um homem de meia idade entre tanta gente, se lembrava muito bem das feições do oficial, amarelo, cabelo preto bem penteado e um SENHOR BIGODE. Quando notou um homem de sobretudo marrom e gravata preta, puxou as duas malas de rodinha deixando S/A para trás, indo ao encontro de seu chefe.
- Senhor Yagami? – o homem de meia idade parecia exausto e olhou para a jovem a sua frente com expressão cansada, não era diferente da foto que lhe enviaram, mas ainda era estranho saber que alguém tão jovem seria de sua equipe.
- Olá, você deve ser S/N Ocean. Muito prazer. - naquele momento ela agradecia por ser trilíngue e entender japonês tão fluentemente. – mas é só você? Pensei que eram duas.
- S/N O QUE ESTÁ FAZENDO CONVERSANDO COM UM DESCONHECIDO? Ele pode ser um assediador, aqui está cheio deles!– S/A chegou furiosa, tinha perdido sua amiga de vista e agora a encontrava conversando com um velho tarado.
- S/A, esse é o nosso chefe; Soichiro Yagami. Senhor Yagami, está é S/A Swan.
- Ah, é... Muito prazer senhor. Me desculpe pelo surto, fiquei preocupada quando notei que minha amiga tinha sumido. - S/A não pôde evitar abaixar a cabeça com o sentimento de vergonha pesando em suas costas.
- Está tudo bem, é normal se preocupar, já passei por uma experiência parecida. E realmente vocês mulheres tem que tomar cuidado com esse tipo de gente.
- Obrigada por entender.
- Bem, deixando esse momento constrangedor de lado. Onde nós vamos dormir chefe? – apesar de não demonstrar, S/N estava cansada, sua cabeça pesava, resultado de pensar tanto, seu corpo estava dolorido por ficar tantas horas sem se mexer e suas pernas pareciam gelatina, quando sentiu uma pontada no pescoço já previu um nó formado naquela região.
- Vocês vão ficar na minha casa, conversei com o diretor da faculdade de vocês e ele não se importou. Espero que vocês também não. Mas caso não gostem eu posso pagar um hotel...- o Yagame deixou a sugestão no ar. Sabia que se as meninas não fossem teria problemas com Sayu, já que a menina estava animada com a oposição de fazer novas amigas.
- Não, está tudo bem. Aposto que sua filha deve se sentir sozinha, eu entendo.
- Como você...?
- Pesquisei um pouco sobre o senhor. Espero que não se importe. – o capitão olhou para S/N abismado, aquela fala o lembrou de certo alguém.
- Não se incomode. Ela não conhece algo chamado “limite".
- Está tudo bem. Só fiquei surpreso. – dando um riso sem graça Soichiro se voltou para as meninas – permitam que eu carregue suas coisas sim?
- Não será necessário capitão. Não estamos tão cansadas assim não é S/N? – o sorriso que S/A lhe dava era tão tenso que ficou com medo de ver a amiga perder um dente pela força que colocava. Pegou as alças das malas de rodinhas e olhou para seu chefe.
- Ela tem razão senhor.
- Bom, se insistem. Por favor me sigam. – em pouco tempo as duas detetives notaram o quão educado e gentil era o capitão Yagami, ao mesmo tempo que era sério. Por enquanto esses eram os traços de personalidade que conseguiram detectar do detetive experiente.
Depois de uma viajem de carro do aeroporto até a casa do oficial, o mesmo explicava para as duas as regras e como deviam se comportar no prédio da polícia, falava as regras de sua casa e explicava como eram sua esposa, seu filho mais velho um estudante dedicado de dezoito anos e Sayu, uma jovem estudante sociável de quinze anos. Nada que S/N não soubesse. Mas S/A ouvia atentamente tudo que era dito e decorava para não cometer nenhuma gafe futuramente. Quando o carro parou na frente da casa Yagami, Soichiro foi até o porta-malas e tirou de dentro a bagagem das meninas enquanto elas admiravam a casa.
- Podem vir, aposto que Sachiko já está nos esperando. - contando os passos que dava até a porta, S/N percebeu que algo r**m iria acontecer, era como se estivesse andando em câmera lenta, indo em direção ao pesadelo. Como se fosse se meter em algo importante, já teve esse sentimento antes mas não tão forte quanto agora.
- Okaerinasai. – ao ouvir a palavra em japonês S/N despertou de seus pensamentos e olhou para a mulher de meia idade que estava na porta – que lindas querido. São as novas recrutas?
- Sim querida. Essa é Lian. – S/N deu um sorriso gentil para a mulher – e essa é Samir.
- Muito prazer. - a mulher as cumprimentou e abriu espaço para que pudessem entrar.
- Aí minha nossa. Finalmente vocês chegaram, estava tão ansiosa. Olá, eu sou Sayu. É um prazer finalmente conhecê-las.
- O prazer é todo meu Sayu, espero poder ser sua amiga. – S/A sorriu para confirmar a frase de S/N. E receberam um abraço apertado da menina.
- Onde está Raito? – Soichiro perguntou a esposa alto o suficiente para que todos na sala pudessem ouvir.
- Estou aqui pai. Então essas são nossas convidadas? Muito prazer, sou Raito Yagami. – S/N viu o garoto descendo as escadas, e mais uma vez a sensação de câmera lenta lhe atingiu. Ao olhar nos olhos de Raito, sabia que nunca deveria confiar no mesmo. Olhos escuros com segredos, como se uma névoa os cobrisse para que as pessoas não notassem seu "eu" verdadeiro.
- Olá. Sou Lian. – a alguns momentos atrás, Soichiro havia lhes instruído a nunca revelar seu verdadeiro nome a ninguém, e naquele momento agradecia por isso. Desde o momento em que o nome Kira ficou famoso por todo o mundo, falar o próprio nome deixou de ser seguro.
- Eu sou Samir. – as duas sabiam sobre os casos de assassinato que estava acontecendo, em todo o globo o principal assunto era o famoso serial killer japonês que cada vez mais ganhava fama nas redes sociais, principalmente no Japão. Tinham noção disso quando faziam as provas mas agora que estava ali. Era como se tivesse caindo em um buraco, onde o resultado da queda seria a morte. Mas de quem...? O sentimento que teve quando chegou na casa veio mais forte quando prestou atenção na maçã que o jovem segurava " estranho, nas pesquisas que eu fiz, frutas comuns no Brasil são muito caras aqui, justamente por serem exportadas... " sacudindo a cabeça mandou o pensamento para um fundo de sua mente e fazendo uma anotação mental para mais tarde.
Voltando a prestar atenção na interação social a sua frente, finalmente percebeu os olhares que Raito estava dando para S/A que a mesma retribuía. Não tinha experiência com relacionamento, nunca se quer tinha beijado alguém, mas sabia que a interação entre os dois era diferente, esquisito até. Teria que conseguir um tempo para falar com ela sobre. Foi tirada de seus pensamentos por Sayu que estava a chamando para assistir tv e resolveu esquecer os olhares esquisitos por enquanto.