Capítulo 7

1066 Palavras
Ele riu. — Eu tenho uma reunião de trabalho e geralmente quem me ajuda a escolher o que vestir é a Rebeca — eu quase ri, mas me segurei — Estou em dúvida — coçou a nuca adoravelmente. Achei bem fofo seu embaraço. — E se ela chegar e ficar brava comigo por tomar a função dela? — Cruzei os braços. Eu queria confrontá-lo ou no mínimo fazer uma piadinha que geralmente os homens fazem quando querem saber se uma garota namora ou não. Mais ou menos como: Sua esposa não vai se incomodar? Contudo, era covarde demais para saber a verdade. Então apenas decidi não me envolver nos problemas deles. Bernardo nunca me faltou ao respeito e eu não faria nada que pudesse me comprometer. Estava tudo certo. Cada um com suas estranhezas, quem era eu para dizer alguma coisa sobre o casamento dos outros? Nem casada eu era. Ainda estava na moda ter relacionamento aberto, podia ser o caso deles. Não que fizesse alguma diferença para mim. Eu não faria parte daquilo. — A Beca já está brava o suficiente comigo, não acho que pedir a sua ajuda vai piorar a situação — riu, estreitando os olhos. Acabei rindo também. — Bom, eu não estava fazendo nada demais mesmo — dei de ombros. O segui até seu apartamento, retirando o chinelo para não pisar no tapete da sala. Olhei curiosamente ao redor, o cômodo estava organizado. Apenas com algumas peças de roupa em cima do sofá. Havia camisas, gravatas e paletós. Eu queria ver como ele ficaria dentro daquelas peças, nunca o vira vestido tão formalmente. Bernardo usava camisa social, mas era só. Eu o via indo trabalhar com mais frequência agora que estava em casa. — Acho que a camisa verde musgo e a gravata preta — coloquei a mão no queixo. — O blazer escuro vai cair bem. Acredito que nem precisava da minha ajuda, você tem boas opções aqui. Qualquer combinação daria certo. — É que essa reunião é muito importante, não quero falhar — explicou pensativo. — Talvez meu futuro dependa disso. — Nossa, então deixa eu repensar minha escolha — fiquei insegura. E se eu prejudicasse o Bernardo por causa da minha opinião? Ele fez que não. — Vou vestir essa — pegou as peças — Espera aqui, tá? Concordei com um balançar de cabeça, mas estava morrendo de medo da Rebeca voltar e interpretar errado a situação. Bernardo não demorou, quando surgiu na sala, vestia as roupas que escolhi. Eu precisava confessar, ele ficou ainda mais lindo. — Ficou ótimo! — Elogiei, tentando não entregar meu deslumbre. — Boa sorte na sua reunião. — Obrigado — fiz um joinha com os dedos e segui para a porta. — Espera! — Bernardo segurou meu pulso com delicadeza. — Sim? — Virei para ele, ignorando o coração acelerado. Olhei para os seus dedos ao redor do meu pulso, o gesto o fez recuar. — Nada, valeu mesmo pela ajuda. Com isso fui embora para o meu apartamento. Eu tinha mesmo que ficar longe dele, agora mais do que nunca. (...) Mais uma semana se passou e eu não consegui emprego, enviara currículo para todos os lugares inimagináveis. Bati de agência em agência procurando uma vaga… Qualquer vaga servia, eu não tinha preferência no momento. Estava ciente de que não conseguiria uma colocação tão boa quanto a anterior porque não tinha formação acadêmica. Mas pensei que encontraria alguma coisa. Certo, eu estava começando a me desesperar. Portanto, não tinha preferência, desde que pudesse manter alguma dignidade. Na real, só queria pagar minhas contas, garantir um teto sobre minha cabeça e ajudar minha família. Caramba! Fernanda me convidou para ficar no apartamento dela, até eu me reerguer. Assim eu teria algumas despesas a menos. Contudo, eu não queria ser um peso e Fernanda ainda não ganhava rios de dinheiro para eu ficar lá sem me sentir m*l. Ou seja, minhas esperanças estavam descendo pelo ralo. Eu até tinha uma reserva no banco, além dos direitos por ter sido demitida sem justa causa. Pequenas economias que fiz durante meus longos vinte e três anos me renderam uma certa segurança. Entretanto, minhas faturas do cartão de crédito eram astronômicas, já que eu cuidava do meu pai. E, obviamente, a mensalidade do convênio médico dele era caríssimo. Assim sendo, eu precisava urgentemente de uma ocupação ou minha reserva iria embora mais rápido do que eu poderia gritar "emprego". Papai morava com minha irmã no interior e, como ela não trabalhava, era eu quem enviava dinheiro para as despesas da casa e tudo o mais que ambos precisavam. Não havia muitas opções de trabalho onde eles moravam e como papai precisava de supervisão constante por causa dos problemas de coração, Bianca ficou impossibilitada de trabalhar fora. Por este motivo, eu lutava tanto para conseguir trazê-los para São Paulo, assim moraríamos juntos e minha aflição diminuiria. Eu estava tão perto de conseguir, tão perto... Mas após a minha demissão, todos os meus planos foram adiados. Inclusive, ainda nem havia contado que perdi o emprego para a Bia. Porque ela já se sentia um peso morto — apesar do trabalho de cuidar do nosso pai — e eu não queria preocupá-la. Mantinha a fé de que em breve conseguiria encontrar uma saída, antes de decretar falência. Eu sentia tanta saudade deles, da família que me restara. Às vezes pensava que meu coração sucumbiria à tristeza. Com tudo isso em mente, bati na última agência do dia, após aquela tentativa eu iria para casa. Meus pés estavam em carne viva, devido ao sapato um número menor, e eu suava bicas embaixo do sol. Entreguei todos os currículos, preenchi fichas, comi um salgado com gosto azedo e peguei o metrô para vir embora. Estava quase feliz por ter conseguido sair de casa. Se eu tivesse sorte, meu esforço de hoje seria recompensado. Quando finalmente cheguei na porta do meu apartamento, abri a bolsa em busca da chave. Eu me jogaria no sofá, aí que delícia! Entretanto, como uma desgraça nunca vem desacompanhada... d***a! Eu tinha certeza de que estava com ela, a tirei da bolsa para pegar a carteira e pagar o café que comprei apenas. Ué? Será que deixei a chave em cima da mesa da lanchonete? Não, não, não. Eu precisava de um banho e de tirar esses sapatos urgentemente ou ficaria sem as unhas dos pés.
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