Julian Navarro
Vinte e três anos depois…
O que é o amor, senão a droga mais mortal do mundo.
Primeiro ele te embriaga, te faz sentir as melhores sensações do mundo, te vicia e depois te destrói, te deixando completamente impotente. Mas isso é só uma epifania, porque esse que vos fala, não tem sequer capacidade para amar.
No alto da minha cobertura, eu apenas sentia o cheiro do poder, que eu mesmo exalava. Não era só um terno caro, um relógio ou um carro, era a minha mentalidade e atitude. Consegui o que poucos conseguiram, mesmo vivendo uma infância traumática, porque eu tive força para correr atrás dos meus sonhos. Força e um empurrãozinho do meu lado vingativo.
Peguei o pequeno negócio do meu padrasto e transformei em um império, tudo porque ele disse que eu era um bastardo miserável, incapaz de conseguir qualquer coisa na vida. Eu o provei que o bastardo era, sim, competente, o fazendo depender do meu dinheiro. O império Navarro surgiu de um desejo de vingança e se transformou em uma multinacional.
Olhei para o meu advogado se recusando a me dar o que eu queria e fiquei horrorizado com tamanha ousadia. Se eu tenho tudo o que quero, por que não poderia ter mais essa diversão?
— Julian, você tem certeza? Isso é... — ele começou a falar, após rever os termos do contrato que eu mesmo criei.
— Não vai dizer que é asqueroso, Matheus. Porque asqueroso foi o que aquela v***a fez.
— Julian, isso não te dá o direito de tratar alguém assim. Você não pode brincar com seres humanos.
— Eu posso, se eu quiser. — me virei e o olhei fixamente. Ele me olhava cheio de raiva. — Tem como fazer?
— Isso é desumano.
— Tem como fazer?
— Sim! — esbravejou, irritado. Eu sabia que aquilo era demais para o seu lado piedoso.
— Então faça!
— Você é c***l, Julian.
Não me importava em ser c***l ou desumano, eu sequer sou humano. Não penso além dos meus interesses, só desfruto daquilo que me convém e que posso pagar.
— Onde ela está?
— Arrumando as coisas.
Fui até o quarto e a vi arrumando as malas sentada no chão. Ela fungava uma vez ou outra, depois enxugava as lágrimas, não acho que tenha sentimentos suficientes para se sentir m*l pelo que estava acontecendo, mas vamos fingir que sim.
Ela me olhou, com os olhos marejados, acredito que queira a minha pena, mesmo sabendo que não estou familiarizado com certos sentimentos.
— Você me conhece muito bem para saber que eu não me importo com suas lágrimas, Stella.
— Julian, por favor... — ouvir o som dela enxugando as lágrimas, fez meu estômago revirar. Como ela podia ser tão dissimulada? — Querido... — ela se levantou e fez menção de me tocar, mas parou quando me afastei. — Será que podemos conversar?
— Já falei tudo o que tinha para falar.
— Dar ordem não é falar, Julian.
— É o máximo que você terá de mim, então agradeça.
Stella voltou a chorar, e eu tencionei todos os músculos do meu rosto, apertei os olhos e respirei ruidosamente. Precisei de todo meu autocontrole para não cometer um ato hostil. Afinal, ela ainda tinha meu sobrenome.
— Saia! — murmurei, ainda buscando o auto controle. — Deixe que as coisas eu levo depois.
— Julian, por favor... — ela choramingou.
— Suma daqui, antes que eu cometa uma atrocidade. O segurança está te esperando lá embaixo para te levar.
— Você não pode fazer isso comigo.
— Eu já fiz. O contrato está lá embaixo.
— Você sabe que isso é criminoso.
— Eu estou acima da lei aqui, Stella.
— Entendo a sua raiva, e eu sinto muito. Eu não queria... — ela enxuga as lágrimas.
— Você não queria? Você tem certeza? Porque olhando para você gemendo debaixo do meu melhor amigo, parecia muito que você queria.
— Jullian, foi um erro você descobrir assim. Eu ia te contar.
— É mesmo? E o que você esperava que eu fizesse após saber? Que sorrisse e dissesse que está tudo bem você f***r com o meu amigo? Afinal, está tudo em casa, não é? Amigos de infância, famílias amigas, comemos no mesmo prato em todos os sentidos.
— Jullian, eu não sou uma v***a qualquer, eu sou sua esposa.
— Para mim, você é pior do que uma v***a. Uma prostituta seria melhor em seu lugar. Pelo menos, eu teria uma boa trepada. — ela se sentou no chão e começou a chorar, como uma boa rainha do drama. Isso ela sabia fazer muito bem. Mas desta vez, não ia me convencer. — Levanta! — a segurei pelo braço, a arrastando até a porta.
— Julian, não faça isso! — ela segurou meu braço, tentando se desvencilhar. — Por favor, Julian.
— Para de falar meu nome, p***a! Você tem sorte que estou fazendo isso. Eu deveria te jogar na porta dos seus pais, da mesma forma que eles te enfiaram na minha vida. Sabia que essa ideia de casamento era uma droga.
— Me solta! — puxou o braço e parou na entrada da casa. — Você não tem o direito de me julgar e fazer isso comigo. Você não é um marido exemplar, para me dar lição de moral. — a v***a estava cheia de ousadia.
— Pelo menos eu não fodi com sua melhor amiga. — Seus olhos encheram de lágrimas, borrando o resto de sua maquiagem. O resto que o Damian não borrou.
— Você não me ama e nunca me amou, Julian. Você está feliz por estar se livrando de mim. — nisso ela tinha razão.
No fundo, eu estava feliz de me livrar daquele casamento de fachada. Eu nem sequer me casei apaixonado, era tudo conveniência pelas nossas famílias.
Conhecia a Stella há anos, ela era bonita e seria uma esposa exemplar diante da sociedade. Exemplar demais, eu diria. Sempre organizando tudo do seu jeito e vivendo em suas regras. Durante o nosso noivado, ela era uma garota virgem e cheia de receios quanto ao sexo, não gostava que eu a tocasse e isso me irritava. Quando eu pedia para t*****r com ela antes do tempo, ela dizia não. Queria esperar pelo casamento. Então eu fodi todas as putas que encontrei pelo caminho e peguei apego pela coisa. Desenvolvi gostos peculiares, que sabia que ela não entenderia. Então decidi não tocá-la e manter o casamento só diante das pessoas.
A questão é que o casamento estraga tudo, até uma amizade em potencial. E esse casamento me custou dois amigos. A Stella e o Damian, meu melhor amigo de infância. Eu sempre imaginei que ele tinha uma queda pela Stella, mas não a ponto de fazer o que fez. Eu o teria matado, se não vivesse na filosofia de que todo m*l tem o seu bem.
Fui até o meu closet, agora metade vazio. Escolhi uma boa roupa para sair. Na minha primeira noite de volta à liberdade, vesti o meu melhor terno e minha melhor gravata, para curtir como um homem livre e desimpedido.
Mas mesmo assim, não pude deixar de pensar no que a Stella tinha dito. Será que eu nunca amei ninguém? Será que tudo o que eu tinha era um vazio, que eu tentava preencher com poder, dinheiro e sexo? Eu sempre acreditei que o amor era uma fraqueza, algo que as pessoas usavam para se enfraquecerem e se atrelarem a outra pessoa. Mas será que eu estava errado?
Enquanto descia as escadas, as vozes do meu passado ecoaram em minha mente. O meu padrasto me batia e me chamava de bastardo, a Stella me chamava de frio e insensível, e o Damian me chamava de egoísta e arrogante. Será que eles estavam certos? Será que eu sou um monstro, incapaz de amar?
Eu empurrei essa dúvida para o fundo da minha mente e saí da cobertura, pronto para aproveitar a minha nova liberdade. Tinha tudo o que queria e era dono do meu destino. Mas algo dentro de mim ainda se perguntava se era isso o que eu realmente queria. Será que o amor era a única coisa que me faltava para ser realmente feliz? Ou será que eu estava destinado a viver sozinho, em um mundo de poder e luxúria, para sempre?