Embora Willow aparentemente tivesse descartado o plano, ela parecia estar em conflito consigo mesma. Eu provavelmente havia lhe apresentado de bandeja a solução que tanto procurava. Ela não sabia dos recursos que havia do outro lado, mas confiava plenamente em mim e na minha palavra.
— Só você consegue manter essas defesas? — perguntei-lhe, cogitando possibilidades.
— Sim. Elas são à base de magia das trevas.
— Mas você não é a única que pode usar esse tipo de magia — lembrei-a.
— Por acaso está sugerindo que eu deixe a p******o de Aradia nas mãos de Chandra? — perguntou-me abismada. Eu também não confio naquela louca, mas duvido que ela poria o próprio povo em perigo.
— Por que não tenta se abrir para ela, contar como se sente e revelar a ela todos os seus planos? Podemos tentar trazê-la para o nosso lado ou, no mínimo, fazer uma aposta com ela para que ela fique em trégua por um tempo.
— É arriscado, mas pode funcionar — ponderou Willow. Ela estava inquieta, andando de um lado para o outro. Provavelmente estava colocando em uma balança todos os prós e contras da minha sugestão.
— Você não sabe como se abrir para ela, sente dificuldades por conta do passado doloroso que sua família experienciou. Neste caso, me deixe tentar conversar com ela primeiro.
Eu poderia sugerir que Willow apagasse as memórias de Chandra para podermos manipular a mente dela e induzi-la a fazer o que precisamos, mas eu jamais opto pelo caminho mais fácil, primeiro porque nem sempre é o certo a se fazer e, segundo, porque algo sempre pode dar muito errado no final. Tentar mudar a mente da vilã é algo que só dá certo em desenhos, e eu sabia o quão complexo é lidar com alguém cuja mentalidade está enraizada em certos ideais e sentimentos. Mas não precisávamos necessariamente que ela mudasse. Eu contava que o plano perfeito de Willow, no mínimo, seria aceito e respeitado por Chandra, considerando que o objetivo final de ambas é o mesmo.
— Você não precisa confiar nela logo de cara. Podemos lançar a ideia, desenvolvê-la através de conversas diárias e, somente quando sentirmos sinceridade, seguimos com o plano.
— Acho que vale a pena tentar — disse-me Willow com o olhar mais determinado. — Mas e o seu companheiro? Acha que Lohan aceitará isso?
— Ele vai me entender. — Eu não pretendia pedir permissão de qualquer forma. Se não podemos contar com os lobos para salvar Aradia, então eu faria as coisas do meu jeito. Eu não sou só a companheira dele, eu ainda sou a herdeira de Aradia e, até encontrar uma solução para essa questão, eu agiria conforme os meus princípios.
Lisa não estava exatamente satisfeita com a ideia, mas até ela compreendia que isso era necessário para o futuro de nossas crias, então não fez objeções. Se até ela podia aceitar isso, quanto mais o Lohan.
— Liz, você realmente é única — disse Willow, rindo consigo mesma. — Vamos fazer como você diz então!
Seguimos juntas para a cidade, e o destino não era outro senão a prisão especial em que Chandra estava contida. Posso dizer que a avó de Willow não ficou nada feliz em nos ver. Ela começou a me xingar de muitos nomes que ainda não estavam no meu dicionário.
— Não vim brigar — aproximei-me passivamente dela. Tenho certeza que, se não fosse pela contenção dos poderes, ela estaria me lançando as piores maldições que conhecia. — Vim te contar algumas coisas e pedir uma trégua.
— E por que eu te ouviria, sua traidora? — respondeu raivosamente, voltando a gritar todos os tipos de insultos. Willow suspirou profundamente, completamente desapontada.
"Pelo visto, temos que jogar duro!" falei com Lisa, conjurando uma magia espiritual potente. Chandra caiu de joelhos, completamente calma. Precisei esvaziar completamente a energia negativa dela, ou do contrário, seria difícil dizer qualquer coisa.
— Não me chame de traidora sem me ouvir primeiro. Eu já lhe mencionei que sou uma bruxa de luz nível ômega, mas você não acreditou em mim naquela vez.
— É óbvio que está mentindo! Não tem como uma recém-despertada ter coletado tanta devoção! — disse-me Chandra, completamente cética. Pelo menos estávamos desenvolvendo uma conversa agora.
— Você sabia que sou imune a maldições, incluindo a maldição de Lohan Black? — Graças a essa nova informação, obtive um importante argumento contra ela. — E você não viu naquele dia, mas ele estava usando um acessório que bloqueia a sua maldição de ser vista. Não pense que estou dizendo isso só para me gabar, apenas estou lhe mostrando que eu e Willow estamos mais perto do que nunca de recriar a semente ancestral.
— Recriar a semente? — murmurou para si mesma. Ela realmente não fazia ideia do que Willow pretendia. Aproveitei a brecha para aprofundar ainda mais minhas ideias.
— Sim. E quer saber mais? O projeto de Lucon que você tanto despreza é o que salvará o nosso povo. Através dele, farei Willow evoluir para o último estágio. Juntas, eu e ela mudaremos o futuro de Aradia e salvaremos o nosso povo! O que acha?
— Acho que você é uma tola! — riu a velha, sem fazer questão alguma de esconder o seu menosprezo. Era realmente irritante lidar com ela.
— Você ri porque acha que não podemos ou porque tem medo de que consigamos? — Concentrei-me em lê-la, procurando uma forma de desafiá-la. Eu não daria o braço a torcer. — Se não vai responder, permita-me fazê-lo. O que você teme é o nosso sucesso, porque precisa de uma desculpa para continuar acreditando na sua vingança. Se o que eu lhe disse se concretizar, o ódio que sente não se sustentará, e você cairá em vergonha pelas coisas que fez.
— MALDITA! SAIA DAQUI! SAIA! — gritou ela furiosa. Se doeu, é porque é verdade.
— Chandra, uma hora você precisará escolher entre sua família e Aradia, ou o seu ódio. Os dois não podem caminhar juntos, e acredite, não há paz ou alegria em perseguir o m*l. Pelo menos uma vez, apoie os planos de sua neta e se permita recomeçar.
De certa forma, ela me lembrou da minha própria avó, e talvez seja por isso que eu tenha tanta paciência com ela. Recomeço! Como se essa única palavra tivesse tomado conta de mim, uma melodia suave brotou dos meus lábios enquanto eu me levantava. Era uma de minhas músicas que falava exatamente sobre isso. Não me senti derrotada, pelo contrário. Se Chandra reagiu com violência, é porque minhas palavras a tocaram; caso contrário, ela teria sido indiferente. Aos poucos, esperava conseguir trazê-la para o nosso lado.