Capítulo 13

1292 Palavras
P.O.V - GIULIA O portão da paróquia rangeu atrás de mim pela última vez. Eu nunca me acostumei com aquele barulho. Caminhei lentamente pelo corredor silencioso, sentindo o peso das escolhas que fiz colado aos meus ombros. A cada passo, lembrava dos dias em que a fé em dias melhores era tudo o que eu tinha, quando a vida ainda parecia ordenada e a dor... suportável. Mas agora, tudo era diferente. Minha fé não tinha desaparecido — só havia sido desafiada por algo mais urgente. Mais cru. Mais humano. Minha mãe estava morrendo. E Deus, não estava ali com um remédio nas mãos nem com um plano de saúde. Mary ouviu minha decisão com o olhar sereno, mas triste. — Tem certeza, filha? — ela perguntou com sua dureza habitual — Às vezes, os caminhos mais tortos são os que levam direto à graça. — Eu preciso cuidar dela. — respondi. — - E como irá cuidar dela sem dinheiro e sem ajuda da paróquia? Já conseguimos as doações é só esperar as liberações... - Eu consegui ajuda... De um primo distante, então vou poder me dedicar a ela. Ela apenas assentiu. Sem julgamento. Apenas aceitação. Como se soubesse que o meu coração, ainda que perdido, estava seguindo por amor. Saí de lá com a alma em conflito — entre a culpa e a liberdade. Procurei minha mãe em seu quarto escuro mas ela não estava lá, andei pelos corredores e não a encontrei. Encontrei minha mãe sentada na varanda, envolta por uma manta fina e um sorriso cansado, mas vivo. Seus olhos se iluminaram ao me ver. Aquela luz que só as mães têm quando olham para um pedaço de si andando fora do corpo. — Tem algo diferente em você — ela disse. — Aconteceu alguma coisa? Sentei ao seu lado, segurei sua mão entre as minhas e respirei fundo antes de dizer: — Eu vou me casar. Ela arregalou os olhos e levou a mão ao peito, emocionada. — Giulia... isso é maravilhoso! Você merece um amor bonito. Um homem bom. Alguém que te faça rir, que te olhe como se o mundo fosse você... — Não. — interrompi, firme, talvez até dura demais. — Não é por amor, mãe. É por você. Pelo dinheiro. Pelo tratamento. É... um acordo. Eu não consegui mentir para ela, era impossível que eu conseguisse quando ela me olhava com tanta doçura. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, me observando com aqueles olhos que sabiam mais do que deixavam transparecer. — Ah, minha filha... você sempre foi tão forte, tão racional. Mas o coração tem planos que a mente não entende. — Ele não é o que você imagina. — murmurei, quase num sussurro. — É arrogante, provocador, cheio de si... E acha que pode me dobrar com charme e frases ousadas. Mas mesmo enquanto dizia isso, algo dentro de mim balançava. Os olhos castanhos de Dante, intensos e penetrantes, vieram à minha mente sem que eu permitisse. Lembrei do jeito que ele me olhou no restaurante, como se me quisesse por inteiro, como se me visse — não como uma transação, mas como um desafio vivo. E por um segundo... só um segundo, desejei que ele me tocasse. Neguei isso para mim mesma. Como uma prece muda, como quem afasta o pecado com as mãos. Minha mãe apertou meus dedos, e com a voz baixa, mas firme, disse: — Tive uma premonição. Sonhei com você, vestida de branco... - Eu sei mãe, você já me contou do seu sonho - Disse virando o rosto para ela não ver as minhas lágrimas. - andando na chuva, e ele estava lá... - Ela continou como se eu não tivesse dito nada - Seus olhos eram escuros, mas não frios. Ele sorria para você como quem encontrou o lar. E você... meu Deus, você o olhava como se tivesse esperado por ele a vida inteira. Meu coração deu um pulo estranho. Um susto. — Mãe, isso é só um sonho. Nada disso vai acontecer. Mas você poderá me ver vestida de noiva, esse não é o seu sonho? Ela apenas sorriu, aquele sorriso de quem sabe algo que nem o tempo ousa negar. — A gente não escolhe por quem se apaixona, filha. Às vezes, o amor chega torto... mas permanece inteiro. E eu fiquei ali, com o coração pesado e os pensamentos em desordem, tentando convencer a mim mesma que aquela profecia nunca se realizaria. Mas os olhos castanhos de Dante... já estavam me perseguindo até nos sonhos. Deixei minha mãe na varanda, enrolada na manta, olhando o céu que escurecia devagar. Ela parecia em paz, ou pelo menos tentando estar. Eu, por outro lado, precisava respirar sozinha. Pensar. Organizar o turbilhão que rodava na minha cabeça e, principalmente, no meu coração. O pátio da paróquia estava silencioso, as pedras gastas sob meus pés, as hortênsias balançando com o vento suave do fim de tarde. Caminhei até a fonte antiga no centro, o som da água era uma melodia leve que me acalmava desde a infância. Foi aí que ouvi. O barulho de saltos altos ecoando entre os muros do convento. Ritmados. Seguros. Como uma presença que não pedia licença para existir. Virei devagar, e vi uma mulher parada entre as colunas da ala lateral. Observava-me como se me estudasse, como se tivesse todo o tempo do mundo para me julgar. Ela era deslumbrante — daquelas belezas quase teatrais, feitas para serem vistas. Alta, com curvas precisas e uma pele dourada como champanhe ao sol. Vestia-se com elegância calculada: um vestido justo de cor vinho, salto agulha preto, óculos escuros que escondiam parte do rosto, mas não o suficiente para mascarar o veneno no sorriso. Tirou os óculos lentamente, revelando olhos escuros e penetrantes, que me percorreram dos pés à cabeça com desdém. — Aí está você. — disse, com a voz baixa, aveludada, mas cheia de desprezo. Franzi o cenho. — Desculpe... nós nos conhecemos? Ela deu um passo à frente, cada movimento seu como o de uma felina prestes a atacar. O vento mexeu seus cabelos castanho-claros, perfeitamente ondulados, como se até a brisa se curvasse à sua presença. — Ainda não — disse, com um sorriso enviesado — Mas sei tudo sobre você, Giulia. A ex-noviça. A noiva por conveniência. A santa que quer salvar a mãe... vendendo-se ao d***o. Minha respiração falhou por um segundo. Quem era ela? E como sabia tanto? — Quem é você? Como sabe disso? — Helena. O seu noivo fala demais quando bebe — respondeu, cruzando os braços com a elegância de quem está sempre no controle. — Fui... uma parte importante da vida de Dante. Antes dele resolver brincar de homem de família com você. Senti o estômago revirar. Ela continuou, se aproximando ainda mais. — Eu voltei para reconquistá-lo. E você? Você é só um obstáculo. Você pode ser boa, Giulia... mas Dante gosta de pecar. E eu conheço todos os pecados dele. Até ajudei a cometer alguns. Meus olhos não desviavam dos dela, mesmo com o coração disparando. Havia algo naquela mulher que irradiava ameaça — como se o simples fato de ela existir colocasse em risco tudo que eu tentava manter firme. — Então por que está aqui? — perguntei, com a voz firme, mesmo que por dentro eu estivesse tremendo. Helena sorriu, inclinando levemente a cabeça. — Porque eu queria olhar nos seus olhos antes de tirá-lo de você. - Alguns pecados de Dante... foram cometidos ontem inclusive, por que não pergunta a ele? Ela se virou, os saltos ecoando de novo no pátio sagrado, agora profanado por sua presença. E à medida que se afastava, senti algo gelado descer pela espinha. As palavras dela me atingiram feito facas.
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