Capítulo Seis — O Preço do Que Não Foi Dito

674 Palavras
A manhã chegou sem luz. O céu permanecia cinza, pesado, como se a tempestade da noite anterior tivesse decidido ficar. Helena acordou com a sensação de estar atrasada para algo importante — não um compromisso, mas uma decisão. A casa estava silenciosa demais. Ela desceu as escadas devagar e encontrou Miguel sentado à mesa da cozinha, ainda vestido com a roupa da noite anterior. Os olhos estavam vermelhos, a mandíbula tensa, o corpo rígido como se tivesse passado horas lutando contra pensamentos que não davam trégua. — Você não dormiu — ela disse. — Dormir parecia irresponsável — ele respondeu, sem ironia. Helena se aproximou. — Depois do que Eduardo disse… — começou. Miguel levantou a mão. — Ele não falou aquilo por impulso. Ela sentiu um frio no estômago. — Como assim? Miguel finalmente a encarou. — Ele entrou com uma petição de urgência hoje cedo. — O quê? — Helena sentiu o coração disparar. — Como você sabe disso? — Porque ele usou meu nome. — A voz dele estava controlada demais. — Alegou conflito de interesses, influência emocional e risco patrimonial. Helena levou a mão à boca. — Ele quer me afastar de você legalmente… — Ele quer me tirar do jogo. — Miguel se levantou. — E está disposto a te usar pra isso. — Isso é culpa minha — ela disse, a voz falhando. — Não. — Ele se aproximou. — É culpa dele por achar que ainda manda em você. Helena segurou o braço de Miguel. — Miguel, olha pra mim. Ele tentou, mas desviou o olhar. — Não vá atrás dele — ela pediu. — Por favor. — Você sabe que eu não posso ficar parado. — Eu sei que você fica perigoso quando se sente encurralado. Miguel sorriu sem humor. — Eu sempre fui perigoso quando alguém tenta te tirar de mim. O silêncio que se seguiu foi tenso, quase físico. — Isso não é amor — Helena disse com cuidado. — É medo de perder. — Os dois sempre andaram juntos pra mim. O celular de Miguel vibrou em cima da mesa. Ele olhou a tela. O maxilar travou. — É ele — disse. — Não atende. Miguel atendeu. — Fala. A voz de Eduardo ecoou, fria, mesmo à distância. — Eu avisei. Agora é oficial. — Pausa. — E isso é só o começo. Miguel fechou os olhos por um segundo. — Você está brincando com coisas que não entende. — Estou protegendo Helena — Eduardo respondeu. — De você. Miguel se inclinou sobre a mesa. — Não use o nome dela na mesma frase que a sua covardia. Helena arrancou o celular da mão dele. — Eduardo, para com isso. — A voz dela tremia, mas não recuou. — Você não tem esse direito. — Eu tenho todos os direitos — ele respondeu. — Inclusive de provar que esse vínculo é tóxico. Helena desligou. O silêncio voltou — mais c***l. — Isso é a consequência — ela murmurou. — Ele vai me obrigar a escolher. Miguel se aproximou, segurando o rosto dela com cuidado. — Eu nunca vou te pedir pra escolher entre mim e sua paz. — Mas ele vai. Miguel soltou o rosto dela e se afastou, respirando fundo. — Então eu vou resolver isso do meu jeito. — Miguel… — Helena sentiu o medo subir. — Seu “jeito” sempre deixa cicatrizes. Ele parou na porta. — Algumas guerras não permitem mãos limpas. — Não faça nada que te destrua — ela pediu. Miguel a encarou uma última vez. — Já estou destruído desde o dia em que fui embora. A porta bateu. Helena ficou sozinha na cozinha, sentindo o peso da decisão que se aproximava rápido demais. Do outro lado da cidade, Miguel dirigia sem destino certo, os pensamentos em espiral. Ele sabia onde Eduardo estaria. Sempre soube. E, pela primeira vez, não tinha certeza se conseguiria parar a si mesmo. A aproximação deles tinha um preço. E alguém estava disposto a cobrar até o último centavo emocional.
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