Capítulo Oito — O Lugar Onde a Verdade Encosta

568 Palavras
A casa estava escura quando Helena voltou. Não por falta de luz, mas por escolha. Ela não acendeu nada ao entrar. Precisava do silêncio. Precisava da penumbra. Precisava sentir se ainda era dona daquele lugar — e de si mesma. Ouviu passos no andar de cima. Miguel. Ela parou no meio da sala, respirando fundo, como quem se prepara para atravessar algo que pode machucar. Ele desceu devagar. Não havia pressa. Não havia fuga. Quando se viram, nenhum dos dois falou por alguns segundos. — Eu estraguei tudo — Miguel disse primeiro. A voz estava baixa. Não defensiva. Não orgulhosa. Apenas cansada. Helena cruzou os braços, mas não como escudo. Era para se manter inteira. — Você me expôs — ela respondeu. — Me colocou no centro de algo que eu não pedi. — Eu sei. — Ele assentiu. — E eu faria tudo diferente… se pudesse. Ela se aproximou um passo. — Você cruzou uma linha, Miguel. — Eu atravessei todas — ele corrigiu. — Porque a ideia de te perder de novo me tirou qualquer noção de limite. O silêncio voltou, pesado. — Amor não pode ser ameaça — Helena disse, com a voz firme, mas os olhos brilhando. — Não pode ser pressão. Não pode ser medo. Miguel passou a mão pelo rosto, como se aquelas palavras doessem mais do que qualquer acusação pública. — Eu não sei amar sem intensidade — confessou. — Mas estou aprendendo que intensidade sem escolha vira prisão. Helena engoliu em seco. — Eu precisei me defender de você hoje — disse. — E isso… isso quase me quebrou. Miguel deu um passo para trás, como se estivesse se punindo. — Então me diga para ir embora — ele disse. — E eu vou. De verdade. Sem voltar dessa vez. Ela sentiu o peito apertar. — Não é isso que eu quero. Ele ergueu o olhar, surpreso. — Então o que você quer? Helena respirou fundo. Aproximou-se mais. Agora estavam frente a frente, sem espaço para mentiras. — Eu quero que você fique… — disse — mas não como alguém que luta por mim contra o mundo. Quero que fique como alguém que luta comigo. Miguel fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia algo diferente ali. Vulnerável. Nu. — Eu tenho medo de não saber fazer isso — admitiu. — Eu também — ela respondeu. — Mas fugir sempre foi o que mais nos destruiu. Ele estendeu a mão, devagar, dando a ela tempo suficiente para recuar. Helena não recuou. Os dedos se tocaram. Não foi um gesto desesperado. Foi cuidadoso. Quase reverente. — Se a gente cair — Miguel murmurou — vai ser feio. — Mas vai ser nosso — ela respondeu. Ele levou a outra mão ao rosto dela, encostando a testa na dela, respirando o mesmo ar. — Eu não prometo ser fácil — disse. — Eu não quero fácil — Helena respondeu. — Quero verdadeiro. Ali, no silêncio da casa que ainda guardava tudo o que eles foram, a escolha não foi feita com palavras grandiosas. Foi feita com permanência. Com o não afastar. Com o ficar. E, pela primeira vez desde que tudo começou, não parecia que estavam lutando um contra o outro — mas lado a lado, mesmo sabendo que o mundo ainda não tinha terminado de testá-los. A casa rangeu suavemente. Como se, enfim, reconhecesse que dois corações ainda batiam ali.
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