Capítulo 15 — O Que a Casa Escondeu

615 Palavras
A escada rangiu quando Miguel levantou o tapete antigo do corredor. Helena observava em silêncio, o coração batendo forte demais para um espaço tão pequeno. A casa parecia respirar com dificuldade, como se também soubesse que, depois daquela noite, nada permaneceria intacto. — Eu nunca quis que você descobrisse assim — Miguel disse, afastando a madeira solta do chão. — Mas você sabia que eu descobriria — Helena respondeu. — Sempre soube. Sob a tábua, havia uma pequena porta metálica, quase invisível aos olhos de quem não soubesse exatamente onde procurar. Miguel puxou a argola enferrujada com cuidado. O cheiro de papel antigo e poeira subiu no ar. Dentro, uma caixa. Helena se ajoelhou lentamente, sentindo as mãos tremerem antes mesmo de tocar nela. — O que é isso? — perguntou, embora já sentisse que a resposta mudaria tudo. Miguel demorou a falar. — A verdade. Ela abriu a caixa. Havia documentos, pastas, envelopes lacrados… e um pen drive preto, simples demais para carregar algo tão pesado. Helena começou a folhear os papéis, e seu rosto perdeu a cor conforme lia. Contratos. Transferências bancárias. Assinaturas. — Isso… — a voz falhou — isso prova que Eduardo forjou o processo contra mim. Miguel assentiu, o olhar carregado de culpa. — Prova mais do que isso. Mostra que eu sabia. Helena levantou os olhos lentamente. — Como assim… sabia? — Eu descobri antes da audiência — confessou. — Sabia que ele estava manipulando provas, comprando testemunhas… e fiquei em silêncio. O ar pareceu desaparecer dos pulmões dela. — Você me deixou ser destruída… sabendo que podia impedir? — Se eu falasse, Helena, eles me derrubariam junto. Eu estava envolvido até o pescoço em coisas que você nunca deveria ter tocado. Ela se levantou bruscamente. — Então você me usou como escudo. Miguel fechou os olhos. — Eu te amei como nunca amei ninguém… mas fui covarde. As palavras cortaram mais do que qualquer grito. Helena caminhou até a mesa e espalhou os documentos, tentando organizar não só os papéis, mas os próprios sentimentos. — Isso aqui — disse, apontando — pode anular todo o processo. Pode me limpar legalmente. — Sim — Miguel respondeu. — Mas só se você entregar tudo. Inclusive… — respirou fundo — …meu nome. Ela se virou devagar. — Seu nome está em todos esses documentos. — Eu sei. O silêncio caiu pesado entre eles. — Se você levar isso adiante — ele continuou — eu vou perder tudo. Liberdade. Dinheiro. Proteção. Helena sentiu as lágrimas ameaçarem cair, mas se manteve firme. — E eu perdi o quê, Miguel? — perguntou, com a voz baixa. — Minha carreira. Minha dignidade. Minha paz. Ele não respondeu. Porque não havia resposta possível. O celular dela vibrou sobre a mesa. Mensagem do advogado. “Helena, surgiu uma brecha legal. Se tivermos provas novas até amanhã, conseguimos reverter tudo.” Ela fechou os olhos por um instante. A escolha estava ali. Clara. c***l. — Se eu fizer isso — disse ela, segurando o pen drive — você vai pagar pelo passado. Miguel assentiu. — Eu sei. E mereço. — Eu te avisei — Helena murmurou. — Eu te avisei que não sobreviveríamos a segredos. Ela caminhou até a porta, os documentos apertados contra o peito. Miguel deu um passo à frente. — Você ainda me ama? Helena parou, mas não se virou. — Eu amei quem você fingiu ser. A porta se abriu. Antes de sair, ela disse, sem emoção: — A casa ainda batia dois corações… mas um deles escolheu parar de mentir. O outro vai ter que aprender a viver com o que fez. Ela saiu. Miguel ficou sozinho. A casa, agora, finalmente em silêncio.
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