Pela manhã, acordei com a luz do sol invadindo o quarto de Dean. Olho a minha volta e não o vejo, esfrego o rosto e levanto indo para a cozinha.
Sinto a sensação do chão frio tocar meus pés enquanto caminho descalça pela casa, quando chego na porta me encosto na escora e observo Dean mexer no fogão.
Ele fica tão fofinho quietinho, mas mesmo assim eu ainda prefiro aquele Dean hiperativo que não para quieto. Porém, que ele está fofinho assim, ele está.
Dean deve estar tentando cozinhar, aparentemente. Ele não está me vendo, parece tão distraído e tão pensativo que nem mesmo parece estar aqui entre as paredes desse cômodo.
Acho que devo estar envergonhada, porque não quero quebrar o silêncio e falar alguma coisa para que ele me veja, prefiro ficar aqui quietinha. Sinto como se nossa i********e tivesse acabado, me sinto até insegura ré falar com ele.
E é tão estranho, nem mesmo quando não nos conhecíamos e eu odiava ele, e ele também me odiava não éramos desse jeito tão frios um com o outro. Me custa acreditar que desde o dia em que ele me viu naquela situação não conversamos de verdade, porque parece que aquilo aconteceu há séculos.
— p***a! — Dean resmunga pondo a mão no peito enquanto me olha ali escorada na porta, e dá alguns passos para trás se encostando na bancada.
Sorri fraco querendo rir muito, mas não sentia vontade. Não estou dizendo? Era uma sensação tão estranha de não se sentir mais tão íntima de verdade, e isso me incomoda tanto.
— Desculpa, é só que… — Procuro alguma coisa para dizer, mas não me vem nada à cabeça. — Deixa para lá.
Dean simplesmente não diz mais nada e volta a fazer o que estava fazendo, mexe em uma embalagem de achocolatado, abre a geladeira e a fecha com o pé, depois volta para o fogão e parece mais me evitar do que concentrado no que estava fazendo.
— Ei… — Começo a falar encarando as suas costas, querendo saciar a minha dúvida que tenho desde o dia que tudo aconteceu, o momento era agora e também era uma ótima oportunidade para puxar assunto. Dean por outro lado continuava mexendo no fogão de costas para mim e nem sequer me olhava, e eu só continuava falando me convencendo de que ele estava me ouvindo. — Foi você quem chamou a polícia naquela noite, não foi?
Finalmente ele me olha com as sobrancelhas franzidas por cima do ombro e me encara fixamente como se estivesse realmente muito confuso e eu estivesse falando algo realmente muito maluco também. O que me fez questionar se o que eu pensei realmente tinha coerência.
Não fazia sentido, só poderia ter sido o Dean que chamou a polícia. Ao meu ver ele poderia ter tido motivos, se ele reparasse bem e fosse muito amargurado ele acharia uma boa ideia, já que vivo naquele lugar há quase 3 anos e nunca jamais a polícia apareceu e naquela noite, justamente naquela noite milagrosamente a polícia apareceu.
— Dean? Foi você ou não foi? — Questionei novamente insistentemente enquanto nos encarávamos e ele não respondia absolutamente nada.
Ele então desligou o fogão e se virou para mim pondo as mãos na bancada. Ergueu o tronco parecendo estar irritado, ou talvez até mesmo ofendido.
— Mas que p***a você está falando? — Dean franziu o rosto realmente ofendido com a pergunta. — Que merda eu iria ganhar fazendo isso? Eu saí da merda daquela boate fumaçando de raiva, a última coisa que eu estava me lembrando era de ligar para a p***a da polícia.
O encarei fixamente sentindo a fixa cair agora, e também confusa junto com ele. Porque, alguém ligou para a polícia naquela noite, mesmo que não tenha sido o Dean, se não foi ele quem ligou ainda assim foi alguém.
Não consigo pensar em mais ninguém.
Por que diabos o Jason iria ligar, não tem lógica ter sido ele. Não imagino mais ninguém.
— Quer chocolate quente também? Está fazendo um frio da p***a. — Dean fala em um tom baixo forçando simpatia virando novamente de costas para mim e de frente para o fogão.
— Quero, também preciso ir para a escola daqui a pouco. Na verdade… precisamos. — Pontuei.
— Ah, vá a merda! — Dean falou em um tom mais alto e mais rude me assustando e me fazendo encará-lo com os olhos bem mais abertos.
— Que porr…
— Vai continuar querendo mandar em mim? — Ele me interrompeu suavizando mais o tom, agora mudando o jeito de falar grosso que estava falando.
— Desculpa por querer o seu bem, seu i****a. Acho que preciso ser igual a Ava, não é? Se eu quiser que você goste de mim e valorize a minha preocupação com você. — Ironizei caminhando até ele e o empurrando para o lado.
Ponho o chocolate em uma caneca e sento na mesa enquanto ele apenas fica lá de pé em silêncio virado para a parede pensando em algo. O que atualmente ele só vive fazendo, pensando em algo.
Também não quero mais ficar bajulando ele toda hora, eu só levo patada e a situação sempre continua sendo a mesma. Estou cansada já. Também tenho os meus problemas para resolver e ele só sabe agir feito criança.
— Quer biscoitos? Fica melhor. — Ele pigarreou novamente, me imitou pondo chocolate em uma caneca virado de costas para mim forçando simpatia.
— Não, obrigada. — Respondi com o tom de voz mais baixo também. — O que foi fazer naquela merda de lugar? Ein, seu i****a? — Tudo bem, elevei o tom de voz novamente.
Mas toda a raiva que não senti ontem, parece estar vindo átona agora e eu preciso muito dar esporro nele. Até porque, ele já precisava de um esporro bem dado antes e não tinha ninguém para dar.
— Vai começar? — Ele me olhou por cima do ombro querendo se irritar também.
— Foi uma merda, sabia? Eu achei que não iríamos conseguir sair daquele lugar inteiros, é claro, eu passei por tudo sozinha porque o bonitão estava chapado e entupido de álcool.
— Eu não obriguei você a ir, você foi porque você quis. Então não venha pôr culpa em mim por uma escolha sua. — Dean gritou comigo. Ele estava apenas falando em um tom mais alto até agora, mas agora estava realmente gritando comigo. Gritando alto, elevando mesmo o tom de voz irritado.
Fiquei em silêncio olhando para ele, estava me sentindo magoada? Mas que p***a. Eu não quero ser aquelas idiotas que ficam magoadinhas porque o i****a insensível, o protagonista par romântico delas mudaram com elas, mas estava difícil.
— Então é isso? — Ri falso sentindo os olhos quererem arder, a garganta querendo queimar também e o estremecimento tomando conta, porém, esse estremecimento é de mágoa mesmo. — Nem um “obrigado”, ou um pedido de desculpas?
Dean me encarou por alguns segundos e quando terminei de falar ele elevou o tronco novamente, porque ele tinha até mesmo abaixado um pouco para gritar comigo.
Senti que ele estremeceu também, o olhar dele de decepção consigo mesmo era perceptível. Mas ele apenas balançou a cabeça e assentiu, parecia não mudar a própria percepção.
— É você quem está magoada agora? Esqueceu que você mentiu sobre si mesma? E agora é você quem está magoada? — Ele riu irônico. Riu mesmo, um longa risada de 5 segundos.
O encarei franzindo as sobrancelhas, não o reconhecendo mais. Como ele saiu daquele garoto incrível, e se transformou nesse i****a?
Mas eu já devia estar esperando, não é? Um garotinho amargurado desse, que me estrangulou na primeira discussão que tivemos, viciado em drogas e tem problemas com a mãe. O que eu devia estar esperando? Acho que era esse o problema, eu esperei demais dele.
— Por que não me disse, Ruby? Por que não contou para mim? — Questionou com o tom de voz cheio de indignação.
— Porque você não iria entender. — Respondi simples. — Ninguém leva a sério, eu já aprendi isso na minha última escola. Eu não podia correr o risco de que acontecesse tudo de novo nessa.
— Escondendo até mesmo de mim? — Riu novamente cheio de mágoa.
— Dean, não acha que é algo realmente muito íntimo para se contar?
— Poderíamos ter dado um jeito, eu tiraria você de lá. A gente nos virávamos juntos, acharíamos um jeito. Mas prefere esconder as coisas de mim?
— Eu não entendo você, sério.
— Mas você eu entendo perfeitamente, você é só uma menina imatura tentando se passar por madura. Quer dar conta de tudo sozinha e não aceita ajuda de ninguém. — Dean começou a ME dar esporro agora, igual ao que todo homem faz. Transformando o problema que era para ser ele, e fazendo parecer que eu era o problema.
— Chega, para, para, para! — Cobri os ouvidos sentindo a minha cabeça doer, as lágrimas querendo brotar nos olhos e o corpo derreter.
— Como quiser. — Dean diz aparentemente irritado, caminha para longe de mim indo para o quarto e bate a porta me deixando sozinha na cozinha.
Fico pensando comigo mesma, sozinha, enlouquecendo, afundando nos meus próprios pensamentos e levando em consideração que eu disse que o Dean pensa demais, mas notando agora mesmo que sou eu quem está pensando demais agora.