Safira tenta escolher as palavras certas para relatar o que descobriu naquele dia.
– Quando Deus percebeu que não podia controlar seus arcanjos, resolveu criar uma arma, mas não é qualquer arma, não é qualquer peça que possa ser domada, essa é indestrutível, imbatível, infalível.
Sofia e Tálaga encaram a bruxa que continua relatando os fatos, atentas aos detalhes, mas já sabendo de quem fala.
– Juliette. _ Sofia conclui.
– Sim, Juliette. Mas a ideia era ninguém saber, só seria usada caso necessário, porém, como sempre, Lúcifer descobriu da sua existência. Tentou pegá-la para si mais de uma vez, mas Jasmim tem uma p******o. Diferente de nós, ela tem o livre arbítrio, faz suas escolhas. _ A bruxa suspira. – Na última tentativa, o d***o foi preso na jaula. Seus irmãos entenderam o recado, não podem tentar influenciar Juliette, e nem conseguem, ela é imune a eles. _ As três se encaram.
– Você está me dizendo que Juliette não pode ser morta por eles? _ Tálaga pergunta.
– Temo que por ninguém.
– Deus!? _ É uma pergunta óbvia que a menor faz.
– Eu me fiz essa mesma pergunta, mas existem duas questões, a primeira, Deus sumiu, não aparece há séculos, não se sabe do seu paradeiro, seus filhos estão batalhando e ainda assim Ele não se manifesta, eu temo que todo esse enredo foi profetizado por Ele, estamos a mercê de um ser que nem sabe o que é. Segundo fator, Juliette não é um ser celestial normal, diferente do que pensamos, ela não tem poder, ela suga poder.
– m***a! _ Tálaga entende. – Suas alterações perto dos arcanjos.
– Sim, ela não estava sofrendo, estava sugando, sempre que eles se aproximam ela fica mais forte. Já sentimos sua força apenas com três arcanjos ao seu lado, temo que ela seja imortal se tiver os quatro perto. Por isso eu me pergunto, Deus seria capaz de m***r seus quatro filhos em uma batalha? Porque Juliette é exatamente isso, é o espelho dos quatro, ira, liderança, razão e compaixão. Deus a fez para controlá-los, porém precisa controlá-la também.
Quando Safira termina de falar, as duas continuam caladas, analisando a gravidade da situação. É pior do que elas imaginam, Juliette é muito mais do que esperavam.
– Tem mais. _ Elas voltam a encarar a bruxa. – Um sentimento está prevalecendo dentro de Juliette, o pior deles. Ela guarda ódio em seu interior, rancor, vingança, suas asas, se elas forem negras...
– Lúcifer. _ Sofia diz.
– Sim, ele vai usar isso a seu favor, agora vocês conseguem imaginar um mundo em que Lúcifer tem ao seu lado um ser como Juliette? Ele terá não só a sua desejada vingança, terá o medo, o ódio, a incerteza, e isso é o que faz os seres humanos agirem contrários aos ensinamentos do Pai.
Agora as duas tem a noção do que esperar. Na verdade, esperança é algo que as três mulheres já não têm certeza se existe.
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Juliette ergue sua mão, ela observa a pele branca, faíscas saem das pontas, aquilo é pura força, de todas as vezes que aconteceu essa é a mais intensa, mais frequente. Quando olha para frente, tem dezenas de anjos armados, prontos para atacar, seus olhos estão negros, suas asas estão negras, sua aura está n***a, ela perdeu tudo, nada mais importa. Nada é o que parece, só tem um pensamento, m***r, e nesse momento, aquele arcanjo é o seu alvo.
– Saiam do meu caminho, não quero machucá-los.
Uma mulher loira se aproxima e toma a frente da situação, sua arma está em mãos, pronta para atacar e defender seu líder.
– Não podemos, Juliette, não sei o que aconteceu com você, mas desse jardim você não passa. _ A ruiva olha para ela, admirando sua lealdade, mas ao mesmo tempo ignorando sua burrice.
– Raquel, como pode ser leal a ele?
– Não sou leal a ele, sou leal a quem se senta no trono. _ Juliette abaixa a cabeça e suspira.
– Então terei que passar por cima de vocês.
Foi questão de segundos e apenas um estalar de dedos, todos os anjos ali desapareceram, ficando apenas Raquel, da qual a ruiva se aproximou e segurou firme em seu pescoço.
– O que... O que é você? _ A loira pergunta com dificuldade.
– Eu? _ Juliette se olha de baixo para cima, pensando na resposta mais certa a dar para o anjo. – Eu sou a Herdeira dos Arcanjos.
Com isso faz a loira também desaparecer. Rafael já sente a sua presença. Ele sabe a verdade, não foi ele, foi Roman, foi Lúcifer que armou, porém Juliette está cega pelo ódio, aquele é um sentimento que tira a razão de qualquer um, principalmente de um ser que está deixando as sombras tomarem conta da sua aura. O arcanjo também entende o pedido de perdão do seu Pai, Deus sabia que aquilo aconteceria. Não demorou para Juliette entrar na sala, ao contrário do que esperava, Rafael está calmo, já aceitou seu destino.
– Olá, irmã. _ A ruiva encara o homem, seus olhos estão brancos, não pela possível batalha, mas pela necessidade de estar perante o ser que o matará como o arcanjo que é.
– Eu sinto sua força. Eu sinto todos vocês. _ Juliette ergue sua mão e a encara com dúvida. – Eu sinto que posso fazer o que eu quiser. É uma sensação estranha, mas é bom. _ Então ela olha para Rafael de novo. – Deus me fez para controlar seus filhos, para manter a ordem natural, eu vou fazer isso, Rafael, vou manter a ordem, aquela em que um assassino tem que pagar pelo seu crime.
– Você não é Deus, não tem o poder de julgamento.
– Não, você tem razão, eu não sou, mas onde Ele está? Seu filho está prestes a morrer e ainda assim Ele não aparece. Isso é justo, Rafael? Mas não se preocupe, você não será o único, Miguel... _ Nesse momento ela sente a raiva tomar conta do seu corpo. – Ele também morrerá, eu vou matá-lo, devo isso a Laura, a Samandriel e a Sofia, ele também será punido.
Rafael entende o sentimento de raiva e culpa que emanam da ruiva, ele sabe onde isso acabará, já teve um irmão sucumbindo às sombras, mas dessa vez é diferente, porque dessa vez não tem o Pai para se fazer prevalecer.
– Não a culpo, já passou por tantas aprovações, perdeu tudo, eu sinto a sua dor, Juliette, mas ela é falsa, as perdas são falsas, o medo é falso, o que prevalece é o amor ou ódio, cabe a você escolher qual caminho seguir.
Juliette fecha os olhos e suspira, quando os abre, se põe frente a frente com o arcanjo, agora Rafael sente com mais clareza a imensidão do poder da mulher, isso porque ela só tem um dos filhos de Deus à sua frente, quando tiver os quatro não dá para imaginar o tamanho da sua força.
– Eu tentei, Rafael, eu tentei por duas vezes seguir o caminho do amor, eu fiz a escolha certa, mas vocês... _ Ela trinca os dentes, demonstrando sua ira mais uma vez, os olhos negros transmitem a sua força. – Vocês não me deixam viver, vocês me puxam para essa guerra que eu não quero, eu juro que... Juro que... _ A mulher leva sua mão para o pescoço do arcanjo, fazendo ele agonizar com a energia que força seu corpo a explodir. – Você será o primeiro a sentir a minha renovação.
Ela aperta com mais força, mas antes que consiga o que quer, seu corpo é jogado para longe, Miguel a ataca, salvando seu irmão da morte. Juliette m*l sente o golpe, porque pela primeira vez está frente a frente com os quatro arcanjos.
Pela primeira vez pode sentir a totalidade do seu poder. Quando ergue os olhos, observa os quatro irmãos, todos em formação de combate, ao se levantar pode sentir com mais intensidade seu poder, observa a energia passar por seu corpo, mas algo está acontecendo, aquele corpo não é compatível, ele se destruirá, ela sabe, mas antes de acontecer terminará o que veio fazer li.
– Interessante. Pergunto-me quem devo m***r primeiro.
– Não precisa fazer isso, Juliette. _ Lúcifer tenta, ele sabe que já ganhou uma batalha, pois as asas são negras, mas ainda assim teme por sua vida. – Vamos lutar lado a lado, temos expectativas iguais. Vamos fazer desse mundo um lugar compatível para se viver.
– Segundo os seus conceitos? Dominação e punição? Não, eu prefiro viver segundo os meus. _ Juliette abre suas asas, mas o ato faz seu corpo ir ao chão, ele está desfalecendo, a fragilidade é visível para os arcanjos.
– Ela vai sumir, o corpo dela não vai aguentar tanta força.
Gabriel diz o que todos já sabem, mas essa é uma forma de chamar atenção dos irmãos, pois se Juliette desaparecer será quase impossível reencontrá-la, a não ser que ela queira que isso aconteça.
– Miguel, temos que sair daqui.
Rafael fala, o loiro se põe pronto para fazer isso, mas antes que aconteça, Juliette o olha, controlando sua ação, o deixando imóvel, assim como o n***o, ambos estão imóveis. A mulher se ergue, seu corpo humano está se destruindo aos poucos, permanecendo apenas a energia, uma nunca antes sentindo pelos arcanjos.
– Eu vou desaparecer, mas não antes de terminar o que vim fazer aqui. _ A ruiva se aproxima de Rafael, leva sua mão até o rosto do arcanjo e acaricia. – Perdão, irmão, mas é necessário.
Então a luz do corpo de Rafael começa a emanar por seus poros, cada pedacinho de energia está se dissipando, os irmãos observam sua morte, Miguel ao seu lado, imóvel, deixa cair uma lágrima solitária, sentindo a culpa. Antes que Rafael suma de vez ele fala.
– Eu te perdoo, Pai.
Com isso seu corpo some. Assim que a luminosidade da sala volta ao normal, Miguel sente que pode se mover de novo, mas quando tenta avançar para atacar Juliette, a energia pura se faz presente, o que o faz recuar.
– Veremo-nos em breve, Miguel.
Com isso some, não se sabe para onde, fator que deve trazer desespero aos arcanjos. Quando o tempo, o ar, o som, a aura volta ao normal, os arcanjos podem sentir a perda do irmão, mesmo sem assumir, eles sentem na própria vida a dor da morte de Rafael.
– Ela vai voltar para m***r você. _ Lúcifer diz, olhando para o irmão. Miguel ainda encara o corpo de Rafael caído no chão. Quando se vira para encarar o mais velho, enxerga o medo presente em seu olhar.
– Não só a mim, Lúcifer, ela virá atrás de nós todos. _ Então some da frente dos dois, Lúcifer então se vira para Gabriel.
– Boa sorte e tome cuidado, irmão, agora é cada um por si.
O d***o também some da frente do irmão. Gabriel se aproxima do corpo de Rafael e observa o quão frágil podem ser, seja humano ou celeste, todos estão expostos à morte.
– A Guerra Final começou.
Com isso o arcanjo também some da sala, deixando ali o símbolo daquele início, o corpo de um arcanjo caído no chão. Juliette está enfim consciente e já mostrou sua força, seja bom ou r**m, ela vai fazer o que prometeu, vai vingar suas perdas, porque agora ela sabe que pode.