Minha sandália e vestido estavam arruinados devido a chuva. Precisei pegar emprestado roupas de dona Flor. Uma camiseta e shorts, que ficaram grandes em mim. Ela disse que ia colocar na máquina de lavar meu vestido e depois, na secadora. E que a roupa estaria sequinha no dia seguinte. Eu fiquei irritada, pois isso me faria ficar ali por mais tempo.
Tomei um banho no banheiro do andar de cima e depois desci para a sala de estar. Lauren estava dormindo, depois do almoço, assim como minha mãe. Então, eu estava sozinha naquela casa. Ao menos, não havia sinal de Nicolas. Eu não sei se conseguiria olhar para ele sem sentir vergonha ou sentir meu corpo inteiro queimando só de pensar que poderia ter beijado ele. Seria um erro enorme se eu tivesse feito isso.
Como não havia muito o que fazer na sala, pois na tv grande, parafusada na parede, não passava nada além de canal aberto. Nem um filme interessante, só programa de auditório. Pensei que naquela casa grande poderia ter uma biblioteca. Então, comecei a procurar no cômodos do térreo, até que passei pela cozinha e pude ouvir uma conversa.
- Estou dizendo, acho que o patrão encontrou uma namorada - escutei a voz de dona Flor.
Aquilo me fez estacar e parar ao lado da porta, mas sem ser vista por alguém que estivesse ali dentro.
- Deus o livre - escutei a voz de outra mulher, que parecia ter a idade da dona Flor. Devia ser a cozinheira - Sabe que estão dizendo que o senhor Nicolas matou a esposa? E se for verdade?
Franzi o cenho. Não podia ser verdade aquilo, poderia? Já tinha escutado isso na empresa, mas nunca levei a sério.
- Alzira, como pode dizer uma coisa dessas? - dona Flor ralhou, parecendo irritada - Ele nunca fez isso não. Desde que veio pra fazenda e trouxe aquela mulher, já dava pra ver que a moça era estranha. Estava sempre triste e cabisbaixa.
- Sei não, heim - Alzira disse, com descrença.
- Escutando atrás da porta?
Quase gritei de susto, ao ouvir a voz de Nicolas soprar em meu ouvido. Recostei na parede, com a mão no peito. Ele me fitava com diversão e os braços cruzados sobre o peito. Estava com uma camisa branca, com as mangas arregaçadas até o cotovelo, e os primeiros botões abertos. Seus cabelos estava jogados para o lado, úmidos, deixando com o aspecto de ouro envelhecido. Ele era lindo até vestido com simplicidade.
- Eu não estava não - respondi, mordendo os lábios.
Ele balançou a cabeça.
- Venha comigo - ele disse.
Ou ordenou.
Eu queria ficar e escutar mais sobre a conversa das duas, mas resolvi seguir Nicolas. Se eu queria saber mais sobre o estranho segredo dele e da sua mulher, que deveria ser a moça que vi em um quadro, no quarto dele, então eu deveria perguntar. Mas, seria muito errado fazer isso. Eu sabia que sim.
Ele me guiou pelo corredor, passando pela entrada da casa e chegamos ao escritório dele. Havia uma estante embutida na parede, com livros. Não eram tantos livros, mas eu poderia pegar um emprestado, para matar o tempo. Quando entrei, ele fechou a porta e sentou em uma das poltronas de couro marrom. Havia uma garrafa de vinho aberto sobre a escrivaninha e uma taça, que estava com o vinho pela metade. Olhei para ele, sem entender.
- Sente-se - ele convidou, com um gesto com a mão.
Sentei-me na outra poltrona e pude ver a janela ao fundo. O vento açoitava com força agora e a chuva parecia que não daria trégua. Parecia que já era noite, devido a escuridão no céu. Olhei para Nicolas, que me fitava demoradamente.
- Por que me chamou aqui? - perguntei, receosa.
Pensei por um momento da esposa dele. Será que ela era tão infeliz e se matou? Ou ele a matou?
- Eu queria passar o tempo - ele respondeu, desviando o olhar para a janela - E também, eu não sei se deveria dizer que não matei minha esposa. Elisa era muito importante para mim e Lauren.
Mordi os lábios me sentindo m*l por ter pensando qualquer coisa r**m sobre ele. Nicolas parecia genuinamente triste.
- Eu não sei nada sobre isso e não estou fazendo acusações - eu me defendi. Afinal, não iria ficar bisbilhotando sobre a vida dele. Contudo, não poderia me enganar. Eu estava curiosa para saber quem era sua esposa falecida.
- Eu sei que você deve estar pensando sobre isso. Todo mundo pensa - ele disse, dando de ombros, sem me fitar - Mas, não é como se eu fosse culpado. Infelizmente, sofremos um acidente de carro e era ela dirigindo aquele dia, depois de uma briga.
Fiquei tensa ao ouvir isso.
- Ela morreu no acidente? - perguntei.
Ele assentiu.
- Infelizmente sim, mas todos pensavam que eu havia feito algo contra ela, depois que todo mundo a viu tão triste. Em todos os lugares que íamos, ela parecia melancólica demais. E sua morte foi demais para a família dela, que me acusou de negligenciar Elisa.
- Eu sinto muito - Era a única coisa que poderia dizer.
Ele me fitou, longamente, sem parecer triste ou feliz. Parecia cansado, na verdade.
- Eu não sei se sinto - ele disse, com a voz alterada - Na verdade, estou com raiva dela ainda. Ela não precisava ter bebido, ou me traído por tanto tempo.
Fiquei horrorizada ao ouvir aquilo. Observei que ele não parecia ter vergonha de falar de si mesmo e se expunha para uma completa estranha. Ele se levantou e pegou a taça de vinho inacabada e sorveu o líquido de cor bordo.
- Quer uma? - perguntou, ainda de pé.
- Não, obrigada - respondi.
- Bom, eu preciso disso hoje - ele disse, pegando a garrafa sobre a mesa e servido a taça até quase a borda e sentou de novo no sofá. O couro protestou sobre seu peso. Ele olhou para o líquido e bebericou - Não vai me perguntar nada sobre o que aconteceu comigo?
- Eu não sei se é uma boa ideia - eu disse, com a voz fraca.
- Me deixe explicar a você - ele disse, com a voz irônica - Sabe o que mais me dói? - neguei com a cabeça, sentindo que queria desaparecer dali - É que eu dei tudo que ela queria. Cada palavra, cada pensamento, cada quadro que pintei, cada memória. Eu dei meus bens a ela. Eu daria tudo a ela, na verdade, mas ela estava na cama com um desconhecido. Eu nem sei que era, mas eu a trouxe para o Brasil, como forma de puni-la. Afinal, eu viajava a negócios demais. Nunca estava em casa. O melhor era que ela vivesse com a sogra e junto com Lauren. Talvez, isso colocasse um pouco de juízo em sua cabeça. Mas, ela me odiou tanto por isso. Tentou se matar algumas vezes, mas eu já havia avisado minha mãe sobre suas tendências. Além dos empregados. Então, um dia ela bebeu tanto em um evento. Eu fiz o mesmo. Mas, ao invés de chamar um táxi, deixei que ela guiasse o carro. Foi ali que eu errei. Talvez, eu tenha deixado ela fazer isso deliberadamente, para que matasse a nós dois.
Ele ficou quieto e me senti confusa com aquela monólogo. Era sua própria confissão do seu casamento fracassado e da sua negligência em deixar a própria esposa conduzir o carro, alcoolizada. Ele deixou a taça sobre a escrivaninha, que estava próxima e puxou mais a manga da camisa social, apontando com o dedo indicador uma linha fina ao lado do cotovelo.
- Foi aqui que o vidro da frente do carro cortou - ele disse, olhando para mim, com os olhos escurecidos, sem a menor emoção. Depois, ajeitou a manga e afastou o colarinho, apontando para a base da garganta. Havia outra linha fina ali - Aqui também cortou. Minha perna quebrou em várias partes. Mas, eu não morri. Acho que alguém queria que eu vivesse, porque Lauren não merecia perder os dois pais, mas eu estava com tanta raiva.
Era visível que ainda estava, devido ao seu semblante se alterar, ao falar sobre o acidente. Ele apertava o maxilar e fechou os olhos, abrindo-os, evitando meu olhar.
- Eu não acho que isso seja sua culpa - Era a única coisa que veio a minha mente. Afinal, ele não a embebedou de propósito.
- Não tenha tanta fé em mim assim - ele disse, virando seu rosto para me encarar com um ar cínico. Engoli a seco, evitando olha-lo - Minha cozinheira tem razão. Eu matei ela, mesmo não a tocando ou não dirigindo aquele carro. Eu a incitei a dirigir em alta velocidade. Eu sabia que ela estava com raiva daquele casamento, mas eu quis castiga-la por seu erro. Eu nem sei...eu nem sei se Lauren é minha filha ou de algum amante dela.
Como ele poderia ser tão t**o? Lauren era a cópia dele, com os cabelos dourados e cacheados nas pontas. Com certeza, era sua filha. Mas, ele estava com raiva da esposa falecida. Apesar disso, um teste de DNA iria resolver o dilema, contudo, eu não seria a pessoa a dizer isso a ele.
- Acredito que você seguiu pela irracionalidade - disse, depois de um tempo em silêncio. Pude ver o semblante dele se tornou amargo - É verdade que todos nós fazemos isso, Nicolas. Você havia bebido, ela também e os dois se descontrolaram. Não foi algo deliberado, nem premeditado.
- Por que acredita tanto em mim? - ele perguntou parecendo surpreso e ao mesmo tempo descrente.
- Porque acredito que você não seja m*l. Deixou que a raiva cegasse você. E só acho você pedante - provoquei ele, sem pensar duas vezes.
Ele soltou uma risada rouca, a qual fez meu coração bater mais forte. Era tão estranho sentir aquelas coisas. Era como se meu corpo fosse despertado por ele. Fazia tanto tempo que nenhum homem fazia isso comigo.
- Ok, agora eu sou pedante? - ele perguntou, um pouco irritado e rindo ao mesmo tempo. Dei de ombros, fitando-o sem o menor remorso. Ele limpou o canto dos olhos, devido as lágrimas, pelo riso, que fora sincero e me vi sorrindo para ele - Tudo bem, eu sou um pouco. Acho que isso melhorou meu dia agora.
- E por que você estava bebendo sozinho? - perguntei, um pouco preocupada, mesmo não querendo estar.
Ele deu de ombros, mordendo os lábios.
- É um costume - ele respondeu - As vezes só gosto de provar bebidas novas. E está sendo frustrante tomar esse vinho sozinho. Tem certeza que não quer uma taça?
- Está bem, eu aceito.
Ele sorriu e se levantou, para pegar uma taça dentro de um armário com porta de vidro, atrás da escrivaninha. Havia vários copos de tamanhos diferentes ali. Ele pegou uma taça para mim e serviu o vinho e entregou em minha mão. Fizemos um brinde silencioso e provei a bebida, devagar. Senti o gosto seco, mas ao mesmo tempo suave. Era diferente de tudo que já havia provado. Eu não tão entusiasta de vinhos, mas já havia bebido em muitas ocasiões. Aquele parecia ser diferente e delicioso. Senti a bebida esquentar meu corpo inteiro.
- Gostou? - ele perguntou, olhando para mim de canto de olho, segurando a taça pela haste, com a mão esquerda.
- É muito bom - eu disse, sincera, bebericando mais um pouco da minha taça - Nunca provei nada igual.
Ele piscou para mim, um pouco convencido.
- Isso porque é um vinho português. É seco, mas não amargo, como alguns que já provei. O sabor é equilibrado - ele disse, como se soubesse realmente sobre vinhos.
Conversamos sobre suas viagens e as bebidas que ele já havia provado. Ele falou sobre sua busca constante por ruínas pela Europa e como era fascinado pelo que era antigo. Não era tão diferente de mim, que era apaixonada pela Irlanda e Inglaterra. Ainda mais em períodos antigos, que remontavam a história daqueles países. A Inglaterra e sua glória pelo tempo e a Irlanda que tinha um povo sofrido e que foi dominado pelos ingleses, mas que floresceu também como um país prospero. Não que eu quisesse também viver naqueles tempos, mas apenas gostava da histórias e das lendas por trás. Principalmente quando se falava sobre fadas e duendes. Nicolas fez uma careta engraçada quando ouviu minha opinião sobre isso.
- Se eu fosse você, não iria ficar tanto tempo na Irlanda. É possível que um elfo a roube e transforme em sua rainha élfica.
Gargalhei da sua piada boba. Ele sorriu para mim, daquele jeito que tirava o folego. E com certeza de qualquer mulher que o visse.
- Ok, vamos parar por aqui com o vinho e a conversa - eu disse, levantado com a taça vazia.
Notei que do lado de fora já estava escuro.
- Sabe, eu não concordei em ficar na sua casa hoje - eu disse, séria - Mas, já que estou aqui, vou aproveitar a hospitalidade.
Ele sorriu, malicioso e se levantou, deixando a taça sobre a mesa.
- A minha intenção é que você tivesse um final de semana muito interessante, assim como sua mãe. Não poderia ser somente um dia para conhecer minha propriedade. Eu só não contava com a chuva.
Balancei a cabeça. Ele pensava em tudo, realmente. Era cuidadoso em seus passos e não me deixara escolha a não ser aceitar.
- Ok, Nicolas. Eu vou procurar algo para comer agora - eu disse, sem ter o menor pudor. Afinal, a bebida me deixara zonza.
Quando dei um passo para sair do cômodo, o mundo girou. Nicolas me apoiou, tomando minha cintura com a mão. A proximidade era enervante. m*l conseguia respirar.
- Deixe que eu a levo. Vou buscar algo para você comer.
Aceitei a ajuda, pois não havia condições de protestar. Ele me deixou na sala de estar, dizendo que voltaria logo com a comida. Eu não conseguia compreender o motivo para ele ser tão gentil. E minha cabeça estava tão pesada, que apenas deitei no sofá, para ver se o entorpecimento do vinho passava.