Dormimos tarde relembrando momentos especiais em que passamos ao lado do eterno Doutor Álvaro. O luto mais uma vez bateu de frente com a família, e eu sei muito bem como eles ficam mediante a uma perda tão grande.
Miguel dormiu no quarto e eu no sofá. Na madrugada recebi uma notificação em meu celular; Anna me chamava para voltar em em seu apartamento. Alegando que tinha uma proposta para às duas meninas.
Nessa altura do campeonato eu estava aceitando qualquer coisa!
Pela manhã acordei com uma fresta do sol que reluzia pelo vidro. Me espreguiçei no sofá enquanto via às horas no relógio de parede.
Achei curioso pois ninguém mais usava esse artefato como decoração. Agora eu entendo porquê Miguel trouxe pilhas novas do supermercado.
Por falar nele quando me levantei já não estava mais em casa. Seu quarto estava com a porta aberta, e sua cama arrumada.
Fiquei imaginando onde Miguel pôde ter ido? Fui ao banheiro e escovei meus dentes pensativa. Fiz café na cafeteira e fiquei esperando as torradas ficarem prontas.
A porta se abriu e ele entrou apressado com sacolas.
- Bom dia! Disse sem me olhar. - Toma! Vista-se, que já estamos atrasados!
Ele me entregou uma sacola preta de papel kraft.
- Comprou roupas para mim? Perguntei incrédula.
- Você precisava de um vestido! Deu de ombros. - E já que não pode voltar pra casa ainda... Não ia te deixar ir com uma de minhas camisetas.
- Obrigada! Respondi com um sorriso. - É lindo! Falei tirando o vestido casual preto da embalagem.
- É o melhor que consegui! Respondeu pegando uma xícara no guarda louças.
- Não posso usar isso! Falei notando que ele tinha me comprado sapatos de salto.
- Sinto muito por ser eu a te comprar lingeries, mas não pode ficar lavando a mesma e colocando pra secar no meu banheiro.
Corei no mesmo instante.
- Eu falava dos sapatos... Respondi extremamente envergonhada.
- Aaah... Ele balançou a sua cabeça compreendendo. - Carol você é uma Monteiro! E por mais que odeie tudo isso, não pode chegar ao funeral do pai do Pither de xadrez e tênis!
Peguei minhas torradas na torradeira ainda assimilando o fato dele ter comprado calcinhas pra mim. Eu não sabia onde enfiar a minha cara!
- Relaxa... Disse com um sorriso de canto.
- Já fiz muito isso, comprar calcinhas não me surpreende mais!
Ele disse se sentando e provando de seu café. Miguel olhava atentamente seu celular, e eu tentei não me sentir tão boba.
Ele tinha razão, somente sua exaustiva experiência com mulheres o faria adivinhar o meu número de roupas.
Fui até o quarto me trocar tentando não pensar mais nisso. Fechei o zíper do vestido na lateral do meu corpo, admirando como ele me cabia perfeitamente.
O decote do vestido era quadrado, tentei ajeitar meus s***s dentro dele para não parecer tão vulgar. Calcei meus sapatos e soltei o cabelo, olhei-me no espelho e fiquei sem acreditar no que via.
Eu parecia outra mulher!
Abri a porta um pouco receosa, Miguel ainda olhava o celular quando me viu sair. Ele levantou seus olhos e eles se ampliaram, seu sorriso aos poucos foi se estendendo.
- Eu sabia que ia te servir! Disse orgulhoso.
- Você está linda!
Ele se levantou indo se trocar, fiquei puxando a barra do vestido um pouco incomodada. Infelizmente eu não era acostumada a me vestir assim.
Meu pai sempre teve ótimas condições mas eu nunca consegui ser sua princesinha. Sempre me vesti feito uma plebéia!
Quando Miguel saiu do quarto indo em direção a mesa de canto da sala, eu não pude deixar de olha-lo. Eu nunca o tinha visto de social.
Ele estava com uma camisa de botões preta, calça escura e sapatênis. Sei que é errado me sentir assim, estávamos indo a um velório! Vovô Álvaro que me perdoe mas eu não consigo parar de olha-lo! Ele é bonito demais!
- Vamos? Ele disse quando pegou a sua chave do carro.
Eu só consegui assentir para aquele homem. Talvez eu esteja fazendo uma confusão mental em minha cabeça! Essa semana foi completamente difícil pra mim. Fui enganada por um vagabundo! E teve toda aquela minha exposição na escola. Depois meu pai passa m*l, minha mãe praticamente me expulsa de casa. E eu tentando suicídio. Talvez Miguel ter me encontrado e me ajudado, me faça sentir gratidão e admiração por tudo o que fez!
Ou talvez eu deva olha-lo mais como o irmão do meu pai, do que como o homem charmoso e indecentemente sedutor que ele é!
Entramos no carro, tentei ignorar a sua colônia que estava me deixando desnorteada. Miguel e eu fomos calados o caminho todo, até que enfim ele falou:
- Vou te deixar próximo ao velório. Você entra, depois de um tempo eu apareço.
Sei que ele estava fazendo tudo isso por mim. Apenas assenti concordando.
E assim ele fez, me deixou na rua do velório, e eu fui caminhando até lá. Quando cheguei vi meu pai parado em pé na porta.
Ele veio ao meu encontro apressado.
- Carol, graças a Deus você está bem! Me abraçou fortemente.
- Oi Pai! O abracei também.
- Temi que você não viesse! Ele disse se afastando.
- Eu não poderia faltar... É a despedida do Vô Álvaro. Respondi.
- Eu estava com saudades... Disse beijando a minha mão carinhoso.
- Eu também Pai! Me afaguei em seu peito e ele me abraçou novamente.
- Agora vá falar com o seu tio querida... Ele disse fazendo um carinho em meu cabelo.
Eu amo o jeito maravilhoso de papai nunca me cobrar nada. Apenas celebrou que estou bem, sem sermões ou questionamentos.
Fui próximo ao caixão e vi Tio Pither chorar discretamente. Seus olhos verdes estavam pequenos atrás dos óculos.
- Eu lamento muito por essa grande perda tio. Meus mais sinceros sentimentos! Falei tocando em seu braço.
- Oh querida, obrigada! Ele disse dando me um abraço curto. E depois voltou a olhar para o seu pai.
- Ele parece estar dormindo... Falei próximo a ele.
- Sim... Tio Pither esboçou um sorriso triste.
- Meu pai está em paz Carol. Teve uma vida longa e plena!
Apenas assenti olhando para o Vô Álvaro. Meu pai dizia que depois que Esther se foi, Pither começou a ver a vida com mais gratidão.
E eu notei que ele chorava mas não de remorso, e sim pela falta que o pai ia lhe fazer!
Abracei fortemente Vovó Naná. A mulher mais bondosa e amável que eu já conheci na vida. Sempre fazia bolos deliciosos pra mim e pra gêmeas em sua casa.
- Meus pêsames vó! Falei próximo ao seu ouvido.
Ela agradeceu entre lágrimas. Diana realmente amava aquele homem.
Quando passei pelas gêmeas, Rebecca me puxou discretamente.
- Como você está? Disse com seu jeitinho doce.
- Estou bem! Dei de ombros.
- Depois a gente conversa... Raquel respondeu também me abraçando.
Elas ainda tinham essa mania de uma terminar a conversa da outra.
Assenti e deixei às meninas lá dentro, e saí de encontro ao meu pai que estava no jardim.
- Filha sei que a última coisa que você quer é falar sobre isso, mas quero te contar que aquele garoto malvado foi expulso do colégio. Seu Tio Pither e eu vamos processar a família dele, e você já pode voltar pra casa.
Fiquei sem saber o que responder naquele momento. Meu pai era tão apegado a mim que chegava a ser pegajoso! Mas um pegajoso que eu amava!
- Querida você me passa o número do telefone da família que te acolheu esses dias. Quero agradecer de alguma forma, por cuidarem da minha garotinha.
- Pai me desculpe más eu não vou voltar pra casa! Falei de repente.
- Como é que é? Ele disse assustado.
- Pai eu sinto muito mas eu não posso viver mais com a mamãe. Eu não a suporto! Desferi aquelas palavras mais como um desabafo.
- Meu bem, aquela é a sua casa! Os olhos de meu pai me comovia. - E tem eu! Que sou seu pai, não posso morar longe de você!
- Pai não finja que somos uma família! Você e a mamãe se odeiam. Ela m*l te dirige a palavra! Você só aguenta tudo por minha causa! Eu não sou boba. Há anos você vem suportando tudo sozinho para não haver um divórcio! Mas vocês nem sequer são um casal!
Meu pai baixou seus olhos sem poder negar o inevitável.
- Pai ela te despreza, e você é tão jovem ainda. E bonito! Deixe-a e vá viver a sua vida! Case-se novamente! E seja feliz! Esbocei um mero sorriso.
- Filha eu preciso cuidar de você, ainda tem dezesseis anos... Ele procurava empecilhos.
- Pai! Eu faço dezessete o mês que vem! E isso não importa. Eu já sei me cuidar! Você por outro lado já perdeu muito tempo naquela casa. Faça como eu, deixe tudo lá pra ela, e saía de cabeça erguida! O encorajei.
- Mas você é a minha menininha... Me puxou para um abraço.
- Eu sempre vou ser Pai! Senti seu maxilar em minha cabeça. - E porque eu te amo não quero mais que more naquela casa. Você merece mais... Mais do que uma vida vazia!
Senti ele afagar às minhas costas. E depois ouvimos a risada incoveniente de mamãe.
- Que linda cena de amor! Zombou. Papai e eu nos afastamos. - Carol, você chegou e não veio falar comigo!
Ela se fez de ofendida. Cínica!!
Papai me olhou nos olhos, eu ia responder algo mas fomos interrompidos pela presença de Miguel que apontou na calçada.
- Aaah meu Deus é o Miguel! A felicidade do meu pai era notória.
Ele saiu rapidamente, quase correndo em direção ao irmão.
- Andrezinho! Meu Tio Miguel abriu-lhe os braços.
- E pra piorar esse homem! Mamãe revirou os olhos.
- Por que odeia tanto meu Tio Miguel? Virei a olhando de frente.
- Esse promíscuo onde passa carrega imoralidade e o adultério. Seus maus hábitos abominam os olhos de Deus, e denigrem a família e os bons costumes!
Senti vontade de rir da cara dela.
- Já pode dar uma palestra, boa samaritana! Respondi censurando-a.
Vi quando Miguel e papai se afastaram e ele ainda com às suas mãos no ombro de papai brincou.
- Bom você não é mais o Andrezinho que eu deixei aqui. Andou malhando? Papai sorriu da maneira como o seu irmão o elogiava.
- Caroline espera... Mamãe me chamou quando me viu saíndo de fininho.
- Preciso ficar com o meu padrinho num momento como esse! Respondi não querendo falar com ela.
- Quero falar com você... Ela se aproximou me olhando nos olhos. - Você precisa voltar pra casa!
Fiquei abismada com a sua reação inesperada.
- Seu pai anda com uns comportamentos estranhos. Ele chega nas madrugadas, às vezes dorme no sofá. A última vez ele cheirava a uísque...
- E o que tem isso? Cruzei meus braços.
- Eu temo que seu pai tenha uma amante. A nossa funcionária disse que havia batom vermelho na camisa dele...
Dei de ombros como se não ligasse.
- Hello Carol, eu não uso batom vermelho! Ela desferiu irritada.
- Nem poderia, há anos você não sabe o que é beijar o meu pai! Soltei o ar irritada. - Está querendo me manipular para que meu pai continue amarrado a você como um animal em cativeiro!
- Carol eu... Ela começou e eu a interrompi.
- Não mãe! Eu desejo de coração que meu pai esteja mesmo conhecendo alguém! Alguém que o ame! Que devolva a alegria que você o tirou dele todos esses anos. Faz uma coisa... Deixe o meu pai em paz!
E voltei para dentro do salão.