O que pensa que está fazendo? - Carol

1963 Palavras
— Nós nos vimos no funeral — respondi ao meu padrinho, evitando ao máximo encarar Miguel. — Como você cresceu! — ele disse, ainda se divertindo com a situação. Como consegue ser tão descarado?! — Tio Miguel é o nosso padrinho... — Becca surgiu da piscina, passando pela porta com o cabelo ainda molhado. — Carol, que bom que você veio! — disse me abraçando, antes de se virar para ele. — Você vai amar o meu padrinho! Aah, claro que vou... pensei, ardendo de raiva. — Eu não ganho nenhum abraço? — ele provocou com um cinismo que só ele sabia usar. Minha mãe tinha razão quando dizia que Miguel era “cínico e dissimulado”. Mas até hoje me pergunto: como ela descobriu isso tão cedo? Todos me olhavam, esperando uma reação. Para não levantar suspeitas, respirei fundo e, na força do ódio, fui até ele. O abracei rapidamente, mas foi nesse instante que tia Angel entrou na sala e desviou a atenção de todos. Aproveitando-se da distração, Miguel inclinou o rosto e aspirou discretamente o cheiro da minha pele, bem no vão do meu pescoço. Um arrepio percorreu todo o meu corpo, me traindo. Ele então se afastou com aquele maldito sorriso de canto. Como eu odeio esse homem! — Caroline, querida, como você está? — tia Angel me acolheu num abraço caloroso, e eu agarrei a chance de me afastar dele. Enquanto ela conversava comigo, Miguel já estava confortavelmente sentado ao lado do meu tio Pither, como se nada tivesse acontecido. Fui até a cozinha com minha tia, interessada no almoço que Olivia preparava — tudo para manter distância dele. Alguns minutos depois, Becca veio me buscar. Sempre doce, sempre gentil. — Vamos pra piscina! — disse, me puxando pela mão. Voltamos para a sala, onde Pither e Miguel ainda conversavam. — Você não trouxe biquíni, né? Pode pegar um dos nossos! — Becca sugeriu, toda prestativa. Miguel soltou um risinho de canto. — Ah, não, obrigada... prefiro não entrar hoje — respondi, constrangida. — E o seu pai, Estherzinha, como está? — ele cutucou, afiado como sempre. — Ela prefere ser chamada de Carol agora... — meu padrinho interveio, maravilhoso como sempre. — Ah, me desculpe! — Miguel sorriu, divertido. — Ele está bem, obrigada. Saiu hoje em viagem, titio! — retruquei, notando o sorriso orgulhoso surgir no rosto dele ao perceber que eu contra-atacava. — Quer beber alguma coisa? — meu padrinho perguntou. Minha vontade era responder: me dê o uísque mais forte que tiver. Mas apenas neguei. — Olivia acabou de preparar um suco de laranja pras meninas. Pega um pra ela, Becca — Miguel disse, zombando de mim. Fumaça quase saiu dos meus ouvidos. Ele tinha coragem de me oferecer suco de laranja, depois de termos virado quase um alambique inteiro na noite passada, em meio ao pagode?! Não sei qual era o jogo dele, mas estava claro que só eu percebia. Becca, sem desconfiar de nada, trouxe o suco. Bebi em silêncio, fulminando Miguel com os olhos. Logo aceitei o convite de me sentar com minhas primas à beira da piscina, apenas para escapar das provocações dele. Elas foram solidárias quando falei sobre o que Guilherme tinha feito comigo no colégio. Becca, sempre mais sensível, acariciava meu ombro, me consolando. Depois contei sobre a mudança, sobre dividir apartamento com outras meninas. Raquel vibrou, achando a experiência o máximo — ela sempre quis ser a mais adulta entre nós três. Já Becca, doce como sempre, ficou ao meu lado o tempo todo, empática com cada detalhe da minha história. Enquanto eu conversava com minhas primas na beira da piscina, senti o peso de um olhar me atravessando. Não precisei virar para confirmar: era ele. Miguel estava ali, recostado numa das poltronas da varanda, copo em mãos, como se fosse apenas mais um convidado relaxando. Mas seus olhos me acompanhavam em cada movimento, em cada gesto, como se fosse dono de um segredo que só nós dois conhecíamos. Tentei ignorar, mergulhando na conversa com Becca e Raquel, mas era impossível não sentir o calor de sua presença. A cada risada que eu dava, tinha a nítida sensação de que ele se divertia junto — não com as palavras, mas com a minha tentativa desesperada de parecer imune. — Carol, você tem que aproveitar! — Raquel insistia, jogando água em mim. — Vamos te arrumar um biquíni, chega de ficar escondida. — Eu já disse que não quero... — respondi, forçando um sorriso. Becca, percebendo meu desconforto, apenas acariciou meu braço em silêncio. Ela sempre soube quando não era hora de insistir. Do outro lado, Miguel levou o copo aos lábios, lentamente, como quem saboreia não apenas a bebida, mas também a minha inquietação. A cada gole, aquele sorriso maldito surgia de canto. Ele sabia que estava me desestabilizando. Meu coração batia rápido demais, e eu tentava me convencer de que era apenas raiva. Mas, no fundo, havia algo mais. Algo perigoso, proibido, que me corroía por dentro. Me levantei, inventando uma desculpa qualquer para ir buscar uma toalha. Precisava me afastar, respirar, retomar o controle. Mas, ao passar pela varanda, senti sua presença ainda mais forte. Ele não disse nada, apenas deixou que nossos olhares se cruzassem por um segundo. Foi rápido. Intenso. Quase sufocante. E naquele instante, eu soube: Miguel não ia parar. Ele jogava um jogo silencioso, onde cada provocação era calculada, cada olhar, uma armadilha. E pior... eu não tinha certeza se conseguiria resistir por muito tempo. Quando cheguei à sala, tio Pither surgiu vindo da cozinha. — O almoço está pronto, querida. Vou chamar as meninas! Agradeci em silêncio, aliviada. Pelo menos assim Miguel pararia com aqueles olhares insistentes. Na sala de jantar, sentei-me entre as gêmeas. Tio Pither ocupou a cabeceira, com tia Angel ao lado, depois Gael e, por fim, Miguel. Meu priminho falava sem parar, distraindo a mesa inteira. Eu, no entanto, me mantinha concentrada em qualquer coisa que não fosse Miguel, evitando a todo custo cruzar meu olhar com o dele. Era minha tentativa desesperada de autoproteção — temia que, se nossos olhos se encontrassem, algo fosse revelado. O barulho de talheres batendo nos pratos, as risadas de Gael e as histórias de tio Pither preenchiam o ambiente, mas para mim parecia tudo distante. Eu só conseguia sentir a presença de Miguel do outro lado da mesa, como se um ímã invisível me puxasse na direção errada. Arrisquei um rápido olhar, e me arrependi na mesma hora. Ele estava me observando com aquele meio sorriso insolente, como se se divertisse com a minha luta interna. Baixei os olhos imediatamente, apertando o guardanapo no colo para disfarçar o nervosismo. — Está gostando da comida, Carol? — tia Angel perguntou com a voz doce, quebrando meu transe. — Está deliciosa, tia, obrigada. — respondi tentando soar natural, mesmo com o coração acelerado. Miguel pigarreou, e todos voltaram suas atenções para Gael, que havia contado mais uma de suas histórias engraçadas. Aproveitei o alívio momentâneo, mas logo senti de novo: aquele olhar ardente, cravado em mim. Engoli em seco. O almoço parecia interminável. Quando todos deixaram a mesa, ouvimos Léo anunciar que alguém havia chegado à casa. Parecia ser amigo das gêmeas. Assim que fiquei sozinha com Miguel, caminhei até ele e sussurrei, carregada de raiva: — O que pensa que está fazendo? — falei o encarando de frente, tentando intimidá-lo. — Estou apenas curtindo meu domingo em família... e você? — respondeu, com aquele cinismo irritante. — E esses olhares, esses risinhos? Sabe que o Pither não é bobo, não sabe? — retruquei indignada. — Juro que não sei do que você está falando... — devolveu com sarcasmo, fingindo inocência. Eu estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas ouvi meu nome ecoar da sala. Respirei fundo e fui até minhas primas, para ver o que estava acontecendo. Ao chegar, encontrei as duas rindo junto de um garoto. Perto dali, meu tio conversava animado com um homem que imaginei ser o pai dele. — Essa é a nossa prima, Carol! — Becca me apresentou sorridente. — Carol, esse é Bernardo Trajano... — Muito prazer. — O rapaz estendeu a mão em cumprimento. Segurei sua mão educadamente, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Miguel entrou na sala sorrindo. Só que, quando seu olhar cruzou com o de Bernardo, aquele sorriso se apagou de imediato. Bernardo e o pai foram extremamente educados comigo — e até com Miguel. Mas eu poderia apostar que algo o incomodava profundamente, porque sua animação desapareceu num piscar de olhos. Raquel logo puxou Bernardo para a piscina, e acabamos todos nas espreguiçadeiras, conversando. Ele parecia íntimo das gêmeas, trocavam confidências sobre amigos em comum e lembranças de festas. De repente, Bernardo voltou a atenção para mim: — Quantos anos você tem? E em qual escola estuda? Fiquei um pouco surpresa com a mudança repentina de foco. — Ela faz dezessete essa semana! — Raquel se adiantou, respondendo por mim. — Então temos uma pré-aniversariante aqui! — ele comentou animado, arqueando as sobrancelhas. — E estuda na mesma escola que a gente! — completou Becca, sorridente. — Agora deixem a Carol responder… — Bernardo brincou. — Por que eu nunca te vi antes com as gêmeas? Senti o rosto corar. Não estava acostumada a ser o centro da atenção. — Bem… eu não sou muito de sair de casa. — Dei de ombros com um sorriso tímido. Bernardo me olhou fixamente nos olhos, e então assentiu exibindo um sorriso caloroso. Ele era simpático, mas aquele olhar constante me deixava desconfortável. Pela parede de vidro da sala, eu conseguia ver tio Pither, Miguel e o senhor Trajano conversando. Mas sempre que podia, Miguel desviava os olhos para a piscina, observando cada gesto, cada palavra trocada entre nós. — E então, onde vai ser a festa? — Bernardo perguntou de repente, inclinando-se um pouco mais próximo a mim. — Festa? — perguntei confusa. — Sim, moça! A do seu aniversário… Eu gostaria muito de ir! — Ele sorriu, animado. — A Carol odeia festas! — Raquel confidenciou, divertida. — Nem a de quinze anos ela quis fazer! — Ah, não pode ser! — Bernardo disse, em tom de desapontamento. — Mas dessa vez você vai deixar a gente organizar algo, não vai? — Seus olhos brilhavam de entusiasmo. Eu não sabia o que responder. As gêmeas vibravam com a ideia, ansiosas, como se já estivessem planejando cada detalhe. E então, de repente, todos os olhares recaíram sobre mim, esperando uma resposta. Fiquei sem reação por alguns segundos, sentindo meu estômago revirar com tantos olhos sobre mim. Eu nunca soube lidar bem com esse tipo de expectativa. — Eu… eu não sei… — murmurei, tentando escapar da cobrança. — Como assim não sabe?! — Raquel quase se jogou em cima de mim, rindo e me cutucando. — Vai ser incrível! — Isso mesmo! — Becca completou. — Faz tempo que não comemoramos nada juntas, Carol. Vai ser especial. Bernardo me fitava como se já tivesse certeza da minha resposta, sorrindo com uma confiança que me deixava ainda mais nervosa. De repente, um arrepio percorreu minha pele. Senti um olhar pesado, insistente. Quando ergui os olhos em direção à sala de vidro, lá estava Miguel. Encostado de maneira displicente na moldura da porta, copo em mãos, observando a cena. Seu olhar não era de diversão, tampouco de simples curiosidade. Havia algo mais… algo que queimava em silêncio. Me desconcertei imediatamente, desviando os olhos. — Então, Carol… podemos considerar um "sim"? — Bernardo insistiu, inclinando-se ainda mais próximo, com aquele sorriso confiante. Antes que eu pudesse responder, escutei uma risada seca atrás de nós. Um som abafado, mas que arrepiou cada fio do meu corpo. Miguel. Ele havia se aproximado.
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