Estávamos todos bem

4810 Palavras
            Minha primeira semana de aulas foi um compilado de coisas intensas somadas a um monte de coisas que meus professores diziam e pareciam não ter nenhum sentido, eu m*l percebi o tempo passar, m*l encontrei com Spencer e quando a sexta feira finalmente chegou, eu estava exausta e com um grande numero de tarefas para realizar e um enorme complexo de culpa por talvez, não estar prestando atenção total às aulas: - Se o segundo ano é isso, no terceiro vão arrancar o nosso couro com as unhas – Lindsey dava um surto antes mesmo de terminar de guardar os livros – eu nunca vi tanta coisa, meu Deus, meu cérebro vai bugar esse ano, Mariah. - Não me fala – fechei o armário e encarei minha amiga – não consigo entender como as pessoas se mantem calmas e equilibradas – sorri e indiquei Justin sorridente caminhando em nossa direção. - É o negócio que ele fuma – Lindsey sacudia ele pelos ombros – reage, menino, o mundo tá caindo na sua cabeça! - Eu estou de boa – ele disse rindo e bagunçando o cabelo de Lindsey – eu aproveitei as férias para dar uma passada nas leituras obrigatórias, acho que ganhei um tempo com isso... - Você não tem irmão mais novo – ela disse revirando os olhos – passei o verão com aquele projeto de demônio, meus pais estão me mantendo escrava das vontades daquele pirralho. - Isso vai passar – Justin tinha muita calma ao falar – mas e aí? Quais os planos de sexta feira? - Sem planos – respondi, com uma pequena tristeza, afinal, Spencer não havia me convidado para fazer nada naquele fim de semana e eu nem mesmo sabia porquê... - A gente podia sair amanha a noite? – Justin propunha – Sei lá, caminhar no píer, comer alguma coisa, é isso ou quando piscarmos os olhos, o verão termina com a gente ocupado demais com esse monte de m***a – ele sacudia alguns papéis nas mãos – e sem ter curtido. - Eu topo – Lindsey respondeu prontamente. - Eu aviso vocês – no fundo eu tinha esperanças de que Spencer fosse me chamar para fazer algo.                 Voltei para casa sem ver meu próprio namorado porque ele estava em uma reunião da comissão de formatura e aproveitei para começar as tarefas daquela semana antes que elas virassem um imenso monte de coisas pendentes, e eu ainda precisava pensar sobre as ideias de Lindsey sobre o conselho estudantil, não havíamos feito nada a respeito disso naquela semana.                 Estudei por três horas, até minha mãe chegar e invadir o meu quarto super empolgada falando de negócios e de trocar o carro, querendo companhia para ir ao salão na manhã de sábado, precisando de umas dicas sobre o funcionamento das redes sociais e dizendo que faria o jantar, era quase como um furacão às vezes... Spencer me ligou assim que ela saiu do quarto: - E ai princesa – ele disse animado – desculpa ter demorado tanto hoje... - Tudo bem – suspirei – sei que deve ter muita coisa pra fazer esse ano. - Acredito que vai ficar pesado – ele bocejou – e o que vamos fazer? - Mamãe vai cozinhar, quer vir? - Pensei nisso – ele suspirou – mas acho que fico em casa e a gente se vê amanhã, preciso fazer um resumo ainda, e meu orientador quer uns rascunhos de redação... - Tudo bem – respondi, e estava tudo bem ele tinha compromissos – nos vemos amanhã então.                 Assim que desliguei, continuei meu trabalho até mamãe chamar para o jantar, nesse momento guardei minhas coisas e encerrei os estudos da semana, precisava de uma folga para a minha cabeça também. Lavei a louça enquanto mamãe organizou a cozinha: - E aí? Como estão todos os bebês? – mamãe perguntou. - Estão ótimos, acho que todos estão se virando muito bem.  - Nossa – mamãe sacudiu a cabeça – estranho isso, né? De repente um monte de bebês... - Ah sim – suspirei – acho que estou um pouco saturada... - Bem – ela riu – pelo menos minha casa é território livre de bebês. - Refúgio de paz – eu ri – vou ao salão com você amanhã. - Que ótimo, minha filha – ela sorriu – marco para as dez horas... - Perfeito, quero correr pela manhã ainda.                 Tivemos mais algumas conversas superficiais e logo mamãe foi para o seu quarto. Eu me dei ao luxo de assistir um pouco de séries antes de dormir, e mesmo prometendo que o faria cedo, não fui para a cama antes das duas da manhã, e assim que o despertador tocou para minha corrida as seis, levantar foi quase impossível.                 Eu havia convidado Spencer para correr comigo, mas em vão, porque ele estava praticando todas as atividades físicas acompanhado de um personal chato, digo, personal trainner que achava melhor que ele corresse em uma esteira, em ambiente controlado, do que na rua, sujeito a sol ou chuva. Se para ele estava bom, quem era eu para questionar, mas detestava ter definitivamente, perdido a parceria. Então, assim que o meu despertador tocou, vesti minhas roupas de corrida e sai em um percurso novo, pelo píer, eu precisava de um novo percurso para uma nova casa...                 Corri em torno de oito quilômetros, era o que eu costumava fazer quando estava disposta, e cheguei ao fim sentindo-me inegavelmente cansada e um tanto i****a. Assim que cheguei em casa, pensando em um banho, café da manhã e uma manhã agradável, fui surpreendida com minha mãe semi vestida correndo feito louca pela casa: - Querida, bom dia – ela disse antes de enfiar-se no banheiro e continuar gritando lá de dentro – de ultima hora, preciso dar um pulo na Geórgia – ela suspirou – a sua avó, não passou bem, e a sua tia está bem, me culpando por nunca estar por perto... - Tudo bem – respondi dando ombros, mas achei uma ideia péssima pensar que eu teria que ficar em East Garden – meu único plano era o salão com você... - Certo – ela saiu pela porta sorrindo e enfiando uma necessaire na mala sobre o sofá da sala – telefonei para o seu pai e disse que iria viajar – ela me encarou – mas disse que você precisava estudar esse fim de semana, então se não for, está tudo bem. - Obrigada – respondi com sinceridade – acho que vai sem abraço – eu ri – preciso urgente de um banho... - Queria que me deixasse no aeroporto – ela pediu – embarco em duas horas. - Tudo bem – sorri – deixo você lá. - Certo – ela sorriu – e deixei o horário marcado no salão para você, caso ainda queira ir. - Ah, sim, eu vou sim – respondi agradecida, afinal, um dia de beleza não era algo que eu costumasse recusar – não vou contar ao papai sobre isso, para ele não me julgar. - Ah, acho melhor – ela respondeu-me – para o banho!                 Subi as escadas correndo e em poucos minutos encarava meu guarda roupas indecisa: acabei optando por um vestido preto básico, sapatilhas e uma jaquetinha de couro, caso a previsão do tempo se concretizasse e a chuva resolvesse cair no fim da manhã. Deixei minha mãe no aeroporto, segui para o centro onde me dei ao luxo de passar o resto da manhã em um salão, cortando e hidratando meus cabelos, fazendo as unhas, limpeza de pele e sobrancelhas, e assim que sai de lá, feliz e contente de ter aproveitando um momento totalmente meu, respondi a única mensagem que Spencer havia me enviado: - Onde você está? – era tudo o que dizia. - Acabei de sair do salão, levei minha mãe para o aeroporto... – respondi. - Vim te ver e você não estava – ele respondeu e logo enviou – o que vai fazer agora? - Agora, eu vou para casa – respondi. - East Garden? – ele perguntou. - Não, vou ficar no chalé esse fim de semana. - Sozinha? – ele pergunta. - Pretendia não ficar sozinha, para ser sincera, achei que ficaria comigo. - Certo – ele enviou um gif alegre – encontro você lá daqui a pouco, vou buscar almoço. - Okay, obrigada.                 Dirigi lentamente para casa, conforme a previsão, chovia na costa e o vento era fresco. Quando cheguei, m*l tive tempo de trocar de roupa até que Spencer chegasse com risoto de camarão e bolinhos de peixe fresquinhos que ele havia comprado em um restaurante no píer, era um dos nossos lugares favoritos, e quando descobrimos que poderíamos buscar comida lá, se tornou o melhor do mundo. - Você está linda – ele disse me encarando – assustadoramente linda. - Obrigada – respondi convencida – mamãe resolveu me mimar. - Porque vai ficar aqui, se ela viajou? - ele parecia curioso. - Ela conversou com o papai – dei ombros – falou que eu estava atolada com coisas da escola, o que não é uma mentira, mas a verdade é que eu e a Lorena não estamos muito bem desde o Natal, e a casa está tão cheia, e tem os choros...  - Uhm, e porquê não estão bem? – lembrei que não havia contado a ele sobre a conversa com ela, e logo o fiz, de forma resumida. - Nossa – ele parecia surpreso quando terminei – não penso em você como essa garota, acredito que a sua madrasta esteja se sentindo um pouco insegura. - Também pensei nisso, a Donna falou disso também – revirei os olhos – só não imaginei que isso me incomodaria tanto, sabe? - Entendo – ele abraçou-me – mas é o seu pai, e a sua vida... Ela precisa entender o seu lado também. O que a sua mãe achou disso tudo? - Não contei a ela – era verdade – mamãe já tem seus próprios dramas, ela não gostaria de saber e não é necessário, não expliquei muito, apenas disse que preferia ficar em casa e ela deu o jeito dela. - Então casa é aqui agora? – ele riu – Quando estávamos em Hidden Hills, casa era o East Garden, agora casa é aqui no Pier... - Sim – encarei ele muito séria – acho que eu estou começando a deixar de pertencer aos lugares, e isso é b em estranho... - Calma – ele me fez cócegas – você só vai embora no ano que vem. - Se eu for embora... - Vai para New York comigo, não? – ele encarou-me com olhar de cão perdido – Precisa ir para a Columbia e então, seremos só nós dois no Greenwich Village, e você vai amar, com todas as cafeterias e bookshops... - Vou tentar a Columbia – respondi com sinceridade – mas precisa se ater a dura realidade de que eu não sou esportista, nem tenho nada demais. - Mas e o conselho estudantil? – ele me encarou – Não me diz que desistiu. - Não desisti, apenas não somos populares o suficiente para angariar votos. - Certo – ele sorriu – mas eu tive uma ideia quanto a isso. - Uhm, e qual seria essa ideia? - Vocês me chamam para a chapa de vocês, como conselheiro de assuntos esportivos, e eu consigo convencer a galera do football, eles são bem burros – ele riu. - Não parece uma ideia r**m – encarei ele novamente – você faria isso? - Com toda a certeza – ele respondeu – podemos pensar em alguma garota popular para fazer parte também, não como presidente do conselho, nem nada importante, mas tem umas garotas que acham importante ser mais do que uma b***a rebolando no intervalo dos jogos. - Vou conversar com a Lindsey a ideia foi dela... - Claro – ele respondeu – só pensei que talvez ajudasse, o grêmio é uma forma interessante de aparecer com alguma coisa que faça a diferença.                 Conversamos sobre a escola durante o almoço, e eu me sentia bem, e ao contrário do restante da semana, não me sentia insegura com relação a Spencer, e isso era engraçado, detestava ter que conviver com ele no meio das outras pessoas, mas adorava ele sozinho comigo, apenas porque quando estávamos com outras pessoas, tinha muita gente tentando chamar a atenção dele, e ao meu lado, ele a dedicava cem por cento para mim.                 Passamos juntos todo o resto do fim de semana – papai detestaria saber disso, e eu sabia – e deixamos a tarde de domingo para dedicarmos apenas às tarefas da escola, Spencer me ajudou com álgebra e eu revisei os rascunhos de redação que ele precisava mostrar para o seu orientador, tivemos uma discussão sobre a necessidade dele escrever suas próprias fichas de leitura ao invés de tentar copiar as minhas e ainda no fim do dia, conseguimos dar fim na lista de tarefas dos dois, ficando orgulhosos de nosso trabalho.                 Spencer voltou para sua casa à noite, e eu acabei dormindo sozinha, acordando atrasada e me culpando por não ter sido mais responsável. Perdi uma parte da primeira aula, levei uma bronca e ganhei uma nova tarefa: resumo da queda do Império Romano, para entregar na semana seguinte: - O Rogers está insuportável – Justin tentou me tranquilizar enquanto guardávamos as coisas – ele discutiu com o Peter na quinta-feira, vocês souberam? - Não – respondi um pouco desinteressada. - No fim ele disse “é a Mia que teve um filho, cara, sem desculpas” – ele riu – acho que o Peter atrasou alguma coisa. - Pode ser – isso me fez lembrar que eu não havia oferecido ajuda à Mia naquele fim de semana, e logo enviei uma mensagem à ela, me colocando à disposição – mas ele não pode fazer isso... - Acho que ele faz isso por que não levam ele a sério – Lindsey disse – ele é muito jovem, comparado aos nossos outros professores, e acho eu os alunos pegam pesado. - Ele faz isso porque está inseguro – disse Phil intrometendo-se na conversa – é inseguro, jovem e gay, a escola inteira está comentando, tem professores que m*l o cumprimentam, em pleno século vinte e um... – ele parecia indignado.                 Lindsey e eu nos encaramos como quem acabou de ter uma ideia brilhante: uma pauta contra preconceitos, apoiada por um professor cujo a dia estava sendo infernal dentro da escola poderia ser interessante para o posicionamento da nossa chapa, e com isso, no fim das aulas daquele dia, eu e ela nos reunimos no Santa Barbara’s para discutir essa ideia. - Boa tarde – Jeremias Rogers sentou-se na mesa conosco – soube que vocês duas estavam querendo falar comigo... - Ah, boa tarde, professor – sorri nervosa. - Se é sobre o seu trabalho extra, eu sinto muito, mas não voltarei... - Não – Lindsey respondeu tomando as rédeas da situação – a verdade é que comentamos que o senhor tinha pedido extra pelo atraso da Mariah e uns amigos do ultimo ano, disseram que os alunos as vezes não levam você a sério, que era complicado... - Sim – ele respondeu ainda muito sério – estudei em lugares assim a minha vida toda: professores conservadores e retrógrados, alunos que acreditam que os professores devem algo a eles – ele suspirou – e eu, jovem, homossexual e insuportável, escolhi esse trabalho por pensar que um dia, conseguiria fazer a diferença, mas está difícil... - Ah sim – achei que era hora de pedir desculpas – aproveitando, professor, nunca tive a intenção de ofender você com meu atraso, simplesmente perdi a hora, tem sido meio doido as vezes, e não se preocupe, o trabalho será feito e eu vou conferir meu despertador. - Acho que vai mesmo – ele sorriu e apertos os olhos e logo largou o cardápio sobre a mesa e indicou alguma coisa para a atendente, que entendeu – mas então, o que gostariam de falar? - Estávamos pensando em uma chapa para o conselho estudantil – Lindsey disse – e bem, acreditamos que as atitudes dos alunos e dos demais professores não tem sido as mais corretas em relação as questões de bullying e preconceito... - ... e então – complementei – pensamos que talvez, tendo em vista que seria uma bandeira que talvez você gostaria de carregar... - Vocês querem que eu apoie a chapa de vocês? – ele pareceu empolgado com a ideia. - Não – respondi prontamente, deixando-o confuso – na verdade, as chapas de conselho, elas têm um professor orientador, e gostaríamos de convida-lo. - Eu estou lisonjeado, meninas – ele pareceu emocionado – mas talvez isso não seja bem o que vocês precisam, sabem, os demais professores e os próprios alunos... - Sabemos que será difícil – Lindsey respondeu – mas se a escola que queremos é livre de amarras e preconceitos, não vejo porque nos preocuparmos com isso, precisamos vender a nossa ideia e assumir nosso lado na briga, desde o começo. - Então está certo – ele sorriu – eu aceito! – ele tinha os olhos marejados – Nunca pensei que isso aconteceria em um lugar como o Highland Hall – obrigada, meninas, obrigada.                 Conversamos com o professor por mais de uma hora, ele prometeu nos auxiliar nas questões burocráticas junto à escola e Lindsey e eu, resolvemos que era hora de formar a chapa: Lindsey presidente, Ming vice, eu secretária geral, Justin tesoureiro, Spencer secretário de esportes, Phil secretário de comunicação e Maggie, uma cheerleader colega de Spencer e super popular, secretária de eventos. Nossa pauta, era a busca de uma escola plural e unida, onde o respeito e a cooperação prevalecem e preconceitos não são tolerados, éramos um grupo “estranho” e a outra chapa, era formada por um pessoal do último ano meio anônimo com uma proposta um tanto quanto genérica.                 A semana transcorreu tranquila: nossos intervalos eram regados a distribuição de folhetos e bem, com o passar de alguns dias, diversas pessoas “aleatórias” aproximaram-se de nosso grupo, agora inseparável, para dizer palavras positivas e de apoio. Alguns pais apareceram no fim da semana, pediram para conversar com Rogers e com algum representante, eles representavam a associação de pais e disseram estar orgulhosos de nossa coragem e persistência, e que contássemos com o apoio deles, conforme Rogers, era legal para eles parecerem politicamente corretos.                 No fim da semana trabalhei com o meu pai e fiquei com ele em East Garden, ignorei minhas raivas de Lorena e apenas aproveitei os bons momentos com minha irmãzinha que estava a coisa mais fofa do mundo, joguei baralho na sexta a noite com meus primos e minhas tias, preparei bolo de limão para o café da manhã, trabalhei na loja durante a tarde e ajudei Henry a decidir qual era o melhor cercado para meu afilhado, que eu vi apenas por alguns minutos.                  Na noite de sábado, papai faria churrasco e Spencer jantaria conosco, perto das dezoito horas, ele entrou em meu quarto um tanto quanto estranho: - Oi princesa – ele disse meio desanimado. - Oi papai – sorri e deixei de lado o meu livro – o que houve? - Sabe o que é... – ele não sabia como dizer aquilo. - Uhm, o que houve? – encarei ele. - A Lorena esqueceu de comentar, ela tem um jantar com os colegas do distrito hoje a noite. - Ah – achei estranho – tudo bem – sorri para ele – eu vou esperar o Spencer e aí saímos, sei lá. - Não vai ficar triste? – ele pareceu desconcertado. - Não, tudo bem – sorri – só pensei que seriam legal, enfim, não queria atrapalhar... - Você nunca atrapalha – meu pai disse e abraçou-me. - É, eu sei – sorri. - E se fizéssemos algo no almoço de amanhã... – meu pai começou a sugerir e nesse momento a porta do meu quarto foi aberta e Lorena o invadiu: - ... impossível – ela respondeu um tanto irritada – amanhã preciso descansar.  - Você estava ouvindo atrás da porta? – perguntei indignada. - Não, eu apenas estava passando e ouvi... – ela pareceu envergonhada. - Anda ouvindo demais, ultimamente – respondi furiosa – querem saber? Tudo bem, não vai mais roubar a atenção de ninguém – levantei-me subitamente e comecei a guardar minhas coisas na mochila – e pai, pensa se você ainda quer que eu trabalhe na loja. - Mas Mariah – ele pareceu confuso – o que está acontecendo? - Nada – respondi muito séria – não está acontecendo nada. Apenas acho que estou roubando atenção demais ultimamente ao esperar que meu pai e meu namorado convivam...  - Vai se fazer de vítima agora – Lorena disse – você é inacreditável, Mariah. - Pode sair do meu quarto, por favor? – pedi a ela. - Mariah, você não pode expulsar a Lorena... - Ela entrou sem ser convidada e eu só quero guardar minhas coisas, você pode ir também... - O que está acontecendo com vocês duas? – meu pai gritou indignado. - Acho que a Lorena explica para você – respondi enfiando meus tênis.                 Lorena começou a gritar histérica, que eu não tinha limites, que eu era mimada e não a respeitava, meu pai apenas dizia não entender o porque de tudo isso e tentou por diversas vezes me convencer a ficar, coisa que não conseguiu porque dez minutos depois do início da discussão eu já tinha saído de casa. Não quis voltar para o chalé, não quis fazer nada, apenas rodei um pouco, parei o carro e chorei por um tempo, odiava essa situação com Lorena, ela parecia ser tão legal, mas nos últimos tempos, ela vetava todos os programas familiares e me excluía das coisas, até mesmo do nascimento da minha irmã, havia "esquecido" de me ligar e o meu pai, eu não queria incomodar ele com isso, não queria causar mais problemas.                 Spencer me ligou perto das oito horas, estava preocupado e nervoso, no fim, eu nem mesmo o havia avisado que o churrasco estava cancelado, e quando ele atendeu, tudo o oque eu pude fazer foi chorar e dizer para ele onde eu estava: estacionada em frente a entrada do shopping porque não sabia para onde ir, pensei que ele ficaria furioso por eu não ter ligado, mas assim que ele chegou, me puxou para fora do Impala e me abraçou apertado, dizendo que sentia muito que eu estivesse passando por aquilo tudo e que ele me entendia.                 Fiquei sabendo que o papai e ele haviam conversado quando ele foi no East Garden, e que meu pai havia dito que não sabia o que estava acontecendo comigo, Spencer disse que não sabia também, mas pediu-me que conversasse com o meu pai, que ele nunca adivinharia quais eram os meus problemas e que talvez, uma boa conversa, franca e esclarecedora, conseguisse limitar a minha madrasta e deixar-me um pouco mais a vontade quando estivesse no East Garden.                 Os dias que se seguiram foram de muito trabalho com a chapa para o conselho e empenho para deixar as tarefas da escola em dia, havia prometido voltar ao East Garden no fim da semana e conversar com o meu pai, coisa que eu não consegui cancelar, então, na manhã de sábado, Spencer foi para o treino e eu para a loja do papai. - E então? – meu pai entrou no escritório assim que teve uma folga – Não acha que precisa me dizer o que está acontecendo, mocinha? - Olha só – larguei os papeis e encarei meu pai – sabe que eu odeio criar confusão, não sabe? Que detesto encrenca e que tudo o que eu quero é paz, mas enfim... No Natal, quando tudo aquilo aconteceu, eu tinha avisado a Lorena e ela não disse nada, mesmo sabendo que eu não tinha sido a garotinha irresponsável que você estava pintando. - Tudo bem – ele pareceu nervoso – mas isso não é motivo... - Eu sei – encarei ele novamente – mas a verdade é que durante as férias, ela passou muito tempo ouvindo conversas que não diziam respeito a ela e se intrometendo em coisas que não tem nada a ver com ela, e isso inclui a vida da minha mãe, minha futura faculdade e meu relacionamento – suspirei – sei que vai dizer que ela quer o meu bem, mas então, tivemos uma conversa onde ela pediu desculpa pelas atitudes dela, e disse que eu “roubava a atenção” quando estava em casa, isso é o que está me incomodando, não me sinto mais em casa em East Garden, porque ela não esta feliz com minha presença lá, ela não me deixa ser participativa com a Guadalupe e tudo mais...  - Sim, Mariah, mas a Lorena acabou de dar à luz... - Okay, pelas minhas contas, fazem três meses, se você acha correto que ela invente coisas de ultima hora para cancelar algo que nós dois combinamos ou que ouça conversas particulares atrás das portas ou ainda, que tente de toda forma me excluir da vida dela e da sua, por consequência, não posso fazer nada, a não ser lamentar, porque eu não sou a menininha que rouba a atenção, eu simplesmente me excluo de onde não sou bem vinda.                 Meu pai olhou-me e eu pude ver que ele estava com raiva: - Não aceito isso – ele gritou – não vou permitir que você fique inventando uma guerra com a minha esposa, Mariah.  - Eu não inventei uma guerra, mas ela está passando dos limites e eu quero e preciso de paz, então, evitarei o East Garden – encarei-o muito séria – de verdade.                 Não deixei que ele terminasse, apenas peguei de volta os meus papeis e dei continuidade ao meu trabalho. Lorena me enviou uma mensagem perto das duas e meia, perguntando se eu poderia ficar com o Bud, porque ela estava tendo crises alérgicas, simplesmente mostrei a mensagem para o meu pai e avisei que buscaria meu cachorro e o levaria para casa, não consultei mamãe sobre isso, mas ela não pareceu se importar muito com a companhia canina.                Voltei para o chalé e na quarta-feira no fim do dia, quando finalmente consegui chegar em casa, me surpreendi com o carro do meu pai na frente do chalé. - Oi – ele disse envergonhado assim que entrei pela porta. - Oi – respondi largando a mochila sobre a escrivaninha – tudo bem? - Tudo sim – ele disse – a Lorena foi para Albuquerque... - Ah, legal – sorri – e ai? - Poderíamos ir jantar no Thed’s... - Obrigada, mas eu já jantei – nesse momento minha mãe lançou-me um olhar fulminante. - Certo – ele disse – então vamos tomar um sorvete. - Tudo bem – respondi derrotada, percebi que ele queria conversar comigo sem a minha mãe e que ela acreditava que eu deveria fazê-lo.                 Assim que entramos no carro do meu pai, ele começou: - Sinto muito – ele disse – de verdade, eu tenho estado tão ocupado e empolgado com todas as coisas que eu acho que não percebi essa questão toda, mas sim, até mesmo a sua avó me telefonou, e tem razão, você não rouba atenção nenhuma, também ficaria revoltado se alguém dissesse isso... - Certo, vai ficar tudo bem – respondi. - Sim, vai, com toda a certeza – ele continuou – conversei com a Lorena, ela acha que pode ter pegado pesado, mas sabe como são os hormônios. - Justifique como quiser – respondi – de verdade, não me sinto à vontade com ela, lamento, mas isso não vai mudar. - Tudo bem – meu pai me abraçou. - E assim, não importa o que ela diga, ela mandou até mesmo o meu cachorro embora. - Verdade – ele suspirou – e eu vou sentir falta, se você quiser levar ele de volta... - Não – respondi seca – meu cachorro, fica comigo e tá tudo bem. - Não queria que fosse assim. - Pode ser que mude, quando os hormônios se acalmarem – respondi incrédula. - Sim, sim – ele sorriu – e então? Chocolate e o que mais? - Abacaxi – respondi satisfeita. - Tudo bem – ele sorriu – vou pegar para nós.                 E as coisas pareciam mais aceitáveis depois de uns abraços, conversa séria e sorvete, eu me sentia um pouco melhor e ao mesmo tempo, pior, porque eu percebi que nunca mais seria como antes no East Garden, mesmo depois do papai ter prometido conversar com Lorena. Bud pareceu satisfeito com a mudança e bem, mamãe não se importava com ele roncando no tapete ao lado da cama dela, nem no melhor lugar do sofá, então, estávamos todos bem, apesar de tudo. 
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