NARRAÇÃO POR DON
O corpo sem vida aos meus pés é erguido por dois homens. A corrente de ferro esganada em torno de seu pescoço — minha marca registrada — balança no momento em que ele é enfiado no saco preto e jogado no porta-malas.
— Mande lembranças ao Reis, seu filho da p**a — cuspo.
Quando o carro vai embora, levando o corpo, fico sozinho na penumbra de um dos dutos do Tártaro. Desse lado, o cheiro de morte impregna as paredes. O subterrâneo é como um labirinto que conheço muito bem, é aqui onde dou fim àqueles que não são bemvindos.
Meter uma bala na cabeça desse miserável teria me poupado tempo, mas também diversão. Meu abdômen está sujo de um sangue que não é meu. Há respingos em meus braços e rosto. O líquido vermelho pinga dos meus pulsos e se mistura às poças no chão. Meus dedos, como de costume, arrebentados. De alguma forma, tudo isso alimenta minha alma doente.
Perdi a conta de quantos desses vermes foram mandados atrás de mim, me seguindo pela calada da noite, se escondendo no tumulto das lutas até finalmente serem farejados. A paranoia do primeiro ano como fugitivo, quando achava que seria morto a qualquer momento, me fez tão escaldado que me tornei blindado. Eu sinto, toda a maldita vez, quando estou sendo observado ou seguido.
Reis, o desgraçado que me quer morto, sabe que não sou mais o moleque medroso que fugiu do Rio de Janeiro para São Paulo, tentando se esconder de toda a merda que aconteceu. Agora, sou aquele que revida, que está cada vez mais perto de fazê-lo ruir.
Por isso, faço questão de devolver seus capachos com o rosto desfigurado de tanta porrada, mortos por estrangulamento, assim como fiz com o desgraçado do filho dele, há cinco anos. Um lembrete do que fui capaz e do que ainda sou.
Volto até o vestiário do Tártaro e tomo uma ducha fria. O sangue escorre para o ralo, levando toda a adrenalina junto. A sessão de tortura antes de matar aquele homem foi a única coisa que conseguiu tirar a infeliz da minha cabeça desde nosso último contato no Oásis. Mas agora que o problema foi resolvido, a cobra rasteja de volta aos meus pensamentos, se apossando do que não deveria ser dela.
Fecho os olhos sob a ducha forte. Tento me afastar das lembranças, mas a cobiça retorna como uma onda de ressaca, se espalhando pelo corpo e se acumulando em minha virilha. O rosto dela inebriado de prazer, seus gemidos, a sensação dos meus dedos dentro de sua b****a quente e encharcada… Peguei a safada no flagra. E foi gostoso pra c*****o.
Não esperava vê-la ali, escondida e, p***a, se masturbando. Achei que fosse alucinação. E, quando eu pensei que Louise negaria até a morte e sairia correndo de vergonha, fui surpreendido outra vez com ela cedendo e implorando para ser fodida com meus dedos.
A loira é uma libertina assumida, e isso me deixa louco.
A atração e o desejo por essa garota foram inegáveis desde o primeiro contato, mas não imaginei que ficaria maluco a ponto de me esquecer que ela não é qualquer uma e que preciso tomar cuidado com cada passo. Minha vingança contra o Reis não é o único objetivo na minha lista; seu amigo promotor, Rossi Salles, está tão marcado quanto o miserável.
Já faz três semanas desde que a masturbei a filha dele no canto daquele quarto e cada b****a que comi depois disso não foi capaz de me satisfazer. Eu a imagino no lugar de cada uma delas, assim como a imaginei naquela noite, enquanto a loira da boate me mamava. É f**a admitir que escolhi aquela p**a porque se parecia com Louise. Soa como a p***a de um moleque na puberdade, e só piora. Penso o tempo inteiro na maldita pirralha, no cheiro dela em meus dedos e nas atrocidades que eu faria. Mas preciso me controlar, não posso colocar tudo a perder pelo t***o doentio que sinto por ela.
Saio da ducha e me visto com as peças de roupa que deixei no armário. Tenho que voltar para o esconderijo agora que Felp viajou de volta para o Rio. Divido o apartamento com ele, um espaço em um prédio industrial condenado aqui perto, em um dos terrenos que Otto comprou para usar em interesse próprio. O Tártaro é onde passo a maior parte do tempo e sempre foi assim. Quando não estou lutando, estou treinando. Mas, sem Felp por lá, alguém precisa cuidar do Zeus.
— Nem na sua folga consegue ficar com as mãos livres de sangue. — Lorena se aproxima segurando uma cerveja. — Deu um jeito no cara que estava te seguindo? — Assinto enquanto ela me passa a garrafa. Bebo um gole. — Você está bem?
— Melhor do que nunca.
Ela bufa, desacreditada. Estamos no andar superior do Tártaro, observando o movimento lá embaixo começar a se dissipar. A última luta da noite acabou.
— Acha que sempre vai ser assim? Esses homens atrás de você, essa sensação de ter alguém desejando sua morte…
— Você se acostuma.
— Mas não deixa de ser cansativo, não é?
— Por que esse assunto agora?
— Por nada. — Ela suspira, debruçando-se no parapeito de ferro. — Me preocupo com você, com Otto, Felp, Vince… Todos nós somos fodidos, levamos essa vida perigosa de merda. Vocês porque fizeram escolhas erradas, e eu porque fui forçada. Nascer irmã do Otto é quase uma sentença de morte.
— Você poderia estar em qualquer lugar desse mundo com o dinheiro do seu irmão, Lorena. Está aqui porque quer.
Ela me encara, ofendida.
— c****e, Don. Você fala essa merda como se não me conhecesse. Sabe que estou aqui pelo mesmo motivo que você. Essa é a prisão na qual me sinto livre. Protegida. Lá fora, por mais liberdade que tenha, é como estar completamente sozinha no mundo. E aqui… pelo menos eu tenho uns babacas pra chamar de família.
— Eu sei. E, enquanto eu estiver aqui, sempre terá.
Ela desvia os olhos magoados.