ENTREGANDO REFLEXÕES - final

1481 Palavras
E ali, naquele cenário grotesco, Samuel sentiu o estômago embrulhar — não pela sujeira em si, mas pelo que ela simbolizava. Olhou em volta, viu rostos apressados, gestos vazios, e pensou na podridão maior: a do mundo que o cercava. Um mundo onde os mais fortes dominavam os mais frágeis com a frieza de um carrasco entediado. Um mundo em que tudo era negociável, desde a dignidade até o próprio corpo. E em muitos casos, nem era necessário o corpo inteiro — uma parte já bastava: um rim, uma córnea, um pedaço da alma. Com a mente turva e os olhos secos, começou a falar consigo mesmo, baixinho, como se alguém o escutasse de dentro do crânio. Como um louco que dialoga com as vozes que habitam os corredores sombrios da própria mente, murmurou: "O que foi que aconteceu com esse lugar? Quando foi que tudo isso apodreceu de vez? A gente anda por aí como se não estivesse vendo, mas vê. Vê e engole. Engole porque se falar, ninguém escuta. E se escutarem... riem. Como é que eu vim parar aqui? Por que é que minha mãe ainda acredita em gentileza, quando tudo virou moeda de troca? Tudo é dinheiro. Dinheiro... Esse m*l necessário que destrói amizades finge amores e separa famílias. Tudo o que é de r**m surge através dele, quando ele não é bem utilizado. Ainda bem que não sou como esses ajuntadores de fortunas, que passam a vida inteira juntando dinheiro para se “aposentar”, e depois morrem, deixando o dinheiro acumulado pra outros gastarem em questão de segundos – pensava em voz alta. O coletivo agora serpenteia lentamente pela Rua da Frente, uma artéria pulsante da cidade que, à luz crua dos postes e das vitrines decadentes, se transforma num palco para os desejos mais urgentes e ocultos da carne. À noite, esse pedaço do mundo se despe de moralidades e abraça os excessos — ali, prostitutas de batom borrado, travestis de saltos altos e garotos de programa com olhos atentos ocupam as calçadas como sentinelas do prazer noturno. Eles esperam, como sempre, dispostos a negociar o corpo, a urgência, o esquecimento — tudo por um preço. A rua fede a perfume barato, cigarro e sonhos interrompidos. Samuel, com o rosto colado ao vidro sujo da janela, observa aquele espetáculo com o distanciamento de quem já viu demais e ainda assim não viu tudo. Não julga. Não se espanta. Apenas registra. Talvez fosse um reflexo do que o mundo se tornou — ou sempre foi. A viagem chega ao fim. O ônibus, outrora um caldeirão de ruídos e conversas fragmentadas, desacelera, entregando-se ao silêncio quase cerimonial da Avenida Augusto Maynard. A cidade agora muda de tom. As vozes se calam. Os pássaros da Praça Tobias Barreto cantam suas melodias despreocupadas, alheios ao que se passa nas ruas por onde Samuel andou. Ele desce do coletivo com passos certos, quase ritualísticos, e caminha por algumas centenas de metros até entregar a encomenda — um pacote pequeno, envolto em jornal, que muda de mãos sem perguntas ou cerimônias. Missão cumprida. De volta ao ponto onde havia descido minutos antes, ele se acomoda no banco de concreto, esperando outro coletivo. O tempo ali parece correr diferente, como se os segundos tivessem o dobro do peso. No canto da visão, ele nota um grupo de skatistas desafiando o asfalto, deslizando com uma leveza que contrasta com a gravidade de tudo ao redor. Riem, caem, levantam, tentam de novo — são jovens, vivos, e por um instante, invencíveis. Samuel os observa com um misto de admiração e ceticismo. Pensa na massa amorfa que forma esse país, na multidão que aceita o pão seco e a distração como consolo. Até quando, se pergunta, viveremos como massa, e não como povo? Até quando a minoria rica e corrupta ditará as regras e os castigos, enquanto os outros assistem calados? O coletivo enfim chega. Samuel entra. O banco é o mesmo, o trajeto também, mas algo nele já não é. As ideias dançam em sua mente enquanto o ônibus avança. É como se ele estivesse revivendo algo — um déjà-vu discreto, íntimo, que se repete em suas viagens semanais. E é nesse torpor entre a observação e o pensamento que ela aparece. A garota. Do nada. Ela surge em meio à paisagem cinzenta e úmida de um domingo frio, sombrio e nublado. Tem cabelos longos e vermelhos como labaredas calmas, e olhos que, por algum motivo, parecem reconhecê-lo. Ela sorri. Um sorriso que não é sedutor, nem caridoso, mas... algo entre os dois. Um gesto que se fixa em sua memória como uma impressão digital. Samuel continua a viagem até a casa da mãe, onde o aconchego convive com os silêncios e os conflitos não resolvidos da infância. Ele carrega no olhar um quê de nostalgia, uma inquietude que não se explica. E entre as lembranças que não quer ter e os pensamentos que não sabe controlar, só uma pergunta martela: — Afinal de contas, garota... quem diabos é você? Daquele dia em diante, o encontro fortuito com aquela menina de cabelos cor de fogo, que irradiava uma aura de independência e autoconfiança, tornou-se o divisor de águas na existência de Samuel. Antes, ele era a personificação da complacência: um poço de gentileza, esmerado em educação, incansável na busca por aprovação. Abria mão de seus próprios desejos, sufocava ambições e engolia oportunidades, tudo em nome de uma aceitação efêmera e inatingível. Obedecia sem questionar, priorizando as necessidades alheias, relegando-se invariavelmente ao segundo plano. Mas naquele dia, parado em meio ao turbilhão de suas concessões, a ficha caiu como um raio em céu azul. "Para quê essa pantomima de bom moço?", questionou-se, a amargura tingindo suas palavras silenciosas. "Para nunca satisfazer a todos, para colher incessantemente críticas? Basta!" Uma decisão germinou naquele instante, firme e inabalável: a hora da metamorfose havia soado. Naquele despertar para a própria individualidade, Samuel compreendeu a sabedoria intrínseca em reconhecer o fim de um ciclo. Ele visualizou nitidamente que insistir em perpetuar aquela existência morna, pautada pela eterna preocupação com o outro, drenaria sua alegria e obscureceria o horizonte das novas experiências que sua juventude ansiava por vivenciar. "Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos...", murmurou, saboreando a liberdade contida naquelas palavras. "O rótulo é irrelevante. O essencial é deixar para trás os momentos da vida que já cumpriram sua jornada." E, como uma profecia auto-realizável, a transformação interna de Samuel reverberou no mundo exterior. As pessoas ao seu redor começaram a se comportar de maneira diferente, quase como um reflexo de sua nova postura. Hábitos foram revistos, estilos foram repaginados e até mesmo a dinâmica com seus supostos "melhores amigos" sofreu uma reconfiguração drástica. Samuel, agora imbuído de um senso de auto-preservação há muito adormecido, espelhou o comportamento egoísta que alguns deles sempre demonstraram, priorizando seu próprio bem-estar. E hoje, ao contemplar o panorama de sua vida, Samuel percebe que tudo se alterou radicalmente desde aquele encontro fugaz com a figura ruiva que ele idealiza em seu íntimo, uma alma gêmea que ele pressente que o destino ainda cruzará em seu caminho. Ele não era uma exceção à regra: poucos dos inúmeros amigos que o cercavam em sua antiga vida de abnegação acolheram essa nova versão de si. Mas a opinião alheia, outrora um fator determinante em suas decisões, agora esvaía-se como fumaça. Por quê? Porque Samuel, mesmo reconhecendo suas fragilidades, finalmente se colocava em primeiro lugar, agindo em benefício próprio e daquele que se manteve ao seu lado nas tempestades e nos dias de sol: Timothy. A amizade entre os dois floresceu nos corredores barulhentos do Ensino Fundamental e, com o passar dos anos, teceu laços tão fortes que desafiavam a lógica. Como um garoto rotulado como "problema" como Tim pôde se tornar o confidente inabalável de um jovem tão correto e linear como Samuel? Era um enigma que pairava no ar, sem solução aparente. E mesmo sendo alvo constante de bullying na escola, sendo frequentemente resgatado das garras dos opressores por Timothy, Samuel jamais perdia a oportunidade de internalizar um sonoro "f**a-se" para as adversidades, seguindo em frente com um passo leve e uma melodia no coração. Aquele dia em particular não amanheceu tingido de tristeza, nem sequer adornado por uma suave melancolia. Era um dia comum, em sua normalidade prosaica. Mas quando a tristeza o visitava, Samuel a recebia com a mesma naturalidade. Para ele, a tristeza não era uma intrusa indesejada, mas sim um sentimento legítimo, um registro pungente de sua sensibilidade. Uma sensibilidade que ora explodia em gargalhadas contagiantes em meio à multidão, ora buscava o refúgio do silêncio e da solidão. Estar triste não era sinônimo de depressão, uma distinção que Samuel compreendia profundamente. E assim, ele seguia sua jornada, encontrando contentamento e alegria na lealdade inabalável de seu melhor amigo, o único que permaneceu quando a maioria dos outros se dispersou.
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